mnmlist: CRÍTICA: O CULTO DO AMADOR

O livro O Culto do Amador, de Andrew Keen, foi lançado em 2009 no Brasil (2007 nos EUA). Fui ler estes dias, depois de ouvir citações. Há tempos não leio nada com que eu discorde tanto. O livro foi alvo de polêmicas nos EUA e muita gente ficou muito irridata. Mas muitos argumentos do livro me pareceram bem pouco sólidos.

Resolvi usar o livro como exemplo para começar aqui um modelo de fichamento dos livros que ando lendo, algo que talvez facilite a redação da minha tese dissertação de mestrado em 2010. Abro, portanto, a seção Crítica.

KEEN, Andrew. O culto do amador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.
Keen não apenas é contra o que hoje muitos proclamam como revolução digital, mas chama inclusive de macacos os produtores de “conteúdo colaborativo” da rede.

A inspiração deste livro [vem de] T. H. Huxley, biólogo evolucionista do século XIX e autor do teorema do macaco infinito. Se fornecermos um número infinito de máquinas de escrever, alguns macacos em algum lugar vão acabar criando uma obra-prima – uma peça de Shakespeare, um diálogo de Platão ou um tratado econômico de Adam Smith. […] A tecnologia de hoje vincula todos aqueles macacos a todas aquelas máquinas de escrever.

Segundo ele, sem um mediador – seja um jornalista ou uma loja de discos – para definir o que é bom, confiável e de qualidade, as pessoas irão se afogar no consumo de produtos feitos por amadores, que na maior parte das vezes significa lixo. Assim, diz, “blogs, MySpace, YuoTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores” – esse é o subtítulo do livro.

As críticas de Keen parecem fora de lugar – não apenas um tanto nostálgicas, na linha “antes era muito melhor”, mas também deslocadas da realidade. Não é verdade, por exemplo, que o interesse das pessoas seja diluído por completo na rede. As pessoas continuam buscando e acessando, em sua grande maioria, os mesmos “portos” para receber informação que acessavam quando não havia internet. Na rede, inclusive, a concentração parece ser maior.

Vale reproduzir trecho do texto de Murilo César Soares, Tecnologia e Sociedade: a internet como utopia:

VAZ (2004) focaliza a idealização inicial da rede de computadores, como um ambiente igualitário, citando os resultados de pesquisas desenvolvidas em Harvard:

“…embora haja milhões de Websites, na prática esta diversidade é ignorada: embora possam ir para muitos lugares, a maiora dos usuários visita os mesmos. Devido ao modo de funcionamento – os mecanismos de buscas hierarquizam as respostas pelo número de links que um dado website “recebe” de outros – há uma concentração da mídia no mundo on-line maior do que a existente no off-line.

Um estudo citado pelo autor revelou que nos primeiros dias do ataque ao Iraque pelos Estados Unidos, 32% dos internautas norte-americanos que procuraram a Internet para se informar sobre a guerra contra o Iraque acessaram os sites das redes de TV, 29% os sites dos jornais e 15% sites do governo. Apenas 10% acessaram sites de empresas de notícias de outros países; 8% visitaram sites alternativos e 6% leram sites de grupos que se opunham à guerra.(VAZ, 2004)

McCHESNEY (1999) lamentou que a Internet esteja se tomando o aspecto concentrador da mídia convencional, ao se tornar cada vez mais importante para gigantescas empresas mediáticas. Tudo começou, segundo ele, com a inexistência de um debate público sobre a maneira como iria funcionar a Internet. Os lobbies, naturalmente, não tinham nenhum interesse na discussão do interesse coletivo e viam a rede como um campo aberto à comercialização. Com isso, as possibilidades emancipatórias da Internet definharam ao longo do tempo. Nas palavras de uma matéria do The New York Times, na Internet “o grande se torna maior e o pequeno some”, concluindo que a rede ao invés de apresentar um viés competitivo, na verdade parece estimular o monopólio ou o oligopólio. Assim, apesar de no começo parecer favorecer Davi contra Golias, a Internet rapidamente beneficiou o tamanho gigante, tornando-se dominada pelas corporações de sempre. Para McCHESNEY, alguns participantes novos aparecerão no campo do conteúdo, mas tudo indica que o mundo da comunicação digital será muito parecido ao mundo comercial pré-digital.

