|
As Vítimas do
Muro Invi$ível
Serão
necessários 160 milhões de imigrantes em toda Europa até
2050 para suprir as vagas que serão abertas devido a atual política
de aposentadoria - um Brasil de imigrantes
Por Marcelo Netto Rodrigues, de Genebra*
EmCrise 12/06/2002
"Tudo bem considerar a cor, contanto
que seja verde" é a lógica do Norte expressa sem pudor
na propaganda do metrô. "Frau Alves de Oliveira, a senhora
está presa!" O sobrenome de Lucilene era a senha para que
fosse acusada de um crime que não cometera e para que não
tivesse a quem recorrer.
Assim como o personagem de "O Processo", de Kafka, Lucilene
tentava se lembrar de algum delito que pudesse explicar as algemas que
tinha agora em seus "pulsos do Sul". Seria por um copo que havia
quebrado na casa de um brasileiro que trabalhava? Ou por um pouco de sabão
em pó "emprestado" sem o consentimento de sua vizinha,
na lavanderia do prédio, naquela manhã?
A acusação tinha sim a ver com lavagem, mas de dinheiro.
Lucilene seria o perfeito "bode expiatório do Sul" para
que um de seus "compatriotas" pudesse receber um seguro equivalente
a CHF 18.000 francos suíços (R$ 35.000), em troca de sua
extradição como ladra.
Eduardo Goretti, arquiteto brasileiro, casado com uma suíça
italiana para conseguir os papéis de residência, só
não contava que Lucilene, apesar de casada com um suíço,
havia preferido não trocar de nome.
Lucilene foi salva pelo pó que deixou de limpar, pelo marido e
pela falta de suas digitais na mala cheia de ouro deixada
estrategicamente em baixo da cama por Goretti. "Por alguma força
divina, ignorei a mala, não a removi do lugar. Ele me pôs
na cadeia, e foi tranqüilo para o Festival de Montreaux". Mesmo
sem nada provado, Goretti recebeu o seguro e o processo está parado.
Brasileiros
mui amigos
Lucilene já havia sido vítima da malandragem araponga em
três casas de brasileiros casados com suíços desde
que chegara como babysitter, empregada e jardineira, nas proximidades
de Zurique, em agosto de 99, aos 20 anos. Não sabia que ganhava
menos e trabalhava mais do que o normal para padrões europeus.
Suas patroas brasileiras alegavam que o salário era bom comparado
com o Real: casa, comida, CHF 200 francos para viver na Suíça
(R$ 400,00), e CHF 100 francos (R$ 200,00) mandados à sua família
no Brasil. O que Lucilene não fazia idéia é que deveria
ganhar 9 vezes mais como doméstica na Suíça, em torno
de CHF 3.000 francos/mês (R$ 5.000,00) . Quem a abriu os olhos,
e depois o coração foi Christian Gier, seu professor de
alemão.
Christian, 32, já era apaixonado pelo Brasil desde 91 quando passou
1 ano e meio trabalhando voluntariamente com as CEB's, o MST e a Associação
Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).
Depois teve uma proposta "de construir uma casinha na aldeia junto
com os índios do Rio Negro, fazer roça e viver lá,
mas
por alguma razão voltei para Suíça e não me
tornei um 'índio brasileiro'". Lucilene agradece.
O Muro
Invisível
O caso de Lucilene é atípico. Alguém do outro lado
do Muro Invisível a resgatou. Não que a "Europa Rica"
não queira e não precise de "imigrantes pobres".
Só não quer perder o controle deles. Preferem, assim, tê-los
fichados, legalizados, em número suficiente para realizar os serviços
que desprezam, vendo o excedente como um peso custoso e indesejável.
Nem o Muro da Vergonha de 3 mil km nos EUA chega perto de seu requinte.
O Muro Invisível erguido de euros, libras e dólares tenta
conter o usurpado Sul de compartilhar seu espólio para além
do que o Norte considera um mal necessário. Com uma demão
de leis ambíguas e politicamente corretas, o Muro aumenta sua altura
a cada dia (vide a nova obrigatoriedade de visto para argentinos que queiram
agora ir para os EUA).
A Espanha, por exemplo, aprovou mês passado, os primeiros 131 equatorianos
que imigrarão para a sua "uma vez metrópole" para
trabalhar como construtores e agricultores (como se o Equador não
precisasse de mão-de-obra qualificada para construção
de casas e produção de alimentos para seu povo). Ao final
de 2002, na prática, o Equador perderá para a Espanha 1500
trabalhadores, material humano indispensável para seu desenvolvimento
autônomo. Já, para os habitantes do outro lado do "Muro"
e para as Nações Unidas, o título é outro:
"Espanha ajuda a conter a imigração ilegal".
Integração
disfarçada
O título do jornal suíço "Le Temps" repassa
a mensagem da recente "vitória" obtida pelo parlamento
vizinho. Sob a chamada "Integração", a intenção
oposta é sutil: "Na Áustria, os imigrantes incapazes
de aprender o alemão serão expulsos". É lógico
que o governo se prontifica a oferecer o curso, numa forma de abarcar
a todos, e quem sabe embarcar a todos.
