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O direito de ir e vir
A imigração
aumenta na Europa, mas o debate se restringe ao aspecto econômico
e deixa de lado, por exemplo, os direitos humanos
Por André
Deak e Lígia Ximenes,
de Londres
EmCrise 11/2003
"Dê-lhes dez libras e uma banana
que eles voltam para o país de onde vieram". Sentado no balcão
de um bar, o sexagenário ignora o desconforto da garçonete
brasileira que o serve. Avesso ao silêncio que provoca, o homem
emenda: "Acabei de voltar de um restaurante italiano. Comida ruim,
servida por umas putas polonesas que devem ganhar £0,50 por hora.
Este país está arruinado!".
A cena tem como palco um pub localizado em Picadilly, coração
de Londres, por onde circulam todos os dias milhares de pessoas vindas
de lugares tão distantes e tão diversos como Argélia,
Colômbia, Irã, China, Gana e Polônia. Diferente dos
turistas que gastam seu dinheiro em ingressos de museu e souvenires, boa
parte desta gente deixa seus lares à procura de trabalho.
Foi só na última década, entretanto, que a entrada
de estrangeiros em território inglês começou a ganhar
atenção, quando a globalização econômica
tornou-se mais agressiva e deixou os pobres ainda mais pobres e os ricos
ainda mais ricos. Hoje, dos 175 milhões de imigrantes que espalharam-se
pelo mundo, 56,1 milhões estão na Europa, 49,7 milhões
refugiaram-se na Ásia e 40,8 milhões vivem na América
do Norte.
A Inglaterra em particular e Londres, principalmente, é o porto
de desembarque dos que buscam condições de vida menos precárias.
Somente na última década, a capital britânica de aproximadamente
sete milhões de habitantes recebeu cerca de 680 mil estrangeiros.
É na cidade onde a polícia nunca checa sua identidade, conforme
conta a revista inglesa The Economist na reportagem The world is moving
to London, de agosto de 2003, que "qualquer um pode aparecer numa
noite e encontrar um trabalho na manhã seguinte. Qualquer um pode
desaparecer."
O resultado disso é que Londres hoje é um dos maiores exemplos
da surrada expressão "caldeirão cultural". Certos
bairros são tipicamente indianos, chineses e brasileiros e é
raro encontrar um garçom, empregada doméstica ou lavador
de pratos que tenham nascido na Inglaterra. Ao mesmo tempo, é cada
vez mais comum ouvir os nativos argumentarem que o imigrante usufrui de
um bem-estar social que "não é dele", saturando
o mercado de trabalho e utilizando boa parte das verbas destinadas à
saúde e educação.
A Inglaterra já tem hoje pelo menos três partidos políticos
anti-imigrantes: o British National Party, o National Front e os National
Democrats. A França, não muito tempo atrás, viu um
candidato de ultra-direita chegar ao segundo turno das eleições
para primeiro-ministro. Le Pen chegou a declarar que "as Nações
Unidas dizem que a Europa precisa de 29 milhões de imigrantes para
manter a economia caminhando. Eu prefiro comer pão seco a ter imigrantes".
Lula, em recente visita a Portugal, pediu "mais respeito" aos
brasileiros, que representam 11% dos imigrantes do país. Ultimamente,
há denúncias de que têm sido tratados com viôlencia,
até.
O joio
e o trigo
Nem todos os imigrantes do terceiro mundo são vítimas de
preconceitos. Há os que são desejados, até mesmo
bem-vindos. "Você jamais verá uma manchete de jornal
dizendo que os CEOs estrangeiros são um problema, ou que há
imigrantes demais trabalhando", afirma o professor John Salt, especialista
em migração da University College London (UCL) e consultor
sobre o assunto para a União Européia. Estudantes "overseas",
aqueles nascidos fora da UE, são obrigados a pagar até dez
vezes mais o valor de um curso qualquer. Estes, com suas carteiras recheadas,
também são bem-vindos.
Os alvos do preconceito são os que buscam asilo político,
conhecidos como asylum-seekers, bem como os ilegais - aqueles que que
entraram com visto de turista ou sobreviram a uma viagem dentro de um
container de um caminhão e hoje se escondem das autoridades inglesas.
