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Os campesinos cosmopolitas Criada em 1992, na Nicarágua,
a Via Campesina pretende construir uma unidade internacional dos trabalhadores
rurais excluídos. Para tanto, inspira-se em modelos socialistas
de gestão e divisão da terra Por Jorge
Pereira Filho 1989. Uma palavra de ordem ganha força no continente americano: "unidade na diversidade". Movimentos indígenas, negros, feministas, camponeses e populares preparam a globalização da solidariedade. É uma resposta ao governo espanhol, empenhado em fazer do 5º Centenário da descoberta das Américas uma grande festa. Nasce um grito: a Campanha dos 500 anos de Resistência. A iniciativa espalhou-se pelo continente, criou uma relação entre movimentos sociais inexistente, ou tênue até então, e deu voz aos excluídos do grande banquete privado que é a globalização neoliberal. Abril de 1992. Congresso da União Nacional de Agricultores e Pecuaristas na Nicarágua. Organizações camponesas latino-americanas comparecem em peso, ao lado de algumas norte-americanas e outras européias. A semente germinou: o que era uma campanha pela resistência vira movimento. Nasce a Via Campesina. "Queremos construir a unidade dos excluídos e vítimas do modelo capitalista em todo o mundo", define Rafael Alegria, secretário-geral do movimento. Em pouco mais de três anos, 37 países, 69 organizações nacionais e regionais compunham a Via Campesina. E qual o motivo desse crescimento? "As políticas neoliberais ganharam força na América Latina e também no mundo todo. O impacto sobre a agricultura foi terrível. Era necessária uma voz campesina para se opor ao grande foro de poder mundial: à ONU, à OMC e ao FMI, os três responsáveis pelo modelo neoliberal, a pobreza, a destruição da natureza", explica Alegria. A Via Campesina surgiu sem ligação formal com partidos políticos. Desde o início, procurou autonomia, um discurso próprio. "O movimento trouxe para os agricultores uma agenda comum, questões que mobilizavam o campo", avalia Angela Aschwengber, ex-secretária-executiva de relações pública do MST. Angela trabalhou na Coordenadora Latino-Americana das Organizações do Campo (Cloc) e acompanhou o processo de formação da Via Campesina. "As organizações campesinas passavam por uma crise mundial, depois da queda do Muro de Berlim. Havia uma avaliação de que uma ligação muito direta com os partidos comunistas foi prejudicial. E eles começaram a buscar independência." Soberania alimentar, reforma agrária, agricultura sustentável, direitos humanos, migrações e biodiversidade de recursos genéticos. Esses são os temas centrais do movimento. Mais que unificar a diversidade da exclusão, a Via Campesina formulou uma pauta nova e ampla para os agricultores. "A diferença em relação a outros movimentos campesinos latino-americanos, como o Cloc, que também buscava uma articulação internacional, é justamente a política mais propositiva da Via Campesina. A luta não é só contra o latifúndio. É pela agricultura camponesa", analisa Angela. Temas como transgênicos, produção orgânica e direito de patente começaram a ser discutidos também pelos sem-terra, indígenas e pequenos agricultores. Resposta ao avanço do poder das multinacionais, que cada vez mais se aproximavam com sua sede monopolizadora da porteira rural. Assim, esta globalização pôde computar mais um feito: conseguiu unir movimentos populares da América Latina em torno de uma mesma luta. "Aprendemos a respeitar a diversidade, nos prendemos na convergência. O consenso da Via Campesina é lutar contra o neoliberalismo", explica Egídio Brunetto, dirigente do MST. "Creio que é um processo recente, começou agora, mas vimos que temos muitos objetivos comuns", diz Blanca Chancoso, uma das líderes da Confederação das Nações Indígenas do Equador (Conaie), que integra a Via Campesina. O Equador sofre, hoje, os efeitos da cartilha neoliberal. Economia dolarizada, privatização, corte de gastos públicos. Para Blanca, o país se aplicou tanto em cumprir os ditames dos organismos multilaterais que ganhou o seu prêmio. "Fomos tão esforçados que um ministro nosso recebeu a presidência da mesa de negociação da Alca." Dois anos após a dolarização da