Há 4 anos, a Suíça também tentou passar uma
lei com segundas intenções, mas não obteve êxito
em fixar em 18% a cota de imigrantes. Os números enganam pois só
a colônia portuguesa já atinge este limite. O objetivo frustrado
era fechar as portas à África e à América
Latina por meio de manobras legais.
Serão necessários 160 milhões de imigrantes em toda
Europa até 2050 para suprir as vagas que serão abertas devido
a atual política de aposentadoria, segundo a Organização
Mundial do Trabalho (OIT). É um Brasil de imigrantes. O problema
é que assim como aconteceu no início do século passado
no Brasil, os países mais ricos da Europa tendem a preferir "imigrantes
pobres brancos" da própria Europa (portugueses, espanhóis,
do Leste Europeu e agora até franceses) em detrimento de africanos,
asiáticos ou latinoamericanos. A carapaça só muda
de cor.
Entre a Suíça e a França hoje, por exemplo, é
comum que suíços economizem comprando comida em supermercados
franceses, devido a alta cotação de sua moeda frente ao
franco francês e que franceses cruzem a fronteira para buscar emprego
na Suíça, onde ganharão mais, mesmo trabalhando em
funções que nunca se sujeitariam na França.
"Maçã"
do Togo
"Sou formada em Comércio e Turismo, mas nem se fosse engenheira
conseguiria emprego na minha área porque sou negra. Eles nos olham
como animais estúpidos sem inteligência. Eles te dão
o emprego que não querem fazer. Tive que trabalhar então
numa fábrica de aparelhos odontológicos. Fui despedida por
ter dado um tapa na cara de uma portuguesa que me insultou dizendo que
nós negros dormíamos em árvores, mas estou processando
ela por racismo".
Massan Micciarelli, 39, do Togo, chegou há 12 anos em Genebra.
"Quando os africanos falantes de francês chegam aqui, nos obrigam
a reaprender o francês para poder participar da faculdade, pois
dizem que não falamos e nem escrevemos bem a língua que
nos impuseram".
Percebo um anel de rosário em seu dedo, mesmo assim pergunto se
abandonou sua espiritualidade desde que saiu da África (recentemente,
a imagem dos jogadores brasileiros de futebol rezando após a conquista
do penta chocou os europeus). "Na Europa, você esquece Deus,
vive para si mesmo. Os brancos europeus dão risada quando vêm
alguém rezando. Rezo no ônibus. Voltei a rezar a pouco tempo,
acredito que meus pais na África não me ensinariam coisas
ruins na infância.
Os porquês
do Muro
(fonte Agenda Latino Americana)
- Um estadunidense consome a mesma energia elétrica de 55
indianos, 168 tanzanianos e 900
nepaleses. A terra nao pode suportar 6 bilhões de pessoas neste
ritmo de "Primeiro Mundo".
- Na Europa,
os salários dos setores mais pobres e dos mais ricos estão
numa proporção de 1 para 6.
Nos EUA, estão de 1 para 9, Na América
Latina, de 1 para 30.
- 1885:
as potências européias repartem entre si o Continente Africano
em Berlim, Alemanha. A África é apenas uma tela para uma
suposta ação humanitária reservada a alguns salvadores
vindos de fora, diz um bispo de Madagascar.
- Uma criança
nascida na Suíça provocará durante a sua vida um
gasto de recursos naturais e um dano ao meio ambiente de 10
a 50 vezes maior do que uma criança indígena.
- O planeta
tem hoje 6 bilhões de habitantes. Destes, 3 bilhões
vivem na pobreza. Um bilhão de habitantes vive com menos
de 1 dólar diário, 2 bilhões vivem com um a dois
dólares diários. Um bilhão de pessoas não
dispõem de moradia digna. 100 milhões sobrevivem diariamente
na ruas do mundo. Na América Latina, são 20 milhões
de pessoas.
na
História do Brasil
- 1808:
assinada a lei que concedia terra a todos os estrangeiros, não
negros, que viessem para o Brasil.
- 1824:
a Constituição brasileira proíbe os leprosos e os
negros de freqüentarem a escola.
- 1945:
Getúlio Vargas assina o decreto que reabre a imigração
para o Brasil. Este decreto permite apenas a entrada no Brasil de pessoas
"de acordo com a necessidade de preservar e desenvolver na composição
étnica do país as características mais convenientes
de sua ascendência européia".
- 1969:
Médici proíbe em toda a imprensa notícias sobre "índios,
guerrilha e movimento negro e contra a discriminação racial...."
- 1980:
O governo Republicano, abrindo as portas do Brasil aos imigrantes europeus,
estabelece que africanos e asiáticos só poderão entrar
mediante autorizacão do Congresso.
*Marcelo
Netto Rodrigues,
28, é jornalista independente, militante de base do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e colaborador do EmCrise.
|