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Liberdade seqüestrada
O aumento
da violência e ações de terrorismo levou alguns países
a optarem por uma linha de ação mais rígida contra
o crime, afetando liberdades de seus cidadãos - o Brasil deveria
fazer o mesmo?
Por André
Deak*
EmCrise 03/2003
Guarujá. Dois rapazes de motocicleta
são surpreendidos por uma Blazer da polícia. A moto acelera,
tenta escapar, mas a aflição da fuga derruba os garotos
de 19 e 16 anos - e traça seus destinos. Espancados pelos policiais,
são colocados no camburão e somem na noite. Aparecem depois
em um lixão, perto da praia Santa Cruz dos Navegantes. Mortos.
Rio de Janeiro. Até pouco tempo atrás, um traficante retalhava
suas vítimas com uma espada de samurai. Era comum também
que as colocasse dentro de pneus empilhados e incendiasse, num ritual
conhecido como "microondas". Em outubro, o Palácio da
Guanabara foi metralhado e uma granada detonada na calçada de um
shopping center, na mesma noite. Em fevereiro de 2003, o exército
tomava as ruas da cidade.
São Paulo. Um carro-bomba com 30 quilos de explosivos é
encontrado na Rodovia Anhangüera. Ele serviria para um atentado à
Bolsa de Valores e, de acordo com especialistas, seria capaz de até
mesmo derrubar o prédio da instituição.
A violência parece não conhecer limites, atinge a todos,
devora as cidades. Se antes o Estado era ineficaz apenas nos morros e
a guerra era travada somente nas páginas policiais, agora toda
a população tem medo - um medo generalizado, globalizado.
A polícia tenta, inutilmente, deter o crescimento do crime com
respostas duras. A população brasileira oferece sua liberdade
em troca de mais segurança, apesar da experiência - norte-americana,
inclusive - já ter provado que essa é uma troca inútil:
a violência não pára. Como diz a procuradora Flávia
Piovesan: "Sob a desculpa de combater o Império do Mal, acabam
propagando o mal do império".
O crime não pode ser combatido com respostas emocionais. Atualmente,
entretanto, não é o que assistimos, com ações
como a criação do Grupo de Repressão e Análise
dos Delitos de Intolerância (Gradi), por exemplo, em março
de 2000, logo após o assassinato do adestrador de cães Edson
Neris por skinheads, quando andava de mãos dadas com outro homem
na Praça da República, em São Paulo. "O Gradi
constituiu-se em um serviço de inteligência e de provocação,
visando a constituir um fichário de militantes e ativistas políticos
jovens", diz um documento do Grupo Tortura Nunca Mais, de São
Paulo. Essa entidade, entre outras, acusa a instituição
policial e pede sua extinção. "O mesmo Governo do Estado
de São Paulo que, com uma mão, homenageia os expresos e
perseguidos políticos com a inauguração do Memorial
da Liberdade no antigo prédio do Dops, com a outra mão deixa
crescer à sua sombra o embrião de um novo Dops". Citando
uma série de eventos em que o Gradi teria atuado como polícia
política, a entidade revela histórias de ativistas que receberam
propostas para se tornarem informantes da polícia e ameaças
no caso de não-cooperação.
A repressão ao crime é mais forte do que se imagina. Um
dos grandes problemas, segundo o jurista e secretario da Justiça
e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo, Alexandre de Moraes,
é que "o ditado de que 'a Justiça tarda, mas não
falha' é falso. Se a Justiça tarda, ela já é
falha. Porque gera impunidade. O sujeito pega uma pena 130 anos de cadeia,
mas está na rua em liberdade. Qual é a vantagem de ser honesto
se quem é desonesto nunca vai para a cadeia?"
Ação
e reação
Quanto mais violência chega à classe média, mais reacionária
a sociedade fica. "A única coisa positiva é que a situação
chegou a um estágio tão insustentável que nem a classe
média tem mais seus direitos minimamente protegidos: não
pode abrir as janelas do carro ou mesmo abrir seu comércio. Isso
tirou a violência da agenda privada e levou para a pública",
diz Flávia Piovesan. Para comprovar sua tese de sociedade reacionária,
uma pesquisa realizada nas principais capitais e grandes cidades do país,
entre julho e agosto, mostra que 87,9% dos brasileiros são favoráveis
à redução da idade penal de 18 para 16 anos. "Não
existe um país qualquer no mundo que dê o direito de matar
ao menor. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é
uma arma. Reduzir a maioridade penal é uma tendência mundial.
