Retorno às origens do samba

Por Solange Cavalcante
EmCrise – 03/2003

Eles tocam instrumentos esquecidos como a frigideira, o prato e a faca. Isso e mais um repertório de mestres como Geraldo Filme e Candeia, músicas de autoria própria, e sambas resgatados da memória de Campinas fazem a mistura completa da boa roda de samba. Esse é o trabalho do Núcleo de Sambistas e Compositores do Cupinzeiro. O grupo é formado por alunos da Universidade de Campinas, membros do contingente negro da cidade e gente em geral, apaixonada pelo samba de raiz.

Às vésperas do carnaval, o grupo se apresentou do Sesc Ipiranga e animou o público com sambas descobertos em registros da fazenda do Barão Geraldo, onde hoje se localiza a Unicamp. A batida é funda e cadenciada. A folclorista Raquel Trindade, filha do poeta negro Solano Trindade, está presente. Com sua voz rouca, estilo Clementina de Jesus, ela puxa, com o Cupinzeiro, esses sambas centenários, relíquias de nossos antepassados:

Quando meu bem vai-se embora, ai, eu fico
Põe a laranja no chão
Minha toalha de renda
Minha toalha de bico
Põe a laranja no chão, tico-tico
Põe a laranja no chão.


A roda segue. Vem outro samba, e mais outro, quase inéditos, impregnados do suor do trabalho escravo:

Bem dizia minha vó
Sambador não tem valia
Samba nunca deu camisa
Minha vó sempre dizia
Sambador não vale nada
Dorme na calçada
Não cuida da "famía"
Quando começar o pagode
Pego o pandeiro/Caio na orgia

Bruno Ribeiro, compositor e tamborinista do grupo, expressa a intenção dos participantes: "Temos a posição, no grupo, que é romper com o desfile oficial. Vamos sair com um bloco, este ano, com a comunidade em Barão Geraldo, bairro de Campinas. É um trabalho de resistência, para recuperar o carnaval de rua antes de ele ser apropriado pelo poder público".

Mas por que Cupinzeiro? Como o jongo, o maculelê e a tiririca, será esse o nome de uma modalidade de samba esquecida no tempo? Bruno esclarece: "A gente começou a fazer roda de samba num terreiro que tinha um cupinzeiro grande sob uma mangueira. O nome pegou porque começaram a falar: 'vamos lá ver o samba do cupinzeiro'. Mas um jardineiro foi lá, jogou veneno e acabou com tudo. Quem viu, viu, porque o cupinzeiro não existe mais".

O pessoal do Cupinzeiro não quer ser visto só no período de carnaval. Para eles, seu projeto de resgate é perene. Eles convidam: para quem quiser conhecer o projeto e participar das rodas de samba, elas acontecem aos domingos, quinzenalmente, na Rua Virgílio Dal Bem, 244, em Campinas. O telefone é 3249-0422, código 019, Campinas.