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Polícia não
entra
Após 18 anos de boa experiência
com a unidade masculina, foi inaugurada uma prisão feminina em
Minas Gerais que não permite guardas civis ou militares: são
os próprios presos que cuidam da segurança
Por André
Deak e Lígia Ximenes
EmCrise* 15/05/2002
Enquanto
desce as escadas e segue pelo corredor em direção ao quarto,
a mineira Eneida não consegue deixar de lado a desconfiança.
Tudo ali foi preparado para recebê-la: o chão bem limpo,
as paredes pintadas em verde-claro, o colchão novo e um espelhinho
no banheiro. Nenhum policial. Nenhuma arma. Atrás da ex-modelo
vêm as companheiras de cela Guilhermina, Eunice, Tânia e Cristina,
igualmente receosas: apesar de haver três celas, todas escolhem
ficar na mesma, juntas. No banheiro, o susto: "Olha! O vaso sanitário
é de cerâmica!". Se antes, no cadeião, havia
apenas um buraco com apoio para os pés, agora estão em outro
mundo. São as primeiras cinco mulheres a experimentar o sistema
penitenciário mantido pela Associação de Proteção
e Assistência aos Condenados (Apac) de Itaúna, em Minas Gerais,
mais conhecido nos arredores como "cadeia sem polícia".
"Estou adorando isso aqui", confidencia a ex-modelo Eneida,
mãe de cinco filhos, sentada em sua cama ao lado das companheiras.
Cristina, uma loira de voz mansa, a única delas que cumpre regime
aberto, lembra que "lá (na prisão comum) a gente tinha
que tomar banho preocupada em tapar com o dedo os buracos que faziam na
parede para nos olhar". E como estavam em uma cela comum, ficavam
em frente a outra, cheia de homens "mal-educados". Contam que,
certa vez, os presos chegaram a cavar um buraco na parede para entrar
em sua cela. Só foram embora quando descobriram que as duas belas
dançarinas que haviam sido presas já não estavam
mais lá.
As cinco foram transferidas para para Itaúna, que fica a 75 quilômetros
da capital Belo Horizonte, a toque de caixa. A mudança urgente
ocorreu depois que a cela em que estavam, na penitenciária comum,
foi destruída em uma rebelião de presidiários. Apesar
de escaparem sem ferimentos, tiveram, em conjunto, mais de dois mil reais
saqueados. "Nem por isso elas passam necessidade. Eu, que posso sair
durante o dia e voltar aqui só para dormir, sempre trago cigarros.
Compro xampu, esmalte, absorvente e batom com o meu dinheiro. Todo mundo
se ajuda porque passa por muita tristeza", diz Cristina.
"A bem dizer, a Apac feminina começou da mesma forma que a
masculina, fundada há 18 anos - foi uma rebelião que obrigou
o Estado a nos transferir seus presos", conta o presidente das duas
unidades, Valdecir Antônio Ferreira, um homem pequeno e magro com
uma enorme força de vontade. Quem confirma essa persistência
é Antônio Marcos, hoje diretor de formação
profissional das Apacs, mas que presidiu a instituição em
ocasiões que Valdecir esteve fora. Acompanhando desde o início
a implantação do método no município mineiro,
Antônio lembra das dificuldades que o grupo dedicado ao projeto
enfrentou: "No começo, íamos ao presídio dar
suporte para os presos e pregávamos a palavra de Deus passando
mensagens de fé e esperança. À noite, tudo o que
construíamos de dia desaparecia: os policiais entravam nas celas,
quebravam tudo e rasgavam as fotografias dos parentes. Causava ódio,
lógico."
As adversidades, no entanto, acabaram favorecendo os voluntários.
A construção onde está a unidade feminina foi feita
às pressas para resolver o problema de superlotação
do cadeião masculino, anos atrás. À época,
foram transferidos doze homens que deram início ao projeto. O número
atual de recuperandos e recuperandas, como são obrigatoriamente
chamados os que passam pela Apac, é de 110 pessoas.