Sem uma redução radical da idade, essa garotada assume o
direito de matar", defende o pesquisador Ib Teixeira. Essa mesma
pesquisa mostra que 57,5% dos brasileiros são a favor da pena de
morte e que 82% aprovam a idéia de utilizar as Forças Armadas
para combater a violência em casos especiais, como a guerra contra
o tráfico.
A diminuição da idade penal, entretanto, não é
a solução na visão do pesquisador Luiz Antônio
de Souza: "No Brasil, teremos uma enxurrada de jovens presos e o
Judiciário sequer está preparado para a demanda que já
tem. Além disso, não há garantias de que teremos
um tratamento adequado para os jovens. As pessoas acham que o ECA é
leniente, mas não é. Pensam que o jovem criminoso é
liberado quando faz 18 anos, mas há uma visão equívoca.
Se o crime é leve, é libertado, mas se é grave, como
homicídio ou latrocínio, a pena pode ser estendida".
"A resposta emocional é compreensível, mas não
traz solução. Temos que ter serenidade, saber que não
vamos resolver esse problema do dia para a noite e adotar, além
de medidas preventivas, uma agenda maior de atuação: programas
de lazer, atividades ocupacionais, até a iluminação
das ruas causam impactos na violência", diz Piovesan.
A saída
não é pela direita
"A grande resposta que um mundo democrático pode dar ao terrorismo
é justamente não usar o terrorismo. Quando se utilizam meios
parecidos com os que se combate, a luta perde a razão. O que se
deve fazer é usar a Constituição, e não criar
novas leis ou acabar com as antigas", diz o jurista Tércio
Sampaio. Na mesma linha, Luiz Antônio de Souza afirma que "essa
bravata de rota na rua é bobagem. Esse tipo de polícia que
chega com o pé na porta é a pré-história da
polícia". "Desde meados de 70, os EUA combatem as drogas
em seu território com violência e vê apenas seus gastos
das contas públicas aumentarem. E eles têm a maior taxa de
encarceramento do planeta. Continuamos tendendo a achar que medidas legais
mais duras vão evitar os crimes, mas isso é um equivoco.
Não trazem garantias e são muito mais caras e desumanas.
É só um castigo, e isso é um retrocesso. O criminoso
que manipula recursos tem muita chance de se livrar de uma apreensão
policial. De cada 10 criminosos presos, por conta da corrupção,
cinco se libertam sem ter nem B.O. aberto. Ao passo que os criminosos
pobres são presos e julgados por não terem capacidade de
negociação com o sistema."
Outro dado geralmente esquecido é que não adianta prometer
mais prisões. Alexandre de Moraes, secretário da Justiça
e da Defesa da Cidadania, afirma que "nos últimos cinco meses
houve cerca de mil prisões por mês - e mais de 100 mil mandatos.
É impossível continuar nesse ritmo. O Estado teria de gastar
todo o orçamento com a construção de presídios,
isso é absurdo". Roberto Romano, professor titular do departamento
de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
de Campinas, a Unicamp, completa: "Hoje o bom juiz é aquele
que dá 50 sentenças num mês, não? E o bom professor
é aquele que escreve 50 teses em um mês. Esse critério
de quantidade ao invés da qualidade só leva ao caos."
A resposta, segundo o secretário, é "fazer como na
Europa, onde só crimes graves levam à cadeia. Atropelou
alguém, fica uma ano, toda semana, ajudando no hospital. É
algo muito mais inteligente, mais salutar. Ficar um mês na prisão
é pior do que cumprir um ano de serviço comunitário,
tanto para o condenado quanto para a sociedade."
Souza, do NEV, acrescenta que a instituição de uma polícia
comunitária. "Hoje a política dos EUA tem duas faces:
a preventiva e a repressiva, para onde boa parte dos recursos públicos
vão. Nós somos influenciados por esses dois modelos, mas
o repressivo é, sem dúvida, o que mais nos atrai."
"Estratégias preventivas, entretanto, só podem ser
desenvolvidas onde o problema não é tão intenso,
onde o crime organizado não é dominante", contrapõe
Paulo de Mesquita Neto, secretário executivo do Instituto São
Paulo Contra a Violência. "A prevenção serve
para evitar o crime de rua, a violência das gangues juvenis, entre
vizinhos, coisas desse tipo", explica. E "a ponta da prevenção
é feita com educação", diz Alexandre de Moraes.
