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Fundos de pensão viram bomba-relógio
A idéia parecia boa. Aplicar o dinheiro da aposentadoria nas bolsas de valores. Ao invés do mirrado rendimento de qualquer pensão, um gordo vencimento ao melhor estilo Wall Street. Na prática, não foi tão fácil e o custo da aposta errada está chegando. A razão do baque é simples. Desde o começo do ano 2000, a Bolsa de Valores de Nova Iorque vem amargando uma prolongada queda, que já reduziu em 8 trilhões de dólares o valor total das ações negociadas. Nessa descida, arrastou junto a parte do capital dos fundos de pensão que estava aplicada em ações. Só o fundo dos trabalhadores da General Motors, por exemplo, tem um rombo de U$ 25 bilhões. Resultado: os fundos começam a ficar sem dinheiro para cumprir seus compromissos com os trabalhadores que querem se aposentar. Somando o déficit de todos os fundos, o buraco é considerável: U$ 350 bilhões. É um volume suficiente para causar estragos históricos em Wall Street. O próprio secretário de Tesouro dos EUA, John Snow, alertou, no final de julho, que a crise dos fundos pode reeditar uma quebradeira da Bolsa de Nova York. O modelo, que está cambaleando por lá, é o mesmo que o governo brasileiro tenta implementar aqui com a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 40. A queda de prestígio desse sistema nos EUA modelo foi comentada pelo prestigioso New York Times, em uma matéria: ''até pouco tempo atrás, somente um grupo pequeno de economistas afirmava que o sistema de aposentadorias privadas dos EUA estava escorado em uma base frágil. E essa idéia era tida como uma heresia pelos analistas de mercado. Agora, os próprios administradores de fundos têm sido mais cautelosos na hora de investir''. Três alternativas para desarmar a bomba No final de julho, os fundos de pensão entraram na mira do GAO, sigla em inglês para Escritório Geral de Contabilidade uma desconhecida, mas poderosa agência do governo, responsável por supervisionar e dar assessoria a ações do Congresso e da Casa Branca. O GAO publicou um relatório tachando como ''de alto risco'' as contas da Corporação Garantidora de Pensões (PBGC, pela sigla em inglês). Segundo o documento, a PBGC está com problemas de caixa por ter injetado U$ 3,6 bilhões nos fundos, ano passado. Este ano, a PBGC tem U$ 25 bilhões nos cofres. E um rombo de U$ 350 bilhões para cobrir. Segundo o NYT, a Casa Branca está quebrando a cabeça para escolher a melhor maneira de mexer nesse vespeiro. ''O governo não quer contrariar as empresas administradoras dos fundos e as que recebem financiamento delas. De quebra, não pode assustar os cidadãos que têm seu dinheiro aplicado'', afirma a repórter Mary Williams Walsh. Segundo a jornalista, há pelo menos três alternativas no cardápio. Injetar mais ajuda governamental, obrigar as empresas a colocarem mais dinheiro nos fundos de pensão de seus funcionários ou segundo o NYT, a saída mais dolorosa para o ''mercado'' impor regras para que os fundos reduzam seus investimentos em ações e apliquem em outras operações, de longo prazo.A primeira opção, injetar mais dinheiro público no sistema falido, pode sair caro. Ela aumentaria em muito o déficit fiscal da Casa Branca, que, segundo as previsões atuais, deve atingir US$ 51 bilhões este ano. As outras alternativas implicam mudar as regras da previdência privada. Empresas e fundos devem resistir a mudanças As empresas que aplicam a aposentadoria de seus funcionários na bolsa têm um bom motivo para ser contra mudanças. É que os fundos ajudavam as empresas a dar um pequeno golpe. ''Os ganhos em bolsa aumentavam bastante o patrimônio dos fundos e permitiam que as empresas reduzissem o depósito que fazem para a aposentadoria de seus trabalhadores'', explica ao NYT Jeremy Gold, especialista na área. O desespero das empresas é o mesmo dos governos que apostaram nos fundos para garantir a aposentadoria de seus funcionários. O caso mais grave é o da Califórnia, onde o governador Gray Davis foi afastado do cargo pelo elevado déficit fiscal do estado motivado também pelo aumento do déficit da previdência por causa dos fundos. O grupo que mais deve chiar contra as mudanças são os especuladores de Wall Street. Os fundos somavam ao final de 2002 um patrimônio de U$ 1,6 trilhão. Imaginar que esse filão fuja do risco em direção a investimentos mais estáveis tira o sono do mercado financeiro. Fontes: ''New Rules Urged to Avert Looming Pension Crisis'', por Mary William Walsh, New York Times, edição de 28 de julho de 2003 (http://www.nyt.com/) ''Ilusões à venda'', por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa, Carta Capital (http://www.cartacapital.com.br/) ''Fundos de pensão dos EUA projetam déficit de U$ 350 bi'', por Tatiana Bautzer, jornal Valor Econômico, edição de 4 de agosto de 2003. |