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Pedagogia faz-de-conta ou revolução educacional? Progressão Continuada: professores despreparados, regimentos falidos, alunos e famílias carentes, e uma pedagogia aprovada por Paulo Freire Por Lia
Rangel A ruptura com a organização seriada do ensino, que teve início nos anos 90, a partir da implantação dos ciclos nas primeiras séries do ensino fundamental, transformou-se em uma política comum nos últimos 10 anos. Principalmente após a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Com os ciclos, instituiu-se a progressão continuada, sistema pedagógico fundamentado no fim da repetência. Atualmente, 23% das escolas brasileiras estão organizadas dessa maneira. A maior parte delas pertence à rede pública, que compreende 90% das instituições brasileiras. Em São Paulo, mais de 70% das escolas
adotaram o sistema, dividindo o ensino fundamental em dois ciclos ininterruptos,
com duração de quatro anos cada. Apesar das reformas progressivas,
a resistência dos professores tem levado polêmica para dentro
das escolas. "No papel as transformações são
lindas, mas na prática não temos instrumentos para fazer
da progressão continuada algo realmente produtivo", afirma
Marina Marques, professora de ciências da rede municipal de São
Paulo. "Criamos a pedagogia do faz-de-conta, na qual professor finge
que ensina e o aluno faz que aprende", prossegue. Críticas
de Marina comprovam que a realidade das escolas não mudou se comparada
com a época em que o sistema tradicional vigorava. Construindo Conhecimento Sandra Souza, doutora em pedagogia pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, explica que essa realidade existe porque a essência da pedagogia não foi absorvida. "O horizonte da questão propõe a construção de uma nova concepção do processo de aquisição e produção do conhecimento", alerta. Segundo a pedagoga, a aplicação da progressão continuada exige transformação da lógica de organização do trabalho escolar. Com a abolição da repetência no término de cada série, o conceito de avaliação teve de ser alterado. As notas deixaram de ser o principal método de análise do rendimento. Passou-se a considerar o aproveitamento universal e cotidiano do aluno. Os professores, então, passaram a questionar o conceito assimilado por meio de métodos como a observação e o acompanhamento diário. Esse aspecto requer uma análise individual de cada criança, considerando que o ritmo de aprendizado muda de pessoa para pessoa. "Ao supor uma transformação no significado da avaliação tal como vivenciada na escola, abala o 'pilar central' que tem sustentado, mesmo com equilíbrio instável, as relações no âmbito da instituição escolar", diz Sandra. O grande trunfo dos que apóiam o sistema é a defesa da democratização do ensino. O Ministério de Educação, por exemplo, tem incentivado a adoção da progressão continuada para aumentar o número de crianças na escola e também para reduzir gastos. Um estudo realizado pelo Inter-American Dialogue e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em 1998, revela que o Brasil apresenta um dos piores desempenhos escolares, posicionando-se abaixo da média da América Latina, que é de 42% de repetência para a primeira série do ciclo básico. No País, esse número chega a 53%. Dessa maneira, somente 1% dos alunos brasileiros consegue concluir a oitava série sem repetir nenhum ano. Também existe uma defasagem entre idade e escolaridade. 60% dos alunos do ensino fundamental estão pelo menos dois anos atrasados. Diferença nas Cifras O MEC defende que o sistema de ciclos é mais justo porque derruba a "cultura da repetência". Outro argumento que o governo costuma usar é que esse modelo está próximo do utilizado em países como Alemanha, França e Inglaterra. Mas existe uma diferença entre o sistema aplicado aqui e lá. Na Europa, o investimento médio por aluno/ano é de U$ 4 mil e no Brasil este valor não passa de U$ 300. Outra questão está diretamente relacionada ao salário dos professores. Enquanto nos países desenvolvidos o valor médio mensal é U$ 3 mil, no Brasil este número é de U$ 220. As estatísticas são divulgadas com um outro enfoque pelo MEC. Em janeiro do ano passado, Paulo Renato de Souza, ministro de Educação, apresentou durante a Conferência Mundial de Educação em Jontiem, na Tailândia, um relatório destacando os avanços da educação no País. Vangloriou-se da universalização do ensino, que está diretamente ligada à implantação dos ciclos. Em 91, o índice de escolarização era de 86% e, em 98, passou para 95,8%. Com o fim da repetência, os números de evasão diminuíram. A taxa de alfabetização, segundo Paulo Renato, também melhorou. Em 1991, o número de analfabetos chegava a 20% da população brasileira. Foi reduzido para 15%. "O que não foi dito é que 30 milhões de brasileiros são classificados como analfabetos funcionais, pois freqüentaram a escola durante no máximo 4 anos", afirma o orientador pedagógico Ocymar Munhoz. "A escola brasileira tem uma tradição elitista e de exclusão", completa. Munhoz