"O principal é a falta de informação. Se cerca
de 90% dos crimes graves giram em torno do narcotráfico, então
o Estado deve explicar aos jovens que os soldados do tráfico não
passam dos 25 anos - para que ele perceba que não vale a pena entrar
para o crime organizado. Temos que focar numa linguagem que o jovem entenda,
não dizer que é proibido e pronto."
"Só que, em ano eleitoral, o maior discurso é a linha
dura, infelizmente", diz Mesquita Neto. "Deveriam esquecer a
ideologia e utilizar apenas as estratégias que funcionam, que são
comprovadas."
Uma dessas estratégias vem da Europa. De acordo com Angelina Peralva,
pesquisadora que trabalha no Centre d'Analyse et d'Intervention Sociologique,
"a França adotou há pouco mais de um ano dois dispositivos
de luta contra a violência urbana que também estão
fazendo sucesso no Brasil. Na verdade, são fórmulas que
já vinham sendo adotadas na Inglaterra e no Canadá, por
exemplo. Trata-se da 'polícia de proximidade' e dos 'contratos
locais de segurança'. A polícia de proximidade é
uma policia 'comunitária', presente nos bairros populares de forma
quotidiana, com policiais conhecidos da população e cujo
objetivo é instaurar uma relação de confiança
que contribui para a prevenção da violência. O limite
do dispositivo, no caso da França, é a falta de gente. Há
policiais em número suficiente para trabalhar durante o dia, mas
a noite o policiamento é feito com a mobilização
de um dispositivo truculento, o que engendra conflitos inúteis
com a juventude dos bairros pobres, chegando às vezes a algumas
derrapagens indesejáveis. Os contratos locais de segurança
correspondem à evolução de um dispositivo bem mais
antigo - os conselhos comunais de prevenção da delinqüência.
Trata-se de uma associação de instituições
de natureza diversa (transportes públicos, escolas, polícia,
assistentes sociais, etc.), que sentam juntos com a população
para conversar sobre os problemas de segurança nos bairros."
Exemplo
dos EUA
"Quando houver ainda mais policias nas ruas e o crime não
diminuir, a população vai sentir-se frustrada", alerta
Piovesan. E então ocorre o seguinte: 79% dos norte-americanos trocam
sua liberdade pela segurança". Ultimamente, os Estados Unidos
aumentaram as restrições às liberdades de associação,
tornaram sua legislação discriminatória, trouxeram
à tona casos de tortura contra presos e ampliaram o período
de detenção, entre várias outras medidas contra o
terrorismo que afetaram as liberdades civis.
O professor da Unicamp Roberto Romano explica que entregar a própria
liberdade em defesa de qualquer outro benefício é um princípio
muito antigo: "Já em Platão existia a idéia
a respeito de pessoas que gostam de servir. Textos antigos como O Discurso
da Servidão Voluntária, escrito em 1549 por Etienne de La
Boétie ou, mais recentemente, Massa e Poder, escrito por Elias
Canetti em 1986, mostram esse desejo das massas de serem dirigidas. É
o mesmo fenômeno que levou ao fascismo, ao nazismo e ao apoio à
ditadura. Como dizia Kant, a questão da liberdade é também
uma questão de coragem."
Em outras palavras, Piovesan faz um alerta parecido: "O grande perigo
do combate que está sendo feito ao terrorismo é que ele
pode gerar o terrorismo do Estado".
A situação dos EUA chegou a tal ponto que o jornal The New
York Times publicou recentemente um editorial intitulado "A guerra
das liberdades civis", onde critica o governo norte-americano e defende
a atitude corajosa de dois juízes: "Gladys Kessler, da Corte
Distrital Federal de Washington, D.C., declarou que prisões secretas,
efetuadas contra supostos terroristas, são 'odiosas para uma sociedade
democrática' e ordenou que o governo revelasse os nomes de todos
os detidos. Não foi feito ainda. E o juiz Robert Doumar, da Corte
Distrital Federal de Norfolk, Vrrmont, que prese um dos casos sobre "combatentes
inimigos", recentemente disse aos promotores que submetessem a ele
documentos para que determinasse se o réu era de fato um combatente
inimigo. O Departamento de Justiça, vergonhosamente, desdenhou
sua ordem". Sobre as mais de mil pessoas que foram presas nos EUA
desde 11 de setembro sem que tivessem seus nomes revelados, Kessler disse
que "mandatos de prisão secretos são um conceito odioso
para uma sociedade democrática".