economia, o país vê as promessas dos seus economistas ruírem, a população empobrecer e a inflação galopar. "Todos pensavam que a dolarização ia melhorar o país, que haveria estabilidade econômica. Mas, na realidade, nada disso existe. O povo perdeu a soberania e o sistema não mudou. Hoje, um almoço custa o equivalente a 25 mil sucres. Antes, eram 10 mil", conta a líder indígena. Blanca vive na cidade. Seu pai era agricultor, não tinha terra, trabalhava na fazenda de um latifundiário. Um dia, decidiu que aquilo não era vida e foi morar em Quito, periferia, onde nasceu Blanca. E como manter a chama da cultura indígena acesa na metrópole? "Temos uma filosofia de resistência muito forte. Mesmo na cidade, preservamos nossos idiomas, nossas roupas, nossos rituais, nossas festas", explica. A principal luta do movimento indígena no Equador é contra as multinacionais, que desrespeitam as demarcações. "As empresas petrolíferas ocupam nossas terras e ainda contam com anuência do governo. Proteger nossa terra das multinacionais é um dos nossos objetivos", diz. Na República Dominicana, a luta pela terra também passa pela luta contra as empresas. "O estado dominicano e grandes companhias estão desenvolvendo processos de desalojamento", denuncia Pedro Franco, líder do Conselho de Unidade Popular (CUP). De 1986 a 92, o então presidente Joaquin Balaguer preparou o país para as comemorações do 5º Centenário do Descobrimento. Resultado: centenas de milhares de famílias desalojadas. "É um genocídio cultural, tirar as pessoas do seu habitat. A maioria das casas em San Domingos são tradicionais, construídas artesanalmente. Tudo isso foi perdido", diz Franco. Um dos grandes problemas da questão de terra na República Dominicana é a falta de títulos de propriedades. Cerca de 80% das casas foram construídas pelas mãos da própria populações e não têm escritura. "Queremos que o governo interrompa os desalojamentos, que ainda estão ocorrendo, e inicie um processo participativo de regularização das pessoas que não têm título de propriedade de suas terras", afirma Franco. A maior parte da população da República Dominicana vive na cidade. Antes, os engenhos de cana-de-açúcar eram o principal produto do país. Hoje, os dominicanos compram açúcar brasileiro. Na Guatemala, grande parte da população também não tem título de propriedade, mas os latifúndios são problema maior. Cerca de 85% da terra está nas mãos de 10% dos habitantes. Índices altíssimos. Bem próximos aos do Brasil. O país da América Central atravessa uma de suas piores crises. "Com a queda do café, há um milhão de desempregados. Os grandes fazendeiros não plantam. São muito atrasados, têm técnicas produtivas defasadas e o monopólio do produto", diz Daniel Pascual, porta-voz da Coordenadora Nacional de Organizações Campesinas (CNOC). E enquanto a reforma agrária não vem, as favelas crescem e tomam até o espaço de antigas estradas de ferro. A linha de trem que corta o país desde a fronteira com o México até Honduras está tomada. Composição nenhuma trafega. "Mas, agora, o governo privatizou a linha e a empresa compradora está desalojando todos os moradores", conta Pascual. Cerca de 70% da população vive na zona rural. Sem serviços públicos. "Temos índices de analfabetismo altíssimos, quase 80%. É intencional, assim a população não conhece seus direitos", avalia Franco. Na Nicarágua, a falta de emprego, o trabalho precário e o caos econômico assolam o país. "Cerca de 15% dos nicaraguenses migraram para a Costa Rica ou os Estados Unidos. Não temos esperança. Não creio mais no governo", diz Fausto Torres, diretor da Associação dos Trabalhadores do Campo (ATC). O modelo político-econômico mundial intensificou a articulação dos movimentos da América Latina. As realidades próximas dos movimentos populares nacionais e regionais se cruzaram. Não por acaso. E levam para um caminho único, um inimigo comum. Mas, para a internacionalização, foi preciso um pouco mais. Houve a percepção de que, isolados, em seus países, os excluídos pouco poderiam fazer para se opor a uma força global. "Não há alternativa isolada. O modelo se globalizou e só existiremos se houver articulação", diz Egídio Brunetto, dirigente do MST. |