também acredita que a progressão continuada é um avanço, mas não simplesmente para os indicadores. "A repetência não faz sentido, uma vez que ela é um convite à evasão.", completa. "Os professores resistem à proposta, mas o que eles têm de reivindicar são condições para que possam aplicar de forma plena e eficiente a pedagogia em questão. Temos a responsabilidade de oferecer o conhecimento a todos", completa. Pedagogia do faz-de-conta Os professores, no entanto, são contrários à iniciativa do governo. Muitos defendem que a implantação do sistema não passa de uma simples manobra para a manipulação de dados. Eles querem saber como trabalhar, frente às mudanças, para oferecer qualidade aos alunos. Com a não repetência, as turmas se tornam heterogêneas. Alguns lêem com desenvoltura, outros nem sequer reconhecem o alfabeto. Trabalhar esses diferentes níveis de conhecimento torna ainda mais complicada a rotina dos docentes. Na rede pública as salas superlotadas, a falta de material e a desinformação dos professores compõem uma realidade que impossibilita a aplicação de uma teoria democrática de ensino. Natividade acredita que muitos docentes nem sequer se interessam em mudar. "O único lugar onde não tem cultura na escola é na sala dos professores", acusa a mestra. Ela teve projetos vetados pela diretoria da escola onde trabalha. Nativa, como a professora é conhecida, montou uma turma com alunos atrasados e pretendia dar aulas fora do período oficial. "A diretora disse que não cederia espaço, pois minha proposta estava provocando discórdia entre outros docentes", conta. Outros professores optam por meios oficiosos para continuar o trabalho. Samira Saleh, professora da 2ª série, separou os alunos não alfabetizados dos restantes. Aqueles que não sabem ler sentam na fileira encostada na janela e recebem atividade paralelas. Em outra escola da rede municipal, Maria do Carmo e suas colegas dividiram os alunos em turmas separadas. "Se não fizer assim não temos como trabalhar. Os alunos vão acumulando as falhas e só vão repetir de ano no final do ciclo, quando estiverem na 4ª série.", justifica. Cursinho de Verão! Na tentativa de solucionar o nível de disparidade, as escolas oferecem aulas de recuperação. Duas vezes por semana, alunos com dificuldade de aprendizado se reúnem com outra professora. As condições, porém, em que as aulas são dadas, oferecem poucas chances para que os alunos realmente se recuperem. Andréia di Lizandra dá o reforço para os alunos de Maria do Carmo. Aos 27 anos, ela passou no concurso da prefeitura somente como professora adjunta. Fez o curso de magistério em uma escola estadual e afirma que tem poucos conhecimentos sobre métodos de alfabetização. Mesmo assim, faz o que pode pelos alunos. "Eu sei que eles só vão aprender quando realmente tiverem o interesse. Esta é minha grande angústia. Quero fazê-los ler, mas não tenho esta bênção." Na EMEF Wanny Salgado, Zona Leste de São Paulo, os alunos vêm de famílias muito pobres e desestruturadas. "Sabe o que falta para essas crianças? Um herói para se espelhar. Eu digo sempre a eles, olha o seu colega. Ele já sabe ler e você não. Eu comparo os mais problemáticos com os mais adiantados para que eles tenham um modelo.", continua. Sem ter consciência, Andréia traz para dentro a sala de aula a exclusão. Ela ainda diz ser a favor da progressão continuada pois não acha justo que crianças fiquem fora da escola. Andréia ganha R$ 400,00, tem um filho de 2 anos e seu marido é mecânico. Os professores do segundo ciclo (da 5ª a 8ª série) se queixam de outro problema. Segundo eles, os alunos são espertos e sabem que não vão repetir de ano. "Não conseguimos mais controlar a disciplina dessas crianças, nem temos meios para prender a atenção deles", confessa José Renato. Por esses motivos, a rejeição dos docentes é grande. Pedagogia remete aos anos 50 Uma pesquisa divulgada pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo (Apeoesp), em maio, revelou que 91,9% dos professores da rede estadual de educação do Estado são contra a implantação da progressão continuada e dos ciclos. "A rejeição é quase absoluta porque o sistema foi implantado de maneira arbitrária e nós não temos instrumentos para fazer a pedagogia valer", afirma Samira, que acumula a função de diretora geral do Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal (Simpeem). "Infelizmente não temos nenhum
balanço oficial sobre a opinião dos docentes na rede municipal,
mas a insatisfação geral nos permite fazer previsões.
Os resultados não seriam diferentes dos coletados pela Apeoesp.",
completa a professora. Samira faz parte da minoria que é a favor
das reformas educacionais adotadas nos últimos 10 anos, apesar
das condições em que o ensino público se encontra.
Ela se posicionou a favor do sistema, depois de ter acompanhado as experiências
de Porto Alegre e de Belo Horizonte, que respectivamente deram vida às
escolas Cidadã e Plural. Ambas começaram a adotar os Ciclos
a partir de 1995 e são exemplos de como a progressão continuada
pode dar certo. |