Os efeitos do retrocesso às liberdades norte-americanas já
fizeram, ao menos, um outro país seguir o exemplo: a presidente
da Indonésia, Megawati Sukarnoputri assinou no mês de outubro
dois decretos emergenciais para combater o terrorismo e, de acordo com
o ministro da Justiça, Yusril Ihza Mahendra, "a nova lei pode
restringir alguns direitos dos cidadãos, mas tudo isto tem como
objetivo proteger os direitos humanos".
Antes dos efeitos do ataque terrorista, entretanto, os EUA já protagonizavam
debates a respeito dos limites que podem ou não serem transpassados
pelos Estado em nome da segurança. O Parlamento Europeu divulgou,
há alguns anos, um estudo revelando que os Estados Unidos mantinham
um sistema de espionagem chamado Echelon, capaz de rastrear comunicações
eletrônicas globais - e-mails, por exemplo. A principal função
desse sistema, diziam, era descobrir pistas sobre terroristas, esquemas
de corrupção e cartéis de drogas, mas o relatório
europeu chegou a acusar o sistema de ser utilizado para espionagem industrial
também. Há alguns anos, o FBI desenvolveu um dispositivo
avançado chamado Carnivore, um aparelho capaz de grampear o conteúdo
das home pages visitadas pelo internauta. Desde que veio à tona,
entretanto, é necessária uma ordem judicial para interceptar
comunicação via internet, comparando-a às ligações
telefônicas. O jurista Tércio Sampaio lembra: "A escuta
sem ordem judicial, sem dúvida, é uma afronta à liberdade.
A constituição é muito rígida quanto a isso:
a privacidade é um dos direitos fundamentais do cidadão."
Outro caso bastante discutido é a defesa da instalação
de câmeras de segurança pela cidade, ao estilo do livro 1984,
de George Orwell. De acordo com uma reportagem da Folha de S.Paulo, do
ano passado, "a Prefeitura de Jersey City, cidade com uma comunidade
islâmica numerosa e de onde terroristas planejaram o atentado de
1993 ao World Trade Center, instalou câmaras de vídeo em
quase todas as ruas do centro. (...) Em Tampa, na Flórida, os torcedores
que foram ver a final do campeonato de futebol americano, em janeiro de
2001, tiveram seus rostos gravados em vídeo e comparados com um
banco de dados de 'procurados' por um software de reconhecimento facial".
Mas há maneiras melhores e menos invasivas de evitar o terrorismo.
Novamente, o exemplo francês: a pesquisadora Angelina Peralva diz
que "a França dispõe de uma polícia antiterrorista
extremamente eficiente e não violenta. Trata-se de uma polícia
investigativa. As redes são desbaratadas sem estardalhaço
e as derrapagens são raras".
Diante de tantos exemplos, ecoa a pergunta: Por que é tão
difícil criar um Estado de direito no Brasil? Peralva, da França,
dá uma resposta otimista: "Porque a democracia brasileira
é muito jovem e não dá para fazer tudo ao mesmo tempo".
Lei de
Talião
Se a Justiça não consegue reprimir, a sociedade encontra
outras maneiras. De acordo com um relatório do Centro de Justiça
Global, só no Estado de São Paulo, nos últimos dois
anos, mais de quatro mil pessoas foram torturadas - uma média de
mais de cinco por dia. Provavelmente, agora mesmo alguém está
sendo espancado ou levando choques, um método bastante utilizado
de conseguir informações durante a ditadura militar - e
que, aparentemente, deixou adeptos.
Roberto Romano, professor titular do departamento de Filosofia do Instituto
de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas, a Unicamp,
explica que "esse aumento da violência conecta-se à
perda da soberania dos Estados nacionais. Pregou-se como nunca a diminuição
das atribuições do Estado, a privatização
dos assuntos públicos, em todos os sentidos: de presídios
a escolas, dos planos nacionais de saúde aos de educação.
No caso da segurança pública, minimizaram tanto a função
do Estado que ficaram desprotegidos para enfrentar o narcotráfico
e o terrorismo internacional. O que essas políticas repressivas
fazem agora é exacerbar a repressão, deixando o modelo do
Estado intocado. Isso não responde ao problema, é até
incongruente."
A corregedoria da polícia recebe cerca de 600 denúncias
por mês contra policiais. Apesar de uns 90% delas tratarem de irregularidades
administrativas ou disciplinares, 10% ainda ligam policiais a crimes.
