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Intervenção urbana criativa
"É melhor dormir em meio às vacas que em meio às suas etiquetas e respeitabilidades" (Nietzsche)
Você está caminhando por uma calçada no centro de São Paulo, apressado e distraído. Como de costume, tenta ultrapassar um homem que anda (devagar) à sua frente. Mas, de maneira brusca, ele resolve parar e dar a volta em torno de uma árvore, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Continua a andar, satisfeito. "Pá, mas já é a terceira pessoa que eu vejo dar a volta nessa árvore!", exclamou um popular, sentado em um bar próximo. Os transeuntes continuam observando a cena com uma expressão de perplexidade e medo, pensando coisas como: "Que será que aconteceu com esse maluco?", "Acho que é promessa", ou "Será que a gente ganha algo se der a volta também?". Era a "Trajetória em Torno da Árvore" - sim, há um nome pra isso -, parte de uma espécie de jogo ou intervenção criativa nas ruas de São Paulo. A coisa aconteceu em 1978, em frente à Biblioteca Mário de Andrade, no centro, e foi uma invenção de oito membros do grupo "Viajou Sem Passaporte". Tudo bem, é estranho. Foi apenas o início de várias outras intervenções, tão incoerentes quanto essa: a Trajetória do Curativo, a Trajetória do Paletó, o Trem Fantasma no Parque Ibirapuera e o Fim da Década. Todos projetos aparentemente sem nexo, e mesmo assim repletos de desobediência civil: segundo Luis Sergio Raghy, um dos participantes, o objetivo era instaurar uma crise na normalidade vigente, lutando contra a sujeição às regras e buscando a liberdade. Por exemplo: a Trajetória do Curativo. "A gente pegou uma linha de ônibus e ficou um em cada ponto. Cada um com um curativo no olho. E tinha dentro do ônibus uma pessoa disfarçada de passageiro, só pra observar", conta Raghy, na publicação Arte em Revista. "Então o primeiro deles entrava no ônibus, passava a catraca, curativo no olho e tudo bem". No ponto seguinte, outro deles subia, também com um curativo no rosto. O ônibus ia andando e sempre tinha um com um enorme curativo, contente, agindo como se tudo estivesse na mais sacrossanta ordem. Em cada ponto descia um e subia outro. Num determinado momento, o motorista já virava para trás e o clima estava estranho. As pessoas trocavam olhares: "Quer dizer: um ou dois talvez fosse uma coincidência, mas dez caras.., é foda! Tem alguma coisa aí". Os passageiros ficavam cochichando - será que é organizado? Mas quem é se organizaria pra fazer um troço desses, por Deus? No último ponto da trajetória tinha um cara do grupo, segurando um cartaz com um rosto desenhado e o curativo colado, com o nome "Trajetória do Curativo", assinado: "Viajou sem Passaporte". Imagina só a cara das pessoas, observando a cena. Tais práticas, dotadas de um nível de bobice invejável, poderiam muito bem enquadrar-se na desobediência civil de Thoreau ou no "Pequeno Manual de Subversão Cotidiana", de Marcelo Träsel. "Seja para minar os pilares do capitalismo, seja por simples diversão, aqui vão algumas idéias de como atrapalhar o bom andamento da ordem e do progresso", disse Träsel. A Libertad, personagem do Quino, completa: "Una pulga no puede picar a una locomotora, pero puede llenar de ronchas al maquinista". O que importa é cutucar. Seja utilizando métodos de interrogação platônica (questionar infinitamente o porquê das coisas, como uma criancinha birrenta, até que algo se mostre insustentável), ou mesmo dando repetidas voltas em torno da árvore.
Um grupo de sociólogos americanos já fez experiências desse tipo, apenas para testar a reação das pessoas diante da "profanação" de regras cotidianas. Harold Garfinkel, por exemplo, mandou os alunos testarem as reações de seus próprios amigos. Saíram diálogos do tipo:
Muitas vezes, a coisa ia mais longe:
Algumas experiências eram realizadas dentro da própria família: a orientação era de que os alunos agissem em casa como se fossem hóspedes, de maneira polida e distanciada, que é o que geralmente acontece nas relações formais cotidianas, com pessoas desconhecidas. Tente responder ao seu melhor amigo: "Concordo plenamente, sr. Herzberg!", como fez um dos alunos para o pai. Experimente não parecer feliz dentro de uma sala de aula, com os seus (supostos) colegas, para ver como aparentar alegria é uma norma a ser cumprida, o tempo todo. As reações são das mais esquisitas: Qual o problema? O que você tem? Você foi demitido? Está doente? Por que está sendo tão arrogante? Andou bebendo? Você é idiota? Por que você está maluco? Um dos estudantes "envergonhou" sua mãe na frente dos amigos dela, apenas por ter entrado na sala e feito a seguinte pergunta: "Desculpe, mãe, mas a senhora se importaria se eu apanhasse um lanche na geladeira?". Ela ficou furiosa e tentou explicar às amigas que o filho estava doente, trabalhando bastante ou algo do gênero. Um dos pais chegou a dizer:
O senhor poderia segurar meu paletó? O que fazer numa sociedade previsível e aprisionante? "Todos reconhecem o direito à revolução, ou seja, o direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis a sua tirania e ineficiência", responde Thoreau. E então, um grupo de intervenção urbana organiza a incoerente Trajetória do Paletó. Era assim: entrava um cara no ônibus vestindo um paletó. Um calor absurdo, as pessoas derretendo em seus bancos e aquele cara ali, de paletó. Então outro homem subia e sentava na frente, como se ambos não se conhecessem. De repente, o que estava com o paletó passava pro outro, dizendo: "O senhor poderia segurar o meu paletó?". E depois descia, sem mais nem menos, deixando a roupa nas mãos de um suposto desconhecido. Que, dentro de alguns instantes, passava o paletó para o terceiro homem do grupo, e assim por diante. Raghy era o último a receber a roupa, e sua missão era entregar o paletó a algum passageiro qualquer, aleatoriamente. "Na hora que eu subi já estavam dando gargalhadas", diz. Ele conta como foi:
Pode parecer total falta de coerência, mas é (também) revolucionário. Quando a intervenção é nas ruas, são muitos os que admitem a quebra dos padrões e rendem-se à irreverência total com relação às regras; mas, quando a subversão acontece dentro de certos locais (a escola, por exemplo), a coerção se faz sentir. Mesmo assim, para Henry Thoreau sai mais barato - em todos os sentidos - sofrer a penalidade pela desobediência do que obedecer. E ele vai além: sob uma sociedade que prende os cidadãos numa rotina coercitiva e insuportável, o único lugar digno é a prisão. Declara, em A Desobediência Civil: "Hoje em dia, o lugar próprio, o único lugar que Massachusetts reserva para os seus habitantes mais livres e menos desalentados são as suas prisões, nas quais serão confinados e trancados longe do Estado, por um ato do próprio Estado, pois os que vão para a prisão já antes tinham se confinado nos seus princípios. [...] É aí, nesse chão discriminado, mas tão mais livre e honroso, onde o Estado planta os que não estão com ele mas sim contra ele - a única casa num Estado-senzala na qual um homem livre pode perseverar com honra". *texto publicado originalmente nas revistas Fraude e Rizoma. |