Fundos de pensão viram bomba-relógio

Por Daniel Merli
EmCrise– 22/08/2003

A idéia parecia boa. Aplicar o dinheiro da aposentadoria nas bolsas de valores. Ao invés do mirrado rendimento de qualquer pensão, um gordo vencimento ao melhor estilo Wall Street. Na prática, não foi tão fácil e o custo da aposta errada está chegando.

A razão do baque é simples. Desde o começo do ano 2000, a Bolsa de Valores de Nova Iorque vem amargando uma prolongada queda, que já reduziu em 8 trilhões de dólares o valor total das ações negociadas. Nessa descida, arrastou junto a parte do capital dos fundos de pensão que estava aplicada em ações. Só o fundo dos trabalhadores da General Motors, por exemplo, tem um rombo de U$ 25 bilhões. Resultado: os fundos começam a ficar sem dinheiro para cumprir seus compromissos com os trabalhadores que querem se aposentar.

Somando o déficit de todos os fundos, o buraco é considerável: U$ 350 bilhões. É um volume suficiente para causar estragos históricos em Wall Street. O próprio secretário de Tesouro dos EUA, John Snow, alertou, no final de julho, que a crise dos fundos pode reeditar uma quebradeira da Bolsa de Nova York.

O modelo, que está cambaleando por lá, é o mesmo que o governo brasileiro tenta implementar aqui com a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 40. A queda de prestígio desse sistema nos EUA modelo foi comentada pelo prestigioso New York Times, em uma matéria: ''até pouco tempo atrás, somente um grupo pequeno de economistas afirmava que o sistema de aposentadorias privadas dos EUA estava escorado em uma base frágil. E essa idéia era tida como uma heresia pelos analistas de mercado. Agora, os próprios administradores de fundos têm sido mais cautelosos na hora de investir''.

Três alternativas para desarmar a bomba

No final de julho, os fundos de pensão entraram na mira do GAO, sigla em inglês para Escritório Geral de Contabilidade – uma desconhecida, mas poderosa agência do governo, responsável por supervisionar e dar assessoria a ações do Congresso e da Casa Branca. O GAO publicou um relatório tachando como ''de alto risco'' as contas da Corporação Garantidora de Pensões (PBGC, pela sigla em inglês). Segundo o documento, a PBGC está com problemas de caixa por ter injetado U$ 3,6 bilhões nos fundos, ano passado. Este ano, a PBGC tem U$ 25 bilhões nos cofres. E um rombo de U$ 350 bilhões para cobrir.

Segundo o NYT, a Casa Branca está quebrando a cabeça para escolher a melhor maneira de mexer nesse vespeiro. ''O governo não quer contrariar as empresas administradoras dos fundos e as que recebem financiamento delas. De quebra, não pode assustar os cidadãos que têm seu dinheiro aplicado'', afirma a repórter Mary Williams Walsh.

Segundo a jornalista, há pelo menos três alternativas no cardápio. Injetar mais ajuda governamental, obrigar as empresas a colocarem mais dinheiro nos fundos de pensão de seus funcionários ou – segundo o NYT, a saída mais dolorosa para o ''mercado'' – impor regras para que os fundos reduzam seus investimentos em ações e apliquem em outras operações, de longo prazo.A primeira opção, injetar mais dinheiro público no sistema falido, pode sair caro. Ela aumentaria em muito o déficit fiscal da Casa Branca, que, segundo as previsões atuais, deve atingir US$ 51 bilhões este ano. As outras alternativas implicam mudar as regras da previdência privada.

Empresas e fundos devem resistir a mudanças

As empresas que aplicam a aposentadoria de seus funcionários na bolsa têm um bom motivo para ser contra mudanças. É que os fundos ajudavam as empresas a dar um pequeno golpe. ''Os ganhos em bolsa aumentavam bastante o patrimônio dos fundos e permitiam que as empresas reduzissem o depósito que fazem para a aposentadoria de seus trabalhadores'', explica ao NYT Jeremy Gold, especialista na área.

O desespero das empresas é o mesmo dos governos que apostaram nos fundos para garantir a aposentadoria de seus funcionários. O caso mais grave é o da Califórnia, onde o governador Gray Davis foi afastado do cargo pelo elevado déficit fiscal do estado – motivado também pelo aumento do déficit da previdência por causa dos fundos.

O grupo que mais deve chiar contra as mudanças são os especuladores de Wall Street. Os fundos somavam ao final de 2002 um patrimônio de U$ 1,6 trilhão. Imaginar que esse filão fuja do risco em direção a investimentos mais estáveis tira o sono do mercado financeiro.

Fontes:

''New Rules Urged to Avert Looming Pension Crisis'', por Mary William Walsh, New York Times, edição de 28 de julho de 2003 (http://www.nyt.com/)

''Ilusões à venda'', por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa, Carta Capital (http://www.cartacapital.com.br/)

''Fundos de pensão dos EUA projetam déficit de U$ 350 bi'', por Tatiana Bautzer, jornal Valor Econômico, edição de 4 de agosto de 2003.