Contra estes, há argumentos como os de Anthony Browne, editor do
jornal inglês The Times e autor do livro Do we need mass immigration?.
De acordo com ele, "para acomodar os imigrantes, as pessoas que aqui
já vivem devem aceitar viver em casas menores, com jardins menores,
para ceder espaço a mais moradia". Browne vai ainda mais longe:
nega que trabalhadores desqualificados contribuam para o crescimento de
uma economia altamente desenvolvida e ainda os culpa por disseminarem
o vírus HIV entre a população.
Acima do debate social ou político e visando a questão econômica,
o governo inglês já chegou às suas próprias
conclusões. O Home Office, órgão britânico
que cuida dos assuntos relacionados à imigração,
publicou em junho de 2003 um relatório afirmando que "o principal
resultado de uma análise empírica é que não
há forte evidência de grandes efeitos adversos da imigração
sobre emprego ou salários de trabalhadores existentes", e
que "a percepção de que imigrantes tomam empregos da
população existente, contribuindo assim para o aumento do
desemprego, ou de que os imigrantes rebaixam o nível salarial,
não encontrou confirmação".
Rotulado,
registrado, carimbado
"O que tem se tornado conhecido como a 'tese da globalização'
sugere que os estados se enfraquecem se não são capazes
de controlar plenamente o movimento de mercadorias, capital, pessoas e
cultura", afirma Roxanne Lynn Doty em seu livro Anti-immigrantism
in western democracies: statecraft, desire and the politics of exclusion.
O problema dos estados europeus com os imigrantes não é
a existência deles, mas a falta de controle. Não existe sequer
uma metodologia confiável para descobrir a quantidade dos ilegais.
Não existe, aliás, nem mesmo um consenso para definir o
que é o imigrante: se é alguém que está no
país a mais de um ano, como diz as Nações Unidas,
ou se é alguém que, mesmo de passagem, passa "a fazer
parte do sistema", isto é, alugar um apartamento, fazer compras
ou ir a um cinema.
Assim como não existe definição consensual para o
termo "imigrante", também não existe um sistema
eficiente para controlar a sua entrada no Reino Unido, sobretudo no que
diz respeito aos asylum-seekers. "O ideal seria um sistema de quotas",
afirma o professor Salt. Enquanto se discutem alternativas, desde o início
deste ano o pedido de asilo tem sido negado a imigrantes que não
o fazem imediatamente após seu desembarque na ilha britânica.
A mudança, de acordo com o jornal britânico The Guardian,
já engrossa a lista dos sem-tetos do país, estimados em
532. Alega o Home Office, entretanto, que o objetivo é combater
"o abuso do sistema por quem deseja viver às custas dos contribuintes".
Desde 1951, quando assinou a Convention Relating to the Status of Refugees
com a Organização das Nações Unidas, o Reino
Unido é um dos 100 países que garantem refúgio às
vítimas de crimes cometidos em terras pobres ou em desenvolvimento.
De acordo com as regras, o governo dá comida, abrigo e dinheiro
a quem pede asilo, até que se verifique a veracidade das informações
prestadas. "O principal problema é distingüir os que
precisam de proteção dos que não precisam",
comenta Salt.
Quanto aos imigrantes ilegais, afirma o especialista, a única forma
de controlá-los é enviando equipes de inspeção
às fábricas e indústrias. "O tráfico
de pessoas é um negócio, uma indústria. É
preciso que se pense nesses termos. Como se regula um mercado? Como se
regula uma indústria?". Enquanto o governo se debruça
nas tentativas de regulação, continua ignorando as sugestões
feitas por especialistas como Geoff Gilbert, da Universidade de Essex.
Em artigo publicado no livro Strangers and citizens: a positive approach
to migrants and refugees, ele defende a adesão das convenções
de direitos humanos, restrição do comércio de armas
com países que vivem em conflito e o perdão da dívida
externa dos países terceiro-mundistas como forma de diminuir os
fluxos migratórios. O que se vê, infelizmente, é justamente
o contrário.
MAIS:
As Vítimas do Muro
Invi$ível, feita em Genebra pelo colaborador Marcelo Netto
Rodrigues
Uma caça aos ilegais, enviada
da Espanha pela repórter EmCrise Giovanna Modé
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