Attac: Fenômeno passageiro ou evolução política?

Por André Deak e Rodrigo Savazoni
EmCrise, 3/3/02

Janeiro de 2001. Ativistas do Attac (Ação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos) de 14 países participam do 1º Fórum Social Mundial. Janeiro de 2002. A rede internacional, criada para divulgar e defender a Taxa Tobin, traz ao Brasil representantes de cerca de 40 estados nacionais. Esse crescimento - de quase 300% para fins de estatísticas quantitativas - pôde ser visualmente percebido nos cinco dias em que a capital do Rio Grande do Sul voltou a ser o centro dos movimentos de luta contra a globalização neoliberal. Durante a segunda edição do Fórum, a organização promoveu, em associação com outros grupos, algo em torno de 75 seminários, oficinas e conferências; espalhou sua marca em faixas e cartazes por todo o "território" da PUC-RS; teve o seu nome estampado em camisetas de militantes de inúmeras nacionalidades; distribuiu broches com o seu logotipo (o porcentual); lançou um CD; realizou um show com a banda pernambucana Mundo Livre S.A; organizou a cerimônia de abertura do Fórum, no palco da Praça do Pôr-do-Sol; realizou o 1º Encontro Mundialdo Attac e também uma reunião para cadastrar novos integrantes.

Tomando-se como exemplo a França, e a própria ligação da rede na criação do FSM, não é de se estranhar esse crescimento. Em seu país de origem, o Attac envolve cerca de 30 mil ativistas, 150 parlamentares e 1500 entidades da sociedade civil, entre cooperativas, sindicatos, organizações não-governamentais e empresas. Devido a essa fenomenal representatividade, que atualmente influi inclusive nas eleições presidenciais francesas, o empresário Oded Grajew procurou Bernard Cassen, presidente mundial do Attac e diretor do Le Monde Diplomatique, quando postulou as primeiras bases do que viria a ser o Fórum. Naquele janeiro de 2000, em que o diretor-presidente do instituo Ethos esteve em Paris, o FSM passou a existir de fato, porque Cassen assumiu a responsabilidade de divulgá-lo e promovê-lo em toda a Europa.

Coqueluche política

Para o jornalista do Diplomatique, o método de trabalho desenvolvido pela entidade é o principal responsável por esse avanço da organização. Atuando em duas frentes, o que chamam de ação direta e educação popular, os attacantes querem suprir duas demandas: desejo de estar nas ruas, e vontade de compreender os mecanismos que levam o mundo a tal estado de desigualdade e falência estatal. Para tanto, promovem passeatas e manifestações, e também editam livros, jornais, realizam seminários, encontros, palestras e debates. Não se trata de um movimento revolucionário - como enfatiza Cassen -, ainda que muitos de seus militantes pretendam alterar totalmente a ordem instaurada num futuro próximo. Em primeira instância, funciona como uma espécie de centro aglutinador para aqueles que têm o interesse de militar, mas já não se encontram representados por partidos políticos, sindicatos, sejam eles quais forem. Num segundo momento, é também um espaço para que essas próprias entidades "desgastadas" possam renovar as suas forças. "Nós estamos preenchendo um vazio que o fim do socialismo real provocou em toda o mundo", salienta Cristophe Ventura, espécie de porta-voz internacional do Attac.

Além disso, com vistas a aproximar novos ativistas e divulgar as idéias do "movimento" - para usar a definição adotada pela jornalista canadense Naomi Klein - a rede promoveu algumas estratégias de divulgação. Uma delas foi realizar debates em parceria com grupos de prestígio, entre eles os intelectuais do Zero à Esquerda e do Conselho Latino Americano de Ciências Sociais (Clacso), os camponeses militantes da Via Campesina e os educadores do Instituto Paulo Freire. Outra foi montar um estande para vender produtos e distribuir folhetos informativos. As vendas não foram significativas, mas o local funcionou como um centro de apoio e encontro para todos os attacantes do mundo, que puderam trocar experiências diariamente.

Sem Flores

Nem tudo é positivo nesse avanço do Attac. A organização já possui seus inimigos, e eles não costumam levar flores aos encontros. Semana antes do Fórum, Laerte Braga, um ex-militante brasileiro, distribuiu um e-mail acusando Bernard Cassen de manter relações com Fernando Henrique Cardoso e com a direita francesa. Cassen, que conhecia o conteúdo da carta - e qualificou seu autor de "louco" -, preferiu não comentá-la. Este, no entanto, é um exemplo restrito. Para muitos, essa nova forma de atuação política - que despreza conceitos ancestrais tais como a distinção entre esquerda e direita, não se assume revolucionária, e aceita militantes de qualquer partido - não passa de um braço camuflado do pensamento único difuso. Cristophe Ventura reconhece que essas críticas têm sua razão de ser. Porém, em defesa, cita o exemplo do Paraguai. Segundo ele, naquele país da América Latina, os movimento sociais estavam praticamente mortos. Com o surgimento do braço paraguaio da rede, os camponeses, políticos e sindicalistas voltaram a ter um organismo vivo e atuante. "Nesse sentido nós somos revolucionários", contemporiza o porta-voz.

