O MST e sua cultura política socialista

O livro, a rádio comunitária, a mística, o teatro, a organização de uma gente que vive à margem, mas tem ânimo para cruzar a corredeira

Por Rodrigo Savazoni
EmCrise, 02/2002

Um livro, uma rádio comunitária, uma representação mística, um teatro criado e dirigido por gente da comunidade, que vive à margem, mas tem ânimo para cruzar a corredeira. Foi com o intuito de coordenar e gerir as lutas culturais do MST que o Coletivo de Cultura dos Trabalhadores Rurais Sem Terra foi criado, cerca de três anos atrás. Formado por algo em torno de 30 membros, o coletivo pode ser entendido como o ministério das culturas do MST, já que é responsável por regulamentar, fomentar e difundir as práticas culturais para os camponeses revolucionários, que fazem parte do Movimento.

Mas quais são os camponeses que fazem parte do Movimento? A confusão é muito comum. Quando os jornais, TVs, rádios e sites se referem aos sem-terra, estão falando de todos os brasileiros que não possuem um pedaço de chão. Porém, quando o termo utilizado é Sem Terra, é preciso entender que se está falando de uma categoria social. Conforme Ênio Bohnenberger, lavrador de 35 anos, residente em Belo Horizonte, "Sem Terra é um nome próprio, que designa um grupo, com identidade, organização política, ideologias e valores próprios".

Bohnenberger atribui a gênese do coletivo ao tempo de luta do movimento, que em quatorze anos pôde perceber novas demandas. "No caso da cultura, vimos que era preciso melhorar a organização. Assim, criamos o coletivo, pois a cultura não é diferente do contexto geral do MST. Nós sempre trabalhamos a partir do todo. Foi assim com as cooperativas a partir de 1988, é assim com a cultura", informa.

Organizado no Brasil inteiro, o coletivo, nas reuniões que promove, define as diretrizes que serão sugeridas às executivas estaduais e regionais do MST. Esse modelo de relacionamento hierárquico é comum ao Movimento. Foi assim, por exemplo, que em 1999 organizaram o 1º Festival de Música da Reforma Agrária, no Rio Grande do Sul. Nele, apresentaram-se artistas que cantam músicas sobre o MST. "Em 17 anos de luta nós constituímos uma cultura", defende Bohnenberger. "Fomos tomando corpo, criamos nossas lideranças, nossos acampamentos, nosso logotipo, nosso modo de caminhar, sempre em duas filas, e também as nossas canções". Foi para valorizar justamente essa cultura, com tonalidades de realismo socialista, que o MST decidiu editar um caderno de músicas costumeiramente cantadas em encontros e manifestações. "A música é uma forma de unificar um Brasil tão grande, tão rico, tão diverso", comenta. "A maioria delas tem um ritmo animado, um ritmo de luta".

<b>Boal</b> - O MST tem contado com inúmeros colaboradores para o desenvolvimento das atividades culturais. Figuram, por exemplo, o artista plástico Pedro Muñoz e o diretor de teatro Augusto Boal, expressivo nome da cultura política brasileira. Com o dramaturgo, o movimento tem desenvolvido Oficinas de Teatro no Rio de Janeiro, que pôr alguns dos militantes em contato as técnicas de direção de cena e representação desenvolvidas por Boal em sua brilhante trajetória. Com isso, os dirigentes do MST pretendem quebrar com certos valores e estéticas dos camponeses que, habituados com a televisão, reproduzem alguns trejeitos sórdidos das novelas brasileiras e dos filmes hollywoodianos.

Essa luta, contra a indústria do consumo cultural, é vista pelos membros do Movimento, sejam eles do coletivo de cultura, ou não, como central para a construção de uma nova realidade social. "Nós trabalhamos muito contra isso", desabafa o lavrador mineiro. "É nossa função colocar às pessoas alternativas culturais, mas temos que fazer malabarismo para isso". A vingança, em seu entendimento, não irá falhar. "Os mesmos instrumentos que servem para alienar, servem para desalienar, e um dia nós estaremos de posse deles".

Bohnemberger reproduz, em seu discurso, idéias e conceitos presentes em "O MST e a Cultura", caderno de formação nº 34, lançado em outubro de 2000 por Ademar Bogo. No volume, o militante, líder nacional, escreve: "Há, porém, muito lixo de cultura que vão (sic) acumulando na produção da existência histórica que devemos renegar na medida que isto vai se tornando consciente". Prossegue: "É impossível rumar para a construção de uma nova sociedade levando conosco este amontoado que tenderá a ocupar grandes espaços na produção daquilo que deveria ser a nova existência".