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A cidade dos exilados
Quando
vim da minha terra, / se é que vim da minha terra / (não
estou morto por lá?),
A industrialização e o desenvolvimento urbano aceleraram as migrações no Brasil, a partir da década de 50. Milhões de pessoas saíram de suas terras em busca de um emprego em São Paulo, pra tentar "botar filho no colégio, dar picolé na merenda, viver bem civilizado, pagar imposto de renda" - como diria o Tom Zé - "ser eleitor registrado, ter geladeira e tevê, carteira do ministério, ter CIC, ter RG". Durante muito tempo, elas continuaram vindo pra cá. Hoje, tentam retornar às suas cidades, nem que seja para o Natal. Há 20 anos, Ivonete não vê a filha mais velha, que deixou na cidade de Entre Rios, Bahia. Apenas neste final de 2002 é que ela conseguiu o dinheiro necessário para a passagem. "Eu pensava: será que vou morrer, será que nunca mais vou ver a menina? Mas graças a Deus ainda estou aqui", diz a senhora, sentada no chão com seus dois filhos e o marido. "Tenho medo de que minha filha não me reconheça", murmurou. Ivonete e José Fernando vieram para São Paulo em 1982, com um bebê de 6 meses. Deixaram na Bahia a filha mais velha. Seu José exerceu a profissão de pedreiro, quando ainda era moço e conseguia emprego; hoje, aos 55 anos, trabalha "por conta", lamentando-se por não encontrar serviço desde 95. "Ninguém me dá trabalho porque sou velho", declara, alisando o bigode grisalho. Após uns instantes de silêncio, ele ergue os olhos negros, lançando um olhar gigantesco para a esposa, e diz, meio sem jeito: "Sessenta e cinco latinhas é um quilo. Mas até pra catar latinha tem concorrência". Ivonete, elegante em sua saia comprida, sandália e cabelos presos num coque, não cabe em si de tanta alegria. Vai rever o pai, de 82 anos e a mãe, de 73. Rindo pela primeira vez, ela conta a história dos dois: "são uma comédia. Ele faz uma coisa e ela vai e desmancha. Ou então ele liga pra mim dizendo: ´sua mãe arrumou outro namorado. Ela tá estranha´. Logo em seguida, a velhinha entra na sala, sem olhar pra ele, e começa tirar o pó das coisas. O marido olha pra ela e, sem reconhecê-la, resmunga: 'ainda bem que agora tenho outra mulher". Ivonete gostaria de poder visitar o restante da família: uma irmã em Aracaju e um irmão no Rio. Mas não tem dinheiro pra tanto. Dessa vez, só vai para Entre Rios, e leva apenas parte da família: dois filhos. Seu José vai passar o Natal em São Paulo sem eles, mas junto com outra filha do casal, "que ficou chorando em casa, porque queria ir com a mãe". Parece feliz pela esposa. Enquanto isso, o garoto mais novo, de 6 anos, continua sentado em cima duma mala, ouvindo a conversa. Dona Ivonete comenta que ele está triste e cansado. São quinze para as oito da noite e o ônibus só sairá às dez horas. A ansiedade é tanta que todos concordaram em ir para a Rodoviária bem cedo, pra parecer que iriam embora logo. Nenhum deles gosta de São Paulo: o sonho é poder vender tudo, e voltar para Entre Rios. "Aqui é um lugar ruim", diz Seu José. "Os paulistas nem olham pra você. Minha filha Ivanilda foi fazer uma matéria pra escola e teve que entrevistar uma mulher do bairro. Tocou a campainha da casa e a velha soltou os cachorros". Todos riem, e ele acrescenta: "ô, é sério". Diz que nem pra pedir informação as pessoas olham pro lado. E, quando respondem, ainda dão informação errada, de propósito. Ivonete tem as unhas do pé pintadas e está ansiosa para voltar à sua terra, mesmo só por um tempinho. Mesmo tendo que passar 34 horas dentro de um ônibus, num calor de cortar em fatias, carregando um menino pequeno. Disse que era a última chance de levar o Felipe, porque criança até 6 anos viaja de graça. Não paga, mas não tem cadeira: vai no colo da mãe, o caminho inteiro. Trinta e quatro horas. Bagagem contente Uma moça loira de uns vinte e poucos anos segura seu bebê em cima de uma caixa. Ela tem um olhar preocupado e parece nervosa; o bebê é gordinho, loiro e contente: mal sabe que, dali a pouco, terá que enfrentar 44 horas de viagem dentro de um ônibus abafado, deitado de qualquer jeito no colo da mãe. O destino