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A Imprensa brasileira
está à venda
Demissões em massa, queda de
circulação generalizada e dívidas exorbitantes são
sintomas de uma crise que já atinge há algum tempo as empresas
de comunicação - mas a abertura do capital aos estrangeiros
seria a melhor solução?
Por André
Deak
EmCrise* 15/05/2002
Eles não sabiam que 25 de outubro
de 2001 seria o seu último dia de trabalho. Saíram de casa
imaginando apenas mais uma jornada comum: telefonemas, entrevistas e textos
- a mesma rotina de qualquer jornalista do diário O Estado de S.
Paulo. Aquela quinta-feira, entretanto, foi diferente.
Alguns foram notificados por seus chefes logo ao chegar: podiam guardar
suas coisas e ir embora - não trabalhavam mais ali. O ambiente
ficou tenso. Há tempos esse rumor vinha rondando e, na última
semana, já se sabia que o pior estava chegando. A apreensão
transformou-se em angústia: ninguém sabia quem seria o próximo
ou quando as demissões iriam parar. Algumas pessoas choravam e
a cada "não precisa vir amanhã" o clima ficava
pior. A gritaria e o corre-corre habituais da redação desapareceram
e deram lugar a um ambiente que lembrava mais um velório. Ao final
daquela tarde o número de baixas chegou a 60. Mas não foi
um cenário exclusivo do Estadão. Durante os últimos
meses tornaram-se comuns, na imprensa especializada, manchetes como "UOL
demite em todas as áreas", "Mais 16 dispensados no Jornal
do Brasil", "Veja corta 25", "Gazeta (Mercantil) demite
100 por telegrama", "Editora Globo corta 25% da folha (de pagamento)"
e tantas outras. Definitivamente, não era um caso isolado.
Às vésperas de outubro de 2002, mês de eleição
presidencial, a Câmara dos Deputados e o Congresso mobilizaram-se
a favor do Pedido de Emenda Constitucional (PEC) 203-B/95, que altera
o artigo 222 da constituição brasileira. Ele surgiu sete
anos atrás, formulado por um parlamentar membro da Igreja Universal
do Reino de Deus: sugeria alterar a constituição para que
não apenas pessoas físicas, como as famílias Mesquita,
Frias, Saad ou Marinho, pudessem ser donas dos meios de comunicação,
mas que também fosse lícito que empresas sem fins lucrativos,
como as igrejas, por exemplo, tivessem o seu jornal ou fossem concessionárias
de uma emissora de rádio ou de televisão. A PEC ficou esquecida
até 1997, quando o então deputado Aloysio Nunes Ferreira,
atual ministro da Justiça, reformulou-a para que as alterações
na constituição fossem duas: em primeiro lugar, que não
apenas pessoas físicas possam ser donas de veículos de comunicação
de massa, mas pessoas jurídicas também; em segundo, a PEC
abre espaço para que 30% das ações desses mesmos
veículos possam ser vendidas para grupos não-brasileiros.
As duas medidas seriam "um passo importantíssimo e decisivo
rumo à modernização do mercado de comunicação
do Brasil", segundo um comunicado conjunto da Associação
Nacional de Jornais (ANJ), da Associação Brasileira de Emissoras
de Rádio e Televisão (Abert) e da Associação
Nacional de Editores de Revistas (Aner). Há quem diga, entretanto,
que esse passo para frente pode levar depois a três ou quatro para
trás. Isso porque a primeira alteração na lei permite
que as ações sejam colocadas à disposição
de compradores na bolsa de valores, o que renderia imediatamente algum
dinheiro à empresa -e esse seria o passo à frente, já
que realmente melhoraria uma legislação antiga e obsoleta.
Inclusive, recentemente, tanto a Folha quanto a Editora Abril já
deixaram de ser Ltda. para tornarem-se S.A., o que adianta o processo
para que elas possam lançar suas ações no mercado.
É a segunda alteração, entretanto, que assusta muita
gente. Abrir a possibilidade de entrada do capital estrangeiro pode render
lucros gigantescos às famílias que controlam a imprensa
nacional - e em dólar, ainda por cima. Mas também pode significar
aqueles três ou quatro
(ou cinco, seis, sete...) passos atrás.
"É
como entregar a Amazônia"
De
fato, a participação de pessoas jurídicas no controle
das empresas é "uma revolução", como definiu
um dos maiores estudiosos de comunicação do país,
Venício de Lima. "Nesse ponto, nossa legislação
atual é da época da ditadura". Sua opinião é
mais divergente, entretanto, em relação à venda de
30% das empresas para grupos de fora. Lima afirma que como o mercado é
atrativo, é provável que os maiores conglomerados de mídia
internacionais venham investir mesmo no Brasil. Mas adverte: "Ninguém
acredita que esses 30% evitem que esses grupos tomem conta do conteúdo.