Em 2001, 155 policiais militares foram demitidos e 83 expulsos da corporação.
Desse total, 7% dos demitidos e 5% dos expulsos foram denunciados por
homicídio. Recentemente, com base na medida que ficou conhecida
como "via rápida", outros 87 policiais civis e 190 militares
foram demitidos por corrupção ou violência.
"Mesmo com um efetivo grande, os policiais não conseguem vencer
o crime. 'Enxugar o gelo' é a frase que eles mais falam. Com a
frustração por causa disso, não é a toa que
muitos não suportem a situação e fiquem agressivos,
respondendo com uma violência absurda a qualquer crime", explica
Luiz Antônio de Souza, pesquisador do Núcleo de Estudos da
Violência (NEV) da Universidade de São Paulo. "Nós
perdemos noção do que deve ser uma sociedade civilizada.
Assustar as pessoas não é o trabalho da polícia.
É preciso ter um mínimo de informação para
suspeitar de alguém. E se a suspeita for infundada, o policial
deveria pedir milhares de desculpas. Por que isso acontece? Pelo fato
de a polícia ter uma interpretação do seu papel que
está muito longe da que as pessoas têm do papel da polícia.
Um dos maiores problemas é que a polícia não dialoga
com os seus clientes, com os cidadãos. Nós não somos
aceitos como parceiros na luta contra o crime. Muitos policiais até
hoje acham que atrapalhamos."
Se até mesmo a polícia desrespeita os direitos civis, é
possível compreender por que a população sente-se
indefesa. Flávia Piovesan, que é também professora
de Direitos Humanos na Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo, diz: "O Estado democrático deve ser capaz
de não ceder à vingança, à lei da selva. Se
levarmos a lei do olho por olho e dente por dente às últimas
conseqüências, terminaremos todos cegos". De fato, com
a escalada de homicídios dos últimos anos, é factível
o temor de que não haverá sobreviventes nessa guerra. "O
Brasil ostenta a vergonhosa taxa de 38 mil assassinatos ao ano durante
a última década, contra 35 mil no mesmo período na
Colômbia, país em guerra civil. São Paulo, Rio de
Janeiro, Brasília e Rio Branco são as cidades mais violentas.
No Brasil, o crime de sangue foi banalizado, e vem se matando mais do
que nas guerras da Chechenia, Kosovo e Bósnia", afirma o relatório
Execuções Sumárias, Arbitrárias ou Extrajudiciais,
de abril de 2001, produzido pelo Centro de Justiça Global.
Para que se tenha uma idéia, ao longo dos anos 90, mais de 250
mil pessoas foram assassinadas. "Essa é a hecatombe brasileira",
afirma Ib Teixeira, pesquisador que trabalhou com estudos sobre violência
por 23 anos e ajudou a compor esse relatório. Ele compara: "Aqui
são 31,5 homicídios por 100 mil habitantes, por ano. O Chile
e os EUA têm uma taxa de 6,0/100 mil; a Argentina, 8,0." Em
alguns pontos, entretanto, nossos números dobram: a região
metropolitana de São Paulo chega a 60 mortes por 100 mil habitantes.
E alguns bairros, como Santa Cruz, no Rio de Janeiro, ou o Jardim Ângela,
em São Paulo, carregam taxas de 116 assassinatos. Dados do Ministério
da Justiça revelam que, "no primeiro semestre de 1999, foram
registrados, em todo o país, 23,3 mil homicídios. Em duas
décadas, o índice de homicídios no país cresceu
173,73%, passando de 9,44 por 100 mil habitantes, em 1979, para 25,84
por 100 mil habitantes em 1998."
Segundo dados oficiais do Núcleo de Pesquisa e Análise Criminal
(Nu-pac) da Secretaria de Segurança Pública - analisados
por Ignácio Cano - este ano 409 civis morreram entre janeiro a
junho em confronto com a polícia. No ano passado, no mesmo período,
foram 300 mortes. É um aumento de cerca de 36% de um ano para o
outro. O número é o mais elevado desde que a polícia
começou a contabilizar, em 1998, as mortes ocorridas em confronto.
As últimas estatísticas, divulgadas pela Segurança
Pública de São Paulo, mostram que só os seqüestros
cresceram 387,30% do ano de 2000 para 2001, subindo de 63 para 307 ocorrências.
E o número de latrocínios cresceu quase 50%, o de homicídios
culposos, 17%.
