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A Penha não é mais a mesma Por Rodrigo
Savazoni
Cenário: Penha; zona leste de São Paulo. A rua desenvolve-se em declive. Do portão de ferro da casa, mirando à direita, avista-se a linha do metrô, construída sobre portentoso viaduto; colunas e mais colunas de concreto a invadir uma planície periférica. Tempo: tarde ensolarada, mês qualquer, dia pouco importante. O ponteiro do relógio corre com parcimônia e delicadeza, a buscar pelo anoitecer. Itamar Assumpção ouve a campainha tocar três vezes. Está no quarto dos fundos. Levanta-se da cadeira, cruza a soleira, sobe uma seqüência curta de degraus, passa a mão em seu cachorro. Dirige-se ao portão da casa. O cumprimento é rápido. Mão na mão. Preto esguio, alto, rosto largo e expressivo, tranças jamaicanas grisalhas, Itamar traja uma camiseta surrada do Corinthians, algo que em seu corpo assemelha-se a uma segunda pele. Sem meias-palavras; avisa que o cão é bravo: - É melhor não passar a mão nele. Assim meio de lado, Itamar caminha, para não incomodar o bicho. Refaz o trajeto pela lateral da casa, volta ao quarto em que compõe, ensaia sozinho, ouve músicas, e viaja, com a ajuda de estimulantes. O lugar é simples: um móvel conjugado; escrivaninha, armário, portaCDs; sofá sem encosto; e algumas prateleiras embutidas na parede, abarrotadas de cadernos nos quais guarda sua obra inédita. Trabalha cotidianamente. Olha para os manuscritos; calabouço de poesias cruas. Suspira. * * * Itamar Assumpção
nasceu em Tietê, em 1949. Sua carreira teve início em 1980, com o lançamento do independente Beleléu Leléu Eu, financiado pelo pessoal que assistia aos seus shows no Lira Paulistana, teatro que marcou uma geração. Ficava no subsolo da praça Benedito Calixto, onde hoje quem dá o ritmo é o choro, nas tardes de sábado que o povo da Vila Madalena reserva para celebrar nossa cultura envergonhada. Convivia com a morte desde que descobrira um câncer no intestino, em 1999. Foram quatro anos de batalha contra o corpo. Não gostava de falar nesse assunto. Dizia estar bem, e coisa e tal. Logo que se recuperou, pela derradeira vez, começou, em parceria com o percussionista Nana Vasconcelos, as gravações dos dois volumes restantes da trilogia Pretobrás - Por que que eu não pensei nisso antes?. Já no estúdio, Itamar e Nana se estranharam. Essa é uma versão. A outra é: depois de pronto o trabalho, os músicos não encontraram gravadora que topasse editá-lo. Isso teria potencializado a ira antigravadoras que Itamar manifestou nos meses que precederam a sua morte. * * *
* * * A tarde embriagada. Itamar acende o primeiro mesclado. A voz começa a se tornar mais inteligível; os sorrisos mais longos. As idéias circulam suspensas pelo quarto. - Isso aqui não é para amador. É para que já usou de tudo, e precisa manter um mínimo para continuar em paz. Se você quiser, eu bolo um fino para você. Itamar começou a usar maconha quanto contava 25 anos. Eram os anos 70: a década da liberdade fugidia, da estética perdida, do sexo-drogas-rock n'roll. Pega o violão. Começa a dedilhá-lo. Entre os discos que guarda, jazz, alguma coisa de reggae e muito samba de velha data. Uma porta liga o quarto em que compõe e ensaia à garagem. A rua está próxima, pedindo para ser escancarada: fugir, anônimo e anárquico, em busca de uma verdade mais sensata. Traga. Olha para o alto. Ensaia risada. Meia boca aberta, meia boca fechada. O sol estilhaça a parede do quarto e irrompe a íris de Itamar, que estica a mão para se proteger. * * * "Estou chegando agora. Estou aprendendo. Quando a minha geração surgiu, o pessoal ficou espantado, porque além de cantores e compositores, nós éramos também arranjadores. O Rogério Duprat até brincou comigo quando nos conhecemos dizendo que eu queria acabar com o emprego dele. É difícil fazer música no Brasil porque muita gente boa já fez antes". * * *
* * * Itamar era mestre e aprendiz de si mesmo. Em quase três décadas de carreira, escreveu obras de profunda inventividade. Diversas entre si. Entre elas, um disco tosco, praticamente sem produção: Às Próprias Custas S.A; uma tentativa de reduzir os impactos de recepção que suas obras provocam, única peça financiada por uma grande gravadora: Intercontinenal! Quem diria! Era só o que faltava...; e o inclassificável Para Sempre Agora, em homenagem a Ataulfo Alves. Era grande, mas não figurava entre eles. Não pertencia ao clube. Por isso, chamavam-no maldito. Era síntese, pela competência e criatividade, de Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Caetano Veloso, Walter Franco, Tom Zé - de quem foi parceiro -, Cartola, Clementina de Jesus, Jards Macalé... Musicou poemas de Paulo Leminski e Alice Ruiz - esposa do poeta paranaense -, e escreveu grandes poemas para cantar. Montou duas grandes bandas: Isca de Polícia e Orquídeas do Brasil. A segunda, só de meninas. Rita Lee, Ná Ozetti, Zélia Duncan, Cássia Eller, entre outras vozes, gravaram os versos e melodias de Itamar, mas era ele o melhor intérprete de si mesmo. Carregava o apelido Nego Dito, desde os tempos de Londrina, quando conheceu Arrigo e Paulo Barnabé. E mudou de vida. * * * "Não existe essa de vanguarda comigo não. Eu não posso ser avant-garde, eu sou preto, meus ancestrais são a Clementina (de Jesus), o Cartola, o Ataulfo (Alves). Agora, quando eu me junto com o Arrigo as coisas mudam, porque ele manja tudo e nós vamos misturar, porque é assim que funciona". * * * A tarde imóvel.
A casa parece maior. * * *
* * * A Penha não é mais a mesma. |
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