Ninguém põe tanto dinheiro numa empresa se não ganhar
uma cadeira na diretoria."
O senador Roberto Requião (PMDB-PR) é ainda mais categórico
quanto à abertura: "Estamos salvando a quebra de algumas empresas
de comunicação entregando-as para o estrangeiro. É
a mesma coisa que pagar a dívida externa do brasil vendendo a Amazônia".
Segundo ele, "não é uma questão de simples participação
estrangeira na empresa brasileira, mas de participação na
formação cultural do Brasil. Não é um interesse
apenas de jornalistas, patrões e empregados, mas da sociedade inteira.
Além disso, são concessões públicas - e a
solução para a crise da imprensa não é vender
a concessão que receberam". A opinião do senador é
parecida com a conclusão a que chegaram vários jornalistas,
professores e alunos, que participaram do Fórum dos Cursos de Jornalismo
ocorrido em março, em São Paulo. De acordo com o documento
final, "a entrada do capital estrangeiro na propriedade dos meios
de comunicação de massa representa uma grande ameaça
à nossa cultura, às raízes culturais da Nação
e à nossa identidade, além de favorecer uma concentração
ainda maior dos veículos e dos conteúdos nas mãos
de alguns poucos grupos políticos e econômicos."
A alusão à interferência que haveria na produção
cultural brasileira tem fundamento. Hipoteticamente, se a Disney decidisse
investir dinheiro na Rede Globo (ou mesmo comprá-la), não
seria muito estranho imaginar que tomassem a decisão de encerrar
produções custosas e boas como a mini-série O Auto
da Compadecida e substituí-las por especiais do Mickey, já
prontos e embalados para exportação. Debater publicamente
antes de comemorar a entrada dos dólares no mercado de comunicação
brasileiro não seria ruim. Pelo menos cautela é o que recomenda
o diretor de negócios da revista Exame, Sidnei Basile: "Temos
que ter cuidado em ver no investidor estrangeiro a tábua de salvação.
O que essas empresas farão no Brasil? Vão repetir o modelo
das matrizes. Não podemos ir por onde o mercado está caminhando
- e sabemos que ele está sendo guiado pelo entretenimento. Cabe
a nós, brasileiros, montar o conteúdo e ter controle sobre
aquilo que lemos, vimos e ouvimos".
Mas
vai haver mais emprego. Não vai?
O temor de
que os brasileiros possam perder o controle da produção
cultural não é o único medo da oposição.
O deputado Neiva Moreira (PDT-MA), que fez parte da Comissão Especial
da Câmara que estudou essa proposta de emenda constitucional, destaca
que com a presença de diretores estrangeiros pode se tornar mais
difícil saber quais interesses essas empresas representam ou defendem.
O ideal, segundo ele, seria que "em vez de dar dinheiro do contribuinte
aos bancos Marka e Cidam, o BNDES abrisse linhas de créditos às
empresas sem que as mesmas necessitassem recorrer a essas controvertidas
associações". E acrescenta: "Defendo a tese de
que comunicação é um setor tão estratégico
como a defesa armada e não dá para descuidar das preocupações
com a Nação, sua soberania e sua cultura". O deputado
ainda cita um exemplo que, segundo ele, deveria ser seguido no Brasil:
"Na Suécia, quando a imprensa entrou em crise, o governo foi
em socorro: abriu uma linha de crédito enorme, porque acredita
que numa democracia uma oposição é necessária.
Aqui é o contrário: o BNDES ajudou a Globo e dificulta qualquer
financiamento para os outros. Desse jeito, a imprensa daqui vai acabar
como a da Venezuela". Recentemente, a imprensa daquele país
apoiou o golpe ao presidente eleito Hugo Chávez (e, pode-se dizer,
participou também), principalmente porque ele recusa-se a servir
aos interesses estrangeiros.
O presidente da Abert, Paulo Machado de Carvalho Neto, não vê
problemas em abrir 30%: "A obrigatoriedade de manter ao menos 70%
do capital total e votante, direta ou indiretamente, em mãos de
brasileiros natos ou naturalizados assegura o controle efetivo da administração
das empresas", disse ele em novembro através do jornal da
entidade. O argumento dos defensores do projeto é o de que, com
a crise econômica batendo às portas - ou melhor, arrombando-as
- não há como fortalecer o mercado e enfrentar as dificuldades
financeiras sem alguma ajuda externa. Seria a maneira mais rápida
para responder à urgente compra de novas tecnologias, cada vez
mais caras, e às demissões em massa que vêm ocorrendo
(a Comissão da Câmara dos Deputados chegou a falar que cerca
de dois mil jornalistas perderam seus empregos recentemente). O deputado
Neiva Moreira não acredita nisso: "Em alguns países
onde sócios foram admitidos nas empresas de comunicação,
o que houve foi o contrário: enxugamento por razões econômicas
e até redução de novas aquisições tecnológicas".