Outra crítica que costumeiramente se ouve: a organização não passa de uma grande marca que engloba diferentes lutas, mas que não possui plataformas próprias de ação. "Parece-me que nós respondemos a uma demanda das pessoas, e não podemos dizer que isso é ruim", provoca Ventura. "Se as pessoas querem usar nome do Attac, só precisam seguir a nossa temática, fazer um contrato moral conosco", afirma, referindo- se à carta de princípios divulgada pelo comitê gestor da entidade em 1999, na qual estão regulamentadas as suas bases de atuação.

Breve Histórico

Criado em dezembro de 1997, para difundir o imposto Tobin - teoria desenvolvida pelo economista James Tobin que visa a taxar em 0,1% quaisquer transações financeiras internacionais -, o Attac ganhou notoriedade em 1998 ao promover ações contrárias ao Acordo Multilateral de Investimentos (AMI), que estava então sendo discutido no âmbito da OCDE (Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico). Devido à força de pressão de sua sociedade civil, a França se retirou do debate. Processo similar a esse ocorreu durante as negociações da Rodada do Milênio, em Seattle, no ano de 1999. Dessa feita, o Attac aliou-se às demais organizações que de 29 de novembro a 4 de dezembro daquele ano mostraram ao mundo a nova face do movimento antiglobalização, ao saírem nas ruas e impedir o avanço das negociações.

Nos últimos três anos, restabeleceu as suas prioridades. O polêmico imposto Tobin passou a ser apenas uma de suas muitas plataformas de ação. Ventura explica os prós da taxa: "não se pode, só com a taxa Tobin, fazer um mundo melhor. Ela é, principalmente, uma forma de pedagogia útil, porque com ela, acredito que as pessoas podem perceber que há como inverter a lógica do poder".

No Brasil, a Ação pela Tributação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos possui núcleos em Belo Horizonte, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro - onde inclusive já existe uma dissidência. Durante o Fórum deste ano, os attacantes brasileiros promoveram um encontro para estabelecer as bases do que virá a ser o Attac Brasil. "O país de vocês é tão grande que podemos continuar com núcleos nas principais cidades e depois, quando o desenvolvimento for maior, formalizar um núcleo nacional", defende-se Cassen. O presidente da entidade foi quem sugeriu a feitura do Fórum em Porto Alegre. Com a realização do encontro anual, a rede ganhou força no País, mas ainda está distante da estrutura francesa.

Encontro Mundial

Ao menos foi isso o que demonstrou o 1º Encontro Mundial do Attac, realizado no dia 3 de fevereiro, no hotel Embaixador, em Porto Alegre. Durante todo o dia, attacantes de nações tão distantes quanto Rússia e Japão discutiram suas estratégias de luta, idéias convergentes, projetos afins. A parte da manhã foi reservada aos Europeus. À tarde, foi a vez dos americanos, com destaque para a delegação da província canadense de Quebec - "uma minoria latina que vive ao lado do monstro". A partir das cinco da tarde, a reunião foi mundial. Ao todo, cerca de trezentas pessoas participaram do debate. Representantes da Guiana Francesa e da África receberam aplausos, mas foram os argentinos, paraguaios, uruguaios, colombianos, brasileiros que demonstraram força política ao estabelecer a luta contra a implantação da Alca (Acordo de Livre Comércio da Américas) como prioridade para este ano.

Além disso, houve também o primeiro encontro de jovens ativistas da rede. Os argentinos Luciana Ghiotto, de 23 anos, Juan Francisco Alvero, de 18 anos e Javier Echaide, de 27 anos, do núcleo de Buenos Aires, e os brasileiros José Guilherme Moreno e Janaina Preterotto, do recém-criado Attac de Campinas, cidade do interior de São Paulo, aproveitaram a oportunidade para trocar experiências. Os cinco tiveram o primeiro contato com a organização em palestras. Os motivos que os levaram ao movimento, no entanto, são diferentes. Juan explica os seus: "Em um partido as coisas são feitas e pensadas pelo e para o partido, aqui é pela e para toda a sociedade". Já Javier valoriza o fato de poder conversar tanto com um socialista quanto com um peronista quando participa das movimentações. Janaina, por sua vez, enxerga no apartidarismo da instituição sua principal qualidade. Em comum, no entanto, têm os cinco a perspectiva emergente de construir um novo mundo. E estão se organizando para isso.

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