Ou seja: a cultura de massa continuará a passar pelos mesmos gatekeepers de antes. Para saber onde acontecem os melhores shows, as pessoas buscam a versão digital do jornal, não um punhado de blogs. Feliz ou infelizmente.

No entanto, algumas das críticas de Keen são interessantes, desconsiderando o tom apocalíptico que ele prega. O que ele diz é existir hoje um culto ao amador, em detrimento do especialista. Para ele, é um terror o fato de que “A Wikipedia de Jimmy Wales, com seus milhões de editores amadores e conteúdo não confiável, é o 17º site mais acessado da internet; Britannica.com, com seus 100 ganhadores do Prêmio Nobel e 4 mil colaboradores especialistas, está em 5.128º lugar”.

O amador, de fato, não pode ser colocado no lugar do especialista para resolver qualquer questão. Um milhão de amadores vale mais do que um – ou um punhado – de especialistas? Ele lembra o que é um amador:

“Um amador é quem cultiva um hobby, podendo ser culto ou não, alguém que não ganha a vida com seu campo de interesse, um leigo a quem faltam credenciais […] Alguém que pratica alguma coisa como passatempo; um executante não-remunerado, também (depreciativo) um diletante [Oxford English Dictionary para estes últimos]”

E aí entra, também, na complexa e tão debatida questão do cidadão-jornalista.

“A responsabilidade de um jornalista é informar, não conversar conosco. […] Na Blogosfera, publicar nosso próprio “jornalismo” é grátis, não exige esforço e está a salvo de restrições éticas irritantes e conselhos editoriais importunos”.

Este é um longo debate e é importante uma base para iniciá-lo: o que é o jornalismo?

Keen também teme o fim da indústria cultural como a conhecemos. Não acho, em hipótese alguma, que isso seja ruim. Talvez uma reinvenção do modelo de negócio esteja a caminho, a exemplo do que ocorre com o tecnobrega. Mas ele está assustado:

“Existem hoje [2007] nos EUA 25% menos lojas de discos do que em 2005. É por isso que a IFPI instaurou 8 mil novos processos contra pessoas que baixam musica ilegalmente apenas em 2006. […] Para 98% dos “consumidores” atuais, a música é agora mais gratuita que eletricidade ou água”

Segundo Keen, não se pode abandonar de uma hora pra outra “200 anos de copyright”. E diz que as novas gerações estão achando que roubar é normal porque baixam música da internet. Muita gente rebate este argumento com o “exemplo da fita K7”. Você não emprestava fitas para os amigos copiarem? Isso era roubo? A diferença é que isso ocorre, agora, em escala global. A diferença estaria no uso para fins comerciais: gravar num CD e vender, por exemplo.

Keen cita alguns exemplos de histórias onde as pessoas pensaram que um amador havia realizado um vídeo, ou um trabalho qualquer, e no final descobre-se que era um trabalho profissional, feito para as pessoas pensarem que era de um amador. Por exemplo, um vídeo que ataca Al Gore pelo documentário Uma Verdade Incoveniente, que depois se descobriu ter sido financiado pela Exxon.

“Howard Kurz, do Washington Post, resumiu assim a farsa de Lonelygirl15:

O que a internet tem de excelente é que qualquer pessoa, até uma garota solitária de 16 anos, pode registrar seus pensamentos e atrair um grande número de adeptos. O que a internet tem de enlouquecedor é que ela pode não ser solitária ou não ter 16 anos.”

Keen diz que a internet dificulta o discernimento do que é verdadeiro ou não. Talvez dificulte, mas panfletos apócrifos sempre existiram. As pessoas aprendem a perceber quando um cartaz colado no poste é sério ou não. Ou será que não?

MAIS:

O blog do Andrew Keen

Belo debate entre Keen vs. Weinberger.
[Onde pode-se ficar convencido de que Keen é um belo polemista, com uma retórica que funciona principalmente entre desavisados…]

UPDATE: uma lista de posts do ótimo GJOL sobre o Andrew Keen

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