Mas, apesar de a situação parecer ruim, ela não é
verdadeira. A realidade é ainda pior: segundo uma declaração
do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência
da República, o general Alberto Cardoso, a violência no Brasil
é, pelo menos, duas vezes maior do que registram as estatísticas
oficiais das polícias. Isso ocorre porque, segundo ele, há
uma taxa muito grande de vítimas que decidem não apresentar
queixa. O secretário de Direitos Humanos do Ministério da
Justiça, Paulo Sérgio Pinheiro, dá os números:
ocorrem cerca de 35 homicídios por dia no Estado de São
Paulo, num total de 1043 por mês no ano de 2001. De acordo com o
jornal Folha de S.Paulo, "o coronel da reserva José Vicente
da Silva assusta-se mais com o número de assaltos: 1600 por dia.
'A polícia só registra 400, mas nós podemos afirmar,
a partir de recente pesquisa Datafolha, que esse número é
quatro vezes maior, porque só 23% das vítimas prestam queixa
à polícia.'"
Violência
e pobreza, relação falsa
"Violência urbana e pobreza são elementos que podem
se combinar, mas que freqüentemente não se associam e que,
seja como for, um não pode ser dado como explicação
para o outro", diz o estudo Democracia e Violência: a modernização
por baixo, da pesquisadora Angelina Peralva, que atualmente trabalha na
França.
O pesquisador do Rio de Janeiro Ib Teixeira, que trabalhou com violência
por 23 anos, também concorda: "Existem alguns mitos sobre
o assunto, e um deles é a relação da violência
com pobreza e desemprego. Se você considera que a Argentina tem
30% da População Economicamente Ativa (PEA) desempregada
atualmente e nota que tem 8 homicídios por cem mil habitantes,
percebe que isso não tem nada a ver. E quanto à pobreza,
a Etiópia, o mais pobre do mundo segundo o Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH), tem 6.1 homicídios por cem mil habitantes. Bahamas,
que tem uma renda per capita de mais de US$ 12 mil, atinge cerca de 40
homicídios por 100 mil. Como explicar isso? É um insulto
ao pobre essa história de atribuir a eles os piores crimes. Uma
vez fiz uma pesquisa em Bangu e vi que os presos mais perigosos são
quase todos da classe média-baixa e emergente, a maioria brancos,
como o Beira Mar."
"Não se pode dizer que é a pobreza ou a carência
que leva ao crime. Isso é até preconceituoso", concorda
o jurista Alexandre de Moraes. "O fator do consumo não é
o único, mas é um dos fatores que aumenta a criminalidade.
Aquele jovem que vai virar soldado do tráfico sabe que só
assim vai poder comprar aquele tênis. O excessivo consumismo acaba
prejudicando o combate, mas é apenas um dos pontos."
A Intervenção
no Espírito Santo
A procuradora Flávia Piovesan, uma das relatoras da Comissão
que analisou o caso do Espírito Santo, diz que "provas contundentes,
amparadas em fontes confiáveis como a Polícia Federal, relatórios
da CPI do narcotráfico e testemunhos da sociedade civil, entre
outras, convenceram-nos da situação dramática em
que vive aquele Estado". De acordo com ela, o crime organizado acabou
infiltrando-se nas mais diversas instituições, inclusive
o Judiciário, deixando como refém o Executivo. O relatório
da Comissão apresentou duas principais justificativas para uma
intervenção federal: o grave comprometimento da ordem pública
e um padrão sistemático de violação dos direitos
humanos, sempre acompanhados de impunidade. O presidente, entretanto,
negou a intervenção das forças armadas.
"O que me parece fundamental seria o resgate da credibilidade das
instituições daquele Estado. Não acredito que a intervenção
federal transformaria a situação do dia para a noite, mas
teria uma carga pedagógica fundamental. Seria como se o governo
dissesse que existe algum limite. Nas últimas décadas, a
sofisticação do crime aumentou muito, ao passo que o aparato
estatal não se organizou. Então temos o crime organizado
- e o Estado desorganizado."
"Todo o combate deve apostar não só na resposta repressiva,
mas também na resposta preventiva. E romper com a idéia
de que a segurança pública é uma pasta que não
dialoga com as demais. Evidente que não é assim. Deve haver
comunicação entre poder local, estadual, federal, internacional.
Caso contrário, é isso que vemos aí."
*Publicado
originalmente na revista Diálogos&Debates nº10.
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