O documento final do Fórum de Cursos de Jornalismo também
toca nesse aspecto: "A oligopolização da imprensa torna
a concorrência desleal de tal forma a absorver as empresas locais,
com a constante eliminação de postos de trabalho e a geração
de desemprego estrutural". Mais irônico, o senador Requião
afirma: "Vai haver mais emprego, sim. Para jornalista americano."
Uma carta aos pré-candidatos à presidência da república
publicada em dezembro pela Associação dos Juízes
do RS (Ajuris), Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)
e o Sindicato dos Jornalistas do RS alertava para outro fato: ao mesmo
tempo em que a PEC 203 tramita no Senado Federal, segue também
o projeto de lei 175/2001, que amplia de 49% para 100% a possibilidade
de participação de capital estrangeiro nas empresas concessionárias
do serviço de TV a cabo. A alegação é a mesma:
problemas financeiros. A carta salienta a contradição existente
entre um pleito e outro: "Os mesmos grupos que reivindicam a mudança
da Constituição para permitir a participação
de 30% do capital estrangeiro enfrentam situações de crises
em empresas que permitem 49% e mesmo 100% de participação
de grupos estrangeiros. Uma evidência clara de que os recursos internacionais
podem não garantir a estabilidade financeira do setor."
Síndrome
de véspera de eleição
Essas contradições,
entretanto, parecem não fazer diferença. Ano passado, em
uma audiência concedida a seis dos principais empresários
do setor, o presidente Fernando Henrique Cardoso concordou que a legislação
deve ser modificada o quanto antes. Os presentes eram Luís Frias
(Folha da Manhã), Francisco Mesquita Neto (O Estado de S. Paulo),
Roberto Civita (Abril) Evandro Guimarães (Globo) Nelson Sirotsky
(RBS) e Paulo Cabral de Araújo (Diários Assossiados). Um
time de peso, poderia-se dizer.
Qualquer governo gostaria de ter esse dream team de formadores
de opinião ao seu lado. Talvez seja por isso que, mesmo com tantos
receios, houve tanta pressa e quase unanimidade em fazer a alteração
na lei - ela já passou por dois turnos na Câmara dos Deputados
e foi aprovada em primeiro turno no Senado. O senador Requião não
tem dúvidas da razão disso: "É síndrome
de véspera de eleição. Ninguém quer contrariar
a imprensa". Eduardo Suplicy (PT-SP), entretanto, afirma que seu
partido, tradicionalmente contrario à abertura da economia ao capital
estrangeiro, só a aprovou na Câmara "desde que o controle
editorial ficasse sob o controle de brasileiros". Agora, com a PEC
transitando em outra instância, ele afirma: "Vamos respeitar
essa deliberação. Estamos solicitando que seja instalado
o Conselho antes do segundo turno. Esse foi o compromisso assumido pelo
presidente do Senado, Ramez Tebet (PMDB). Só aceitaremos a votação
no segundo turno se o Conselho for criado. Exigimos que o controle da
programação fique em mãos brasileiras."
Esse "Conselho" citado pelo senador Suplicy é o Conselho
de Comunicação Social, um órgão auxiliar do
Congresso que já era citado na constituição de 1988
no artigo de número 224, logo abaixo do artigo 222 que deve ser
alterado. Teoricamente, esse Conselho teria a função de
opinar sobre concessões, qualidade do conteúdo e outros
assuntos ligados aos meios de comunicação, fazendo pressão
para que a população fosse sempre beneficiada com o conteúdo
da mídia. Apesar de existir no papel, nunca foi criado de fato.
Alberto Di-nes, em artigo publicado no Jornal do Brasil (15.12.01),
afirmou que "[o Conselho] só não foi constituído
e posto em funcionamento porque os senadores José Sarney e Antônio
Carlos Magalhães - eles próprios barões da mídia
regional -, durante seus longos mandatos na presidência do Congresso,
tudo fizeram para mantê-lo engavetado. E Jader Barbalho, tão
envolvido com a mídia local como os antecessores, teve seu mandato
felizmente abreviado". Mas mesmo que fosse criado, muitos acreditam
que não faria milagres: segundo a lei, seria formado por artistas,
membros das entidades patronais e "cinco representantes da sociedade
civil", num total de 12 membros. Se lembrarmos que cerca de 70% das
estações de rádio e 25% das de televisão são
controladas por políticos, cinco representantes da sociedade civil
não fariam muita diferença.