é Timbaúba, na fronteira de Pernambuco com a Paraíba. Assim como aquele bebê de um ano, outros tantos nenês, caixas, crianças, mães e sacos de batata espalham-se pelas plataformas de embarque de números maiores: seus destinos são cidades distantes esquecidas do resto do mundo. "Ninguém sabe o que significa Natal enquanto não o perdemos em alguma terra estranha", diria Hemingway. A viagem estende-se por dias e noites, e o calor, mesmo à noite, beira os 30 graus. Demora tanto que dói Edilene abandonou a família em Boa Vista do Tupim aos 26 anos, para vir a São Paulo se casar com o namorado. Desde então, só voltou à cidade uma vez, há cinco anos, pra rever os parentes. Neste ano, 2002, levou toda a família a Boa Vista do Tupim: marido, cunhado e três filhos, entre sete e dez anos (Elisiana, Eli Renan e Elenilsa, todos correndo e arrumando confusão, felizes da vida). Cada passagem custou 130 reais, só ida. Tempo para fazer as contas. No total, a barulhenta família da letra E gastou, ida e volta, mil quinhentos e sessenta reais. Sorridente, sentada num canto da plataforma, Edilene protege as malas com quilos de comida, roupas e presentes. Ainda faltam duas horas para o embarque. Depois, é só esperar mais trinta e uma horas dentro do ônibus, ir esvaziando as sacolas de lanche para, finalmente, às cinco da madrugada do dia 25 de dezembro, desembarcar em Boa Vista do Tupim, na Bahia. Assim como a família de Edilene, todos os passageiros do lotado corredor de embarque Norte e Nordeste irão passar a virada do dia de Natal dentro de um ônibus abafado e desconfortável. Mas vale a pena - é o que todos dizem: "a gente chega lá e o prefeito faz festa, leva conjunto e tem sempre baile", explica a Edilene. Apesar de demorar pra chover, da pobreza e de todas as coisas ruins, a família adora Boa Vista do Tupim e planeja voltar a morar lá, um dia. Enquanto não conseguem dinheiro suficiente pra deixar São Paulo de vez, gostariam apenas de poder voltar todo ano. "Demora tanto que dói", conclui Edilene, pertinho de seu Feliz Natal. Frango com quiabo Um garoto tímido, de camisa social e sapato engraxado, todo arrumadinho, encolhe-se numa das cadeiras das plataformas de embarque. Seu nome é Émerson, ele é mineiro e estuda engenharia civil há um ano, em Jundiaí. No começo, apenas responde às perguntas e fica calado. Continua com as mãos juntas, todo encolhido e falando bem de mansinho. Depois de um tempo, desanda a contar sobre sua paixão por Ipatinga, cidade onde nasceu, e pela família - que não vê há quanto tempo? "Dois meses e seis dias", retruca, prontamente. Conforme ele vai contando sobre sua terra, o sotaque mineiro fica cada vez mais forte e ele abre altos sorrisos. Sempre que fala de lá, não esquece de mencionar a saudade da mãe e do frango com quiabo que ela faz. Émerson é o primeiro da família a iniciar um curso superior; mora sozinho em Jundiaí, e sente uma falta enorme de tudo o que deixou, há um ano. Embora tenha um bom emprego de estagiário numa construtora, gostaria de poder largar tudo e voltar imediatamente a morar na cidade onde nasceu. Por enquanto, a caminho de Ipatinga, não quer pensar nisso e só fica descrevendo o frango com quiabo, o espetinho de queijo e o leitão à pururuca (só às terças-feiras), que estarão esperando por ele treze horas depois que o ônibus deixar São Paulo. Desde as cinco e meia da tarde está ali, sentado, na maior expectativa. O ônibus da Itapemirim só sai às 7:50. Émerson expressa seu nervosismo através dos dedos, que destróem a fita adesiva marrom de uma caixa azul e ficam cutucando as abas fechadas. "Cesta de Natal pra minha mãe", justifica, com uma paixão enorme no rosto. "Grudei fita adesiva em volta da caixa inteira, pra ficar bem difícil de abrir durante a viagem. Do jeito que eu sou voraz...", justifica, com seu sotaque engraçado. A viagem inteira, de Jundiaí - sem parar em São Paulo - até Ipatinga, dura dezessete horas. Obviamente, ele prefere ir a voltar, porque a ida sempre demora mais. Como assim, demora mais? "Demora um montão, uai, é psicológico", retruca Émerson. Depois volta a ficar quietinho, esperando em silêncio a hora de voltar.
