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O
Embaixador do Samba
"A
frigideira é um instrumento em extinção. Eu sempre
fui um apaixonado pela autenticidade em nossas Escolas de Samba, não
pela modernidade"
Osvaldinho
da Cuíca
Por Solange
Cavalcante
EmCrise 03/2003
Osvaldinho
da Cuíca tem 63 anos. Franzino, ele carrega o nada modesto título
de Embaixador Nato do Samba Paulista, concedido pela Liga das Escolas
de Samba de São Paulo. Entre centenas de outras coisas, ele também
foi integrante do grupo Demônios da Garoa e ganhador da Palma de
Ouro em Cannes pela trilha sonora do filme Orfeu Negro.
Encontramos o mestre numa roda de samba, no sábado anterior ao
carnaval. Mesmo adoentado e com dificuldades para falar, não recusou
o convite dos outros bambas e pulou no meio deles. Com habilidade, sambou
e fez bonito.
A pergunta sobre a incrível ala de frigideiras que ele criou dentro
da bateria da Escola de Samba Vai-Vai é inevitável. Frigideira,
sim, em que se batia com um garfo. Com grande esforço, a voz arfada,
Osvaldinho explica que a frigideira surgiu no Rio de Janeiro, na Cartolinha
de Caxias, e na X-9 de Santos, entre 1945 e 1947. "Fui um dos divulgadores
desse instrumento: criei a ala de frigideira na Vai-Vai em 1976, e também
as alas de tamborim, cuíca e a de compositores. A frigideira é
um instrumento em extinção. Eu sempre fui um apaixonado
pela autenticidade em nossas Escolas de Samba, não pela modernidade",
assume.
Trabalhando na cobertura do carnaval, é impossível não
compararmos a sofisticação e técnica das Escolas
atuais com os bumbos e os prato de louça batidos com facas empunhados
pelos músicos ao nosso lado. Qual é o espaço, no
samba, para essa criatividade? "O samba comporta isso; a Escola,
não. A Escola é um grande espetáculo. Antigamente,
eram 40 pessoas na bateria. Você ouvia os instrumentos com destaque.
Era um conjunto, uma orquestra. Hoje, não. Hoje são 350
na bateria. Pandeiro e frigideira não aparecem. Além disso,
a execução é muito difícil. Então,
prevalece o instrumento de branco, o instrumento militar. São a
caixa, o surdo e os tambores que prevalecem", lamenta.
Formas de reverter isso? Ou temos que sambar em outro terreiro? "Nós
temos que sambar de acordo com a música", estabelece Osvaldinho.
"Quem quiser samba de terreiro, procure o terreiro porque, na passarela,
quem manda é o carnavalesco". 'Isso não é ruim?',
pergunta esta repórter, aspirando pela volta do que seu Nenê
da Vila Matilde chama de "samba sentimental". "Não!",
responde Mestre Osvaldinho, como se dissesse "oras!". "Isso
é um processo de evolução. Você tem tudo o
que você quiser no Brasil. Você tem frevo, maracatu, jongo,
tem tudo. E tem o samba de terreiro, como estamos vendo hoje, aqui. Na
avenida, o que existe é o samba que conquistou o mundo".
Para provar que ele também respeita o espetáculo que temos
na avenida, Osvaldinho da Cuíca conta que viajou o mundo fazendo
shows e dando aulas sobre o assunto. "Hoje está difícil,
pois minha voz está difícil, também. Eu não
paro. Tenho trabalhado mesmo com as limitações que me impõe
a saúde. Eu vou carregado, as pessoas vão me buscar. Eu
vou a todo lugar onde tem samba. Tem uma cacofe até muito bonito,
que diz que o samba cura. Eu me sinto bem no samba. Eu estava que não
podia andar. Cê viu? Eu sambei no pé, ali". É,
sambou mesmo. E lindamente.
Bem, temos que dançar conforme o samba, sem nem uma frigideirazinha?
Onde encontrar aquela batida criativa, original, com sua marca, Osvaldinho?
"Na minha casa!", ri o mestre, com gosto. "É a única
original que tem! Agora, não tem mais frigideira de ferro, daquelas
especiais. Só tem as de alumínio, que quebram, são
porcarias. Nem isso a gente tem. Eu tenho uma de 42 anos, na minha casa.
Ninguém tira o som que eu tenho ainda nela, só eu".
Percebemos um círculo se fechando, em volta, de pessoas aflitas
para falar com nosso entrevistado. São o vice-prefeito e os secretários
de Cultura e Educação de Pirapora do Bom Jesus, famosa pelas
romarias e rodas de samba. Vieram cobrar, humildemente, um samba há
muito prometido pelo mestre à cidade. Osvaldinho não se
sente incomodado. De pronto, passa a explicar como concebeu um samba que
está pronto, ele não esqueceu.
Animado para mostrar a música, ele fala da influência de
"batuqueiros verdadeiros de São Paulo", como Dionísio
Barbosa, que nasceu em 1891, antes de Pixinguinha, que freqüentava
Pirapora. Fala do Henricão, que nasceu em 1908, do Chico Pinga,
os verdadeiros. E manda recado para a cidade: "Esse é com
a batida antiga de Pirapora, não essa de hoje. Essa já é
de nordestino, hem? Estão mudando, isso não é samba
de roda, não. Precisa puxar a orelha lá, do pessoal".
Usando uma garrafa vazia de água para a marcação,
Osvaldinho canta o samba, inédito, puxado do peito, a voz arfando:
O meu santo
padroeiro
Fez sua morada às margens do Tietê.
E a cidade comemora
Mês de agosto em Pirapora
É tão lindo de se ver...
Lindo, mesmo.
Valeu, Mestre Osvaldinho!
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