Os mercadores da morte estão em Londres

As contradições de um mundo de mentiras ficam gritantes quando a capital britânica organiza um encontro internacional para vender armas - inclusive para países considerados terroristas pelos próprios ingleses

A Trafalgar Square tingida de vermelho, em manifestação contra a DSEi.
Fonte: IndyMedia UK.

por André Deak
EmCrise –16/10/2003

''De repente, mais de dez policiais fizeram um cordão humano na frente da passeata, bloqueando a passagem. Enquanto a confusão começava, com manifestantes tentando forçar o bloqueio, a polícia também fechava a saída na parte de trás: era como assistir, de dentro, uma gaiola sendo trancada. Com muitas liberdades civis e direitos constitucionais revogados naquele momento com o ato anti-terrorismo, os braços da lei pareciam mais amedrontadores do que nunca. Ainda mais, sabendo que os quase dois mil policiais circulando na região estavam ali para defender terroristas. Desta vez não estavam escondidos em nenhum bunker no deserto, mas passeando em Londres, nas Docas, na exibição internacional de Sistemas e Equipamentos de Defesa (DSEi - Defence Systems and Equipment International), um eufemismo para feira de armas ou, como alguns preferem, pic-nic de torturadores.

Era meio-dia de quarta-feira, dia 10, setembro de 2003. Na terça, 700 pessoas protestaram na abertura do evento, algumas jogando bexigas de tinta vermelha nos engravatados que entravam no Excel Centre (depois, alguém me disse que não era tinta, mas sangue). Em vários pontos ao redor do centro de exibição aconteceram pequenas demonstrações. Nesta manhã houve uma "pedalada" organizada pelos ativistas da Massa Crítica e, pouco depois, um bloqueio para evitar a entrada dos negociantes da morte no pavilhão. Talvez o melhor, entretanto, ainda estava por vir: uma festa de rua, "uma celebração da vida - cheia de alegria e fúria e amor e dissidência criativa", programa para quarta à tarde, de acordo com o panfleto do grupo Reclaim the Streets.

Ao desembarcar na estação Canning Town do metrô, em um dos subúrbios mais pobres de Londres, o ar estava carregado com uma típica tensão pré-conflito: dezenas de policiais nas plataformas, vigilantes. Já dentro da estação, uma garota com as mãos sujas de tinta vermelha carregava uma placa, também manchada: "Não há decência na venda de armas."

O pavilhão do Centro Excel de exposições fica nas margens do rio Tâmisa. De um lado, três navios de guerra em exibição e bilhões de dólares sendo negociados em armamentos, alguns deles conhecidos como "antipersonnel weapons" por causarem o maior dano possível à pessoas, como por exemplo as bombas de agrupamento israelenses (cluster bombs), utilizadas no Afeganistão e no Iraque. Muitas delas não explodem e tornam-se minas, letais para civis e principalmente crianças, que, curiosas, pegam esses estranhos objetos de metal. Ainda hoje os hospitais de Bagdá recebem feridos por cluster bombs e o Afeganistão é um dos países mais minados do mundo (quase 800 quilômetros quadrados, de acordo com o Landmine Monitor Report 2003), graças também aos bombardeios recentes. Agora, entretanto, pode-se ficar mais tranqüilo: os vendedores israelenses garantem que possuem "as mais seguras bombas de auto-destruição do mundo, com a maior penetração e a mais larga área letal". Se o antigo modelo de cluster bomb deixava 10% delas sem explodir (conforme afirmava o fabricante - há quem diga que a taxa real é mais de 50%), agora "apenas" 2% ficarão expostas. A "bomba segura" é apenas mais um dos truques de linguagem criados após a "guerra cirúrgica", as "armas inteligentes" e mesmo a "guerra contra o terrorismo."

A principal entrada para o pavilhão estava fechada, com grades e quase cem policiais monitorando a entrada, permitindo apenas a passagem de carros ou homens de terno - devidamente vaiados quando cruzavam algum grupo de manifestantes. Alguns até vieram protestar de paletó, mas o tênis puído denunciava: suas armas eram apenas panfletos e criatividade; também não poderiam entrar. Após as bexigas vermelhas do dia anterior, entretanto, o policiamento tornou-se mais rigoroso: fecharam a estação de metrô mais próxima e bloquearam a ponte que dava acesso à parte de trás do centro Excel. Um italiano reclamava com um dos policiais:

- Mas a via é pública!
- Hoje não.
- E o que acontece se eu atravessar a ponte?
- Você vai ser preso.