O senador Requião ainda aponta ainda outros problemas: "Vão
inventar um Conselho com salário, vai ter mandato... Isso é
uma piada de mau gosto. A única solução é
a pluralidade, única saída que garante a democracia. Quem
tem televisão não pode ter jornal nem rádio e vice-versa.
Tem que acabar com esses monopólios, tirar das mãos dessas
famílias". E aproveita também para criticar a atitude
do PT: "Além disso, o Conselho é um direito do povo,
não pode ser negociado". De fato, Venício de Lima,
há muitos anos, aponta: "A verdadeira solução
para a área, de longo prazo, é a democratização
da comunicação". Mas a pergunta que, nesses tempos,
torna-se cada vez mais pertinente é: "Como fazer isso?"
O
fator Rede Globo
Boa parte
da explicação dessa repentina votação a favor
da entrada do capital estrangeiro na mídia brasileira talvez esteja
na história recente das Organizações Globo. Durante
muitos anos, a maioria das empresas de comunicação foi a
favor dessa abertura de capital, mas a empresa carioca se opunha. O "padrão
globo de qualidade", tão dispendioso, poderia encontrar concorrentes
à altura (e com certeza alguns outros muito maiores) caso a BBC,
a Sony ou a AOL Time Warner decidissem juntarem-se a qualquer outra família
que não fosse os Marinho. E não é impossível
imaginar a Rede Cultura transmitindo ótimos documentários
do Discovery Channel ou uma fusão do SBT com a Televisa mexicana.
Em 2001, entretanto, a poderosa rede mudou de opinião e usou todo
o poder que tem em Brasília para apressar as votações.
O professor Venício de Lima, autor do livro Mídia: Teoria
e Debate, tem uma explicação provável: "Aparentemente,
a posição da Globo mudou por causa da Globocabo, que trouxe
enormes prejuízos à empresa. As maiores despesas foram com
os investimentos de instalação dos cabos e o alto preço
de toda a programação, ou quase toda, que é paga
em dólar". Como se sabe, a TV a cabo não decolou no
Brasil como imaginava-se que iria acontecer. Foram instalados 34 mil quilômetros
de fios para atender 6,4 milhões de residências - que conseguiram
conquistar apenas pouco mais de um milhão de assinantes. Para se
ter uma idéia, a revista Carta Capital de 20 de março revelava
que "as Organizações Globo como um todo têm uma
dívida total de US$ 1,3 bilhão". Mino Carta, editor
da revista, ainda frisa: "De dólares!". E alerta: "A
crise é muito maior do que os leitores imaginam".
A
Globo é do BNDES ou o BNDES é da Globo?
Na mesma
edição, Carta Capital trazia a manchete "O esquema
salva-Globo". Revelava as reações dos donos da mídia
após a operação em que o BNDS resolveu tornar-se
um grande investidor da Globocabo. A nova operação de socorro
custaria aos cofres públicos R$ 284 milhões. Boris Casoy,
âncora do Jornal da Record, chamava a "atenção
para essa operação num final de governo e a poucos meses
das eleições presidenciais". O colunista de humor da
Folha de S. Paulo José Simão, mais conhecido como Macaco
Simão, ia direto ao ponto: "Globocabo vira Globocabo eleitoral!
Globocabo eleitoral do Serra!"
Conforme a reportagem, "desde 1997 a Globocabo já levou R$
639 milhões do BNDS". Mino Carta, em entrevista, diz que isso
"é um esboço de Proer". Faz sentido. Fosse uma
linha de crédito a todas as empresas jornalísticas em crise,
não haveria problema. Mas o governo escolheu justamente a Globo
para investir, decisão ainda mais discutível quando lembramos
que a emissora ficou marcada, em um passado não muito distante,
por manipular o noticiário em favor do poder chapa branca. Otavio
Frias Filho, em artigo na Folha de S. Paulo publicado dia 14 de março,
esbraveja: "...trata-se do mais impressionante rolo compressor já
montado na política recente. Dinheiro, recursos políticos,
mídia, pressões, ameaças, tudo é usado para
favorecer o candidato oficial."
Leia também:
A
origem da crise
Quais são os maiores grupos de mídia
do Brasil e do mundo
*Publicado originalmente na revista
Diálogos&Debates.
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