A princesa enfrenta o tirano, no paraíso das corporações Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz, é detida pela ditadura de Myanmar, um desconhecido país asiático que exerce fascínio sobre as multinacionais: obriga milhares de pessoas ao trabalho forçado. Por Daniel
Merli Eleita Prêmio Nobel da Paz em 91, a ativista Aung San Suu Kyi ainda não terminou sua luta. Seu país, Myanmar (a antiga Birmânia) segue sendo dominado pela mesma ditadura militar que se instalou no poder em 1962. O antigo ditador, No Win, morreu ano passado, depois de 40 anos no poder. Mas foi substituído por uma comissão de militares - o Conselho Estatal para a Paz e o Desenvolvimento - atualmente comandado pelo primeiro-ministro e general Than Shwe. De certa maneira, Suu Kyi tenta concluir a batalha de seu pai, Aung San, que liderou a independência do país na década de 1940 - mas foi derrocado pelos militares de No Win. Em 1990, o partido de Suu Kyi, a Liga Nacional pela Democracia (LND) teve 80% dos votos, na primeira eleição nacional após a independência. A votação, no entanto, foi anulada pelo Conselho Estatal e Suu Kyi, presa. Desde então, a ativista vive entrando e saindo das celas birmânias. Ano passado foi libertada, depois de dois anos seguidos de cárcere. Mês passado, quando ainda tentava rearticular a LND, Suu Kyi voltou a ser detida e o seu partido colocado na ilegalidade. É, novamente, um dos dois mil prisioneiros políticos do país. Um emissário da ONU, o malaio Razali Ismail, está negociando sua liberdade. Disputa étnica, crianças em armas, trabalho forçado... A ditadura de Myanmar tem seu álibi para a repressão: manter unidos, sob mão pesada, os 50 milhões de habitantes, que se dividem em diversas etnias, como Wa, Shan, Lahu, além da maioria birmânia. A disputa desses povos pela independência mantém o país em tensão permanente. O governo é acusado por organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch, de financiar a ação de milícias - compostas também por crianças. Um informe da ONG mostra que das 300 mil crianças-soldados hoje, no mundo, o maior grupo - 60 mil - atua em Myanmar. Além do incentivo à participação de crianças na disputa militar, o governo de Than Shwe é acusado de impor o trabalho forçado a seus cidadãos. No relatório ''Minorias étnicas: alvo da repressão'', a Anistia Internacional denuncia a ditadura por deter cidadãos Wa, Shan ou Lahu e obrigá-los a realizar trabalhos pesados por dias ou semanas. O objetivo: construir estradas, oleodutos e realizar grandes plantações. Nesses ''investimentos'' com baixo custo em mão-de-obra, o governo de Myanmar tem muitos sócios, não só entre os empresários do país, mas também empresas transnacionais. A centenária empresa Unocal, com sede na Califórnia, foi condenada por um Tribunal de Apelações dos Estados Unidos por usar dessas ''facilidades trabalhistas'' para a construção de uma base marítima de extração de petróleo. Ainda recorrendo da decisão na justiça estadunidense, a empresa estampa como lema, em sua página oficial na internet: ''Melhorando a vida das pessoas, onde quer que trabalhemos''. Mas a Unocal não está sozinha. Mês passado, mais de 500 empresas receberam uma carta da Confederação Internacional das Organizações Sindicais Livres (Ciosl), pedindo que se retirassem de Myanmar, enquanto não for derrubada a ditadura militar. São empresas que mantêm algum tipo de vínculo com o governo e já haviam sido notificadas há três anos, quando a Organização Internacional do Trabalho (OIT) condenou a ditadura birmânia por forçar trabalho. E pediu às grandes corporações instaladas lá para não mais explorar esse tipo de mão-de-obra. Na lista das 500 parceiras internacionais da ditadura birmânia estão nomes conhecidos: Citibank - que financia obras do governo -, a fábrica de cigarros Philip Morris - que patrocina eventos culturais do Ministério da Cultura -, a ChevronTexaco - que possui terrenos no país - a sul-coreana Daewoo, a fábrica japonesa de carros Subaru, General Motors, Nestlé, 3M...
*texto publicado originalmente no site Porto Alegre 2003. Daniel Merli é repórter da Ciranda Brasil. |