Me chamam de assassino

A cidade de Londres gastou mais de um milhão de libras (cerca de um 1,5 milhão de dólares) com helicópteros, cavalos, vans alugadas para transportar policiais (não tinham carros suficientes) e todo o aparato necessário para garantir "o direito de vender armas e a segurança da propriedade privada", conforme justificou um dos policiais que bloqueavam a ponte. O próprio prefeito, Ken Livingsotone, um dos poucos no governo que é contra a DSEi, já adiantou que no ano que vem a conta será paga não pelos cidadãos, mas pelos organizadores do evento. Foram dois mil oficiais da Polícia Metropolitana, 300 guardas de trânsito e 25 oficiais do Ministério de Defesa. A Scotland Yard utilizou novamente as táticas do 1° de Maio (um dia tradicional, na Inglaterra, para demonstrações anarquistas): policiais à paisana, grupos de vigilância, cavalaria e cães.

Assim, com tamanha segurança para negociar "sistemas de defesa", as demonstrações não impediram nenhum contrato bilionário. Com sorte, geraram alguma dor de consciência. Seis ou sete mulheres fantasiadas de domésticas, por exemplo, ficaram por algum tempo na entrada da exibição, frente à barreira policial, com escovões de plumas cor-de-rosa, "limpando a sujeira" dos paletós que passavam por ali.

- O senhor não tem vergonha? Vá procurar um emprego decente! Como é que você consegue dormir de noite sabendo que causa a morte de crianças?, perguntavam as moças aos senhores de terno que, obviamente, ficavam um pouco irritados. À noite, num típico pub inglês, um russo faria um desabafo e uma ironia:

- A gente vem aqui trabalhar e as pessoas me chamam de assassino. É, sou eu, sim, o responsável por todos os problemas do mundo.

A Rússia produz algumas das armas mais utilizadas nos conflitos mundiais, como o rifle Kalashnikov, a série AK (47 e 74) e lançadores de granada. Estima-se que quase cem milhões de rifles foram produzidos: o suficiente para armar um exército do tamanho de cinco São Paulos.

fonte: The Guardian

O Ministério da Defesa (que organizou o evento) convidou também países como Turquia, Arábia Saudita, Angola, Tanzânia e Israel - Estados que reconhecidamente não respeitam direitos humanos. O jornal The Guardian revelou que "entre aqueles convidados pelo governo para vir a Londres está a Síria. Sim, Síria - supostamente uma das grandes ameaças à paz e estabilidade do mundo, um país que a Casa Branca acusa de possuir armas químicas, assim como esconder as armas de destruição de massa de Saddam Hussein". A Síria, entretanto, rejeitou o convite.

A Campanha Contra o Comércio de Armas (Campaign Against the Arms Trade) publicou um relatório, onde afirma: "Israel, Turquia, Arábia Saudita, EUA, China e Rússia foram convidados para a DSEi 2001; todos receberam armas da Grã-Bretanha em 2002". Convidar tais países "providencia aprovação implícita para suas ações". Dos mais de 950 expositores, aproximadamente metade são do Reino Unido, 20% dos EUA e o restante, empresas de outros países da OTAN. O Reinou Unido é o segundo maior exportador de armas do planeta, com 20% dos contratos mundiais; os EUA têm 32%.

Poder para o povo

Quatro horas da tarde de uma quarta-feira nebulosa, o ponto de encontro da festa de rua que estava para começar era um "camelódromo" perto do centro ExCel de exposições. Mais de cem policiais no local, os lojistas todos fechando as portas de metal de suas lojas, sem saber direito o que acontecia.
A massa começa a mover-se. Os policiais, atônitos, movimentam-se rápido, falam no rádio, para onde estão indo? Uma garota comenta:

- Que loucura. Começaram a andar do nada e ninguém sabe para onde.
- Pelo menos a polícia também não sabe.

Poucos minutos depois, a rua está tomada de manifestantes marchando. Um carro da polícia liga as sirenes e tenta chegar ao início da passeata, mas é impedido por um cordão humano que se forma em sua frente. Começa uma correria. Duzentas, trezentas pessoas, correm para um rua menor e então escuta-se um som alto, acid music, como numa discoteca. A festa está começando.

A música vem de uma bicicleta equipada com poderosas caixas de som, mais de quatro. Na direção, um ativista barbudo vestido de Fred Flinstone. Seguem para uma avenida, uma das principais vias de acesso, e alguns começam a arrancar as grades de um canteiro de obras, jogando na pista, tentando impedir a passagem do carro da polícia. Os policiais que estão a pé retiram as placas de metal e pedras do caminho. Eles estão acompanhando a marcha, por fora, até a hora em que fazem um cordão humano, na frente, impedindo a passagem. Durante a confusão, outro cordão policial se forma atrás - estão todos presos.

- A tática é sempre a mesma: agora vão deixar todo mundo aí umas três, quatro horas, depois soltam. É inconstitucional? É. Mas até alguém fazer alguma coisa já acabou, explica um ativista vestido com colete do exército, carregando uma metralhadora de plástico cor-de-rosa.

O congestionamento que se formou parou quilômetros, mas os jornais do dia seguinte não deram nada. Aparentemente, só há espaço nas páginas para uma grande manifestação contra o liberalismo - e as fotos de gente sem roupa em Cancúm, contra a OMC, eram muito melhores.