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Por que Bush foi à África Continente
vira foco de interesse da Casa Branca, que alega "combate ao terrorismo''
para garantir acesso ao petróleo. Também estão na
mira transgênicos, patentes e o eleitorado negro dos EUA
''A Casa
Branca não tem uma política para a África. O que
tem é uma guerra permanente e mundial contra o terrorismo. A África
é mais um capítulo dessa estratégia''. Não
há retórica na opinião de John Stremlau, chefe do
departamento de relações internacionais da Universidade
de Witwatersrand, na África do Sul. Entrevistado pela agência
IPS, ele analisou, há dias, a viagem do presidente dos EUA, George
W. Bush, ao continente esquecido. Além de militarizar a África,
garantindo controle sobre as suas riquezas naturais, a jornada revelou
o interesse estadunidense em acordos de ''livre comércio'' e na
preservação das patentes de medicamentos, cada vez mais
questionadas após a epidemia de AIDS. Bush também pretende
evitar o crescimento dos protestos contra os transgênicos e, de
quebra, agradar o eleitorado negro dos EUA - que, na última disputa,
Os objetivos da viagem foram apresentados uma semana antes de ela começar, durante o Ato pela Oportunidade e Crescimento da África (AGOA, na sigla em inglês). O plano dá a alguns produtos fricanos, desde o ano passado, acesso preferencial ao mercado consumidor estadunidense. Em 2002, o programa envolveu 35 nações, que alcançaram, segundo autoridades dos EUA, aumento de 10% de suas exportações. Ainda no capítulo ''livre comércio'', Washington está batalhando para assinar um acordo com a União de Países do Sul da África (SACU, em inglês). Cresce resistência africana a transgênicos A África
é estratégica também para dois temas essenciais ao
governo Bush: a indústria de transgênicos e a patente de
medicamentos. A Casa Branca é o único governo a enviar suas
doações para combate da fome na África em forma de
alimentos. Os países da Europa doam dinheiro, que pode ser usado
para incentivar a produção local. Os gêneros doados
pelos norte-americanos são transgênicos. Algumas ONGs vêem
no gesto uma forma de inserir estes produtos no continente. O porta-voz
da Casa Branca, Ari Fleischer, confirmou, na prática, a estratégia,
ao admitir que, em todas as conversas com chefes-de-estado africanos,
Bush defendeu A resistência a essa iniciativa da Casa Branca cresceu ano passado, quando o presidente de Zâmbia, Levy Mwanawasa, recusou as doações. Os presidentes de Zimbábue, Moçambique, Malawi, Angola, Lesoto e Suazilândia passaram a exigir que os grãos doados fossem moídos, para evitar o replantio. O exemplo da Zâmbia pode ser perigoso para os interesses dos EUA. Depois de banir o recebimento de grãos transgênicos, o presidente Mwanawasa anunciou semana passada que a safra do país deve praticamente dobrar, informa a agência IPS. ''É mais uma prova de que os transgênicos não são necessários para acabar com a fome na África'', afirma Lori Wallach, uma das diretoras da ONG estadunidense Public Citizen. Em relação
às patentes de medicamentos, a Casa Branca também tenta
evitar o que vê como maus exemplos. Há dois anos, uma polêmica
jogou no ridículo a defesa intransigente que o governo dos EUA
faz da redução dos medicamentos à condição
de mercadorias. Foram os casos de Brasil e África do Sul que, mais
ou menos A Casa Branca pressionou principalmente o governo sul-africano. Ridicularizada por seu excesso de ganância, foi obrigada a recuar e aceitar, na IV Reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), no mesmo ano, que as patentes fossem quebradas em caso de epidemias que representem risco de ''calamidade pública''. Botsuana, quarta escala da visita de Bush, vive uma dessas crises de AIDS. Calcula-se que 40% da população está infectada pelo vírus HIV. Por não ter optado pela quebra de patentes, o país tem sido um dos alvos da doação de medicamentos da Casa Branca - outra forma de garantir recursos às transnacionais de remédios. Agora, o presidente dos EUA o apresentou como possível beneficiado por um programa que promete doações de US$ 15 bilhões, nos próximos cinco anos, para 14 países afetados pela doença - apenas dois não estão na