Seu José responde às perguntas com uma tristeza de partir o coração. Sim, vai embarcar dali a pouco para Icó, no interior do Ceará. Sim, vai passar o Natal dentro do ônibus. Não, não é legal. O tempo de viagem é de 44 horas. De perto, a esposa Lúcia fica observando a cena. Não fala nada. Depois de um tempo em silêncio, eu sentada a encarar um bloquinho cor-de-rosa, Seu José levanta os olhos e murmura: - Roubaram
a minha passagem. - Se eu embarcasse naquele ônibus, ia almoçar em Icó no Natal. Agora vou chegar lá e o dia já terminou. Tudo o que o José diz fica engasgado de silêncio. A esposa chegou mais perto e ele continuou a história. Passara a tarde fazendo um Boletim de Ocorrência e, em seguida, a empresa de ônibus disse que reporia a passagem, caso houvesse lugar no próximo carro. Havia. Seu José faria a viagem, mas perderia o Natal de Icó; teria que comemorar sentado em um dos bancos do ônibus. Nem aqui, nem lá. Eu tento consolá-lo: - Bom, pelo menos... pelo menos... (pelo menos o quê?!) pelo menos vocês vão juntos, tem tanta gente que não consegue dinheiro pra levar a família... - então ele levanta a cabeça e completa: - Eu vou sozinho. Mais silêncio. Não vai levar a esposa, os filhos? Não tem condições de pagar as passagens, está desempregado, bem que eles gostariam de ir. Com um sorriso triste, aponta para a esposa e diz: "tá falando que vai ligar todo dia". A Lúcia confirma, já com saudades do marido. Então ele resolveu contar mais sobre sua história. Ele e a mulher saíram de Icó e vieram pra São Paulo, há 22 anos. Seu José conseguiu rapidinho um emprego: "Na época era fácil, se eu não gostava de um, arranjava outro no mesmo dia. A gente trabalhava e conseguia juntar dinheiro", lembra. Então, há 14 anos, quando já tinham um filho adolescente, foram assaltados. "Colocaram uma arma no rosto da Lúcia, que tava com nenê novo, e ameaçaram a gente. Depois disso, ficamos com medo. Vendemos tudo e voltamos pra Icó, com um bom dinheiro que eu tinha juntado". Abriram uma lojinha na cidade natal. Tudo estava indo bem, as coisas dando certo. Depois de um ano, o bebê, ainda pequeno, pegou uma doença atrás da outra e eles tiveram que gastar tudo. Perderam a loja e voltaram pra São Paulo, a fim de refazer a vida. Há 13 anos estão na cidade. "Vamo embora se Deus quiser", acredita a Lúcia, apesar de tudo. "Aqui não dá pra viver. Cê pisa no pé de um, já dá briga", explica Seu José. Para ele, paulista é "tudo mau-humorado: aqui você passa e as pessoas trocam o caminho". Eu, por exemplo, nunca conseguiria abordar um paulista e ouvir a história da vida dele. "Sabe do que mais?", Seu José resume, triste: "aqui você olha e tem medo da pessoa. A pessoa olha e tem medo de você". No colo dele, a revista das palavras cruzadas está aberta, numa página comercial sobre determinada empresa de avião. Rotas aéreas para todo o Brasil, anuncia, justo no colo do Seu José. |