África. O interesse das transnacionais no projeto - tanto para evitar casos que exijam a quebra de patentes, quanto para garantir lucros com as doações - é personificado pelo diretor do programa, nomeado por Bush. É Randall Tobias, um antigo diretor da Eli Lilly, uma das gigantes mundiais do ramo e das principais financiadoras da campanha do atual presidente republicano. Um safari por petróleo Mas o objetivo principal da viagem, segundo relata matéria do próprio New York Times, é garantir apoio para a militarização da região noroeste do continente. Historicamente de maioria muçulmana, essa porção da África combina instabilidade política com uma produção relevante de petróleo. A maior parte vem dos poços da Shell e Chevron/Texaco instalados na Nigéria, que fornecem 15% do petróleo consumido nos EUA. Além da Nigéria, são fornecedores de petróleo para os estadunidenses - em proporção bem menor - Angola e Gabão. O óleo africano, que tem hoje menos relevância para os estadunidenses que o importado do Oriente Médio, pode aumentar seu peso nos próximos anos. Algumas previsões, relata Charles Cobb, analista do portal All Africa, apontam que, em 10 anos, a África deve ser responsável por um quarto do petróleo consumido pelos EUA. Para garantir o acesso a essas fontes, Bush tentou negociar, já no Senegal, primeira escala de sua viagem, medidas que consolidassem sua presença militar na região. Segundo o New York Times, na conversa com sete chefes de Estado, ele tentou convencer os presidentes de Mali e Argélia a aceitarem a implantação de bases dos EUA em seus países. Além disso, teria dado atenção especial aos governos da Tunísia e Marrocos, com quem já possui - e pretende ampliar - acordos de ''combate ao terrorismo''. Uma semana antes de viajar, Bush já havia anunciado um programa de U$ 100 milhões para aumentar a "segurança em fronteiras e aeroportos" do leste africano - também sob forte influência muçulmana e vizinho do Oriente Médio. ''Muitos Bushs pela África'' Se a Casa Branca está à procura de mais ''grupos terroristas'' para combater, parece ter batido à porta certa. ''Não faltam, em toda a África, grupos que possam ser encaixados dentro da definição ampla de terrorismo usada pelo Pentágono'', afirma Jeffrey Herbst, da agência sul-africana Business Day. Há conflitos de sobra, no Congo, Somália, Serra Leoa e Libéria. E o que não faltam são pequenos tiranos locais, como lembra um cartaz colocado na embaixada dos EUA em Joanesburgo: ''Já temos muitos Bushs aqui''. Um desses pequenos Bushs é Charles Taylor, atual presidente da Libéria - pequeno país fundado em 1821 por escravos libertos dos EUA, que regressaram à África. A nação não fez parte do roteiro, mas foi o centro do debate na mídia. A ironia é que, como Saddam Hussein no Iraque, Taylor foi colocado no poder e mantido lá graças ao apoio da Casa Branca, como revela uma matéria de James Ridgeway, para o Village Voice. ''O país foi uma espécie de base da CIA na África durante a Guerra Fria, principalmente nos anos 70'', afirma. Roubando o papel dos ''colonizadores europeus'' Com sua viagem, Bush dá, de quebra, um passo à frente dos rivais europeus - que exercem forte influência sobre continente que colonizaram, como se viu no posicionamento de vários países africanos contra a invasão do Iraque. A vantagem geográfica das potências européias para exercer sua influência sobre a África já é contestada. Para Gian Paolo Calchi, do jornal italiano Il Manifesto, ''hoje, a Casa Branca tem mais influência que Paris sobre alguns países vizinhos da Europa. É ela, por exemplo, quem é aliada de Marrocos e Tunísia em programas de segurança contra atentados terroristas.'' Essa aproximação no combate ao terrorismo aconteceu principalmente depois do atentado de 14 homens-bomba na capital marroquina de Casablanca, que deixou 44 mortos. A tentativa
de um golpe indireto contra os europeus, via África, também
passa pela OMC. Segundo Fleischer, o porta-voz da Casa Branca, Bush tratou
com todos os seus colegas africanos da V Reunião da OMC, este ano
em Cancún. Isso porque o continente, liderado pela África
do Sul, tem sido um dos mais resistentes na *Colaboração
de Afonso Capellari e Bárbara Ablas |