Como funciona
A Apac foi criada em 1972 por um grupo de católicos liderados pelo
advogado Mário Ottoboni. Todos se dedicavam às atividades
de voluntariado desenvolvidas dentro do presídio de Humaitá,
na cidade paulista de São José dos Campos, e se debruçaram
sobre a criação de um modelo carcerário onde a violência
ficasse de fora. Experimentando e pesquisando, o grupo conseguiu criar
um método único de recuperação - não
existe igual no mundo. Para quem nunca ouviu falar na entidade, fica até
difícil acreditar que dentro da Apac as celas ficam abertas, as
chaves das portas nas mãos de recuperandos e o policial mais próximo
a quilômetros de distância. Todos dividem as tarefas de limpeza
e quem cozinha é um deles também. O cardápio, sempre
variado, inclui arroz, feijão, carne todo dia, salada, sobremesa
e refrigerante. São quatro refeições ao dia, todas
feitas com talheres de metal. As mulheres ainda dividem o espaço
com voluntários da Apac como Irma, estudante de administração
que, assim como muitos outros itaunenses, dedicam parte do seu dia a esse
projeto de recuperação social.
De acordo com dados da instituição, dos presos que passaram
pelo "método Apac", apenas 8,89% reincidem em algum crime.
Sem a aplicação do método, a reincidência chega
a 31,2%. O mais impressionante, entretanto, é que no regime semi-aberto,
quando o preso pode sair sem escolta policial para ir a um velório
ou a um médico, por exemplo, apenas em 17 das 921 saídas
houve fuga. E, mesmo assim, em 14 delas o preso arrependeu-se e voltou
para trás das grades, às vezes até trazido pela família.
Só três não voltaram. "Ainda", acrescenta
Valdecir, sorrindo. É como disse Rodrigo, recuperando do sistema
fechado: "Ninguém quer fugir do amor."
Cotidiano
Ao bater na porta de ferro para entrar na Apac feminina, quem abre é
um dos recuperandos da unidade masculina, destacado para vigiar quem entra
e sai. Passando por um pequeno pátio e descendo uma escada, cruzando
outra porta, há a sala de refeições. No chão,
um tapete felpudo serve de sofá a quem quiser ver televisão
- sempre depois que tiver cumprido com suas obrigações.
Ao lado, a cozinha onde a recuperanda Tânia prepara o almoço
e o jantar. Embaixo, descendo a escada, dois portões de ferro -
um só pode ser aberto se o outro está fechado - levam para
as celas. Outra das salas funciona como capela, onde está a imagem
de Nossa Senhora das Graças, padroeira dos presos. No meio de tudo,
um pátio descoberto onde está o varal no qual as roupas
lavadas são estendidas.
No sábado a noite preparam-se para o dia de visitas. Enquanto fazem
as unhas, animadas, contam algumas histórias. Cristina, mineira,
quando criança perdeu a mãe. Mudou-se para Itaúna
com treze anos. O pai a obrigava a se prostituir e, muitas vezes, esperava
pelo dinheiro dentro do quarto da boate. Tem medo da polícia e,
antes de procurar um psicólogo, chegou a tomar oito calmantes para
tentar curar a depressão. A filha mais velha, casada e mãe
de uma menina de oito meses, está na droga. Vendeu quase tudo no
apartamento que tem com o marido, que também é viciado.
A netinha, diz ela, já apanhou até de corrente. Eunice,
ex-moradora de rua, é a mais quieta de todas. Apesar de vestir
roupas puídas, mas limpas, pinta as unhas do pé em vermelho.
Tem vergonha de servir-se à mesa - nunca viu comida na panela suficiente
para que repetisse, pois sempre comeu o quanto coubesse num prato. Dá
para notar o prazer com que come. Eneida começou a traficar depois
que o marido morreu e ela, com cinco filhos para criar, descobriu que
o barraco em que morava tinha sido penhorado. "Sabia que era errado,
mas o que é que eu ia fazer?"
O método da Apac para lidar com quem cometeu algum crime - qualquer
crime - é sem dúvida eficiente. O modelo deu tão
certo que se expandiu por outras 100 cidades brasileiras e ganhou apoio
da Prison Fellowship International, integrada à Organização
das Nações Unidas. Graças ao reconhecimento, acabou
sendo levada para países como Equador, Argentina, Peru, Estados
Unidos, África do Sul, Nova Zelândia e Escócia. Há
quem diga que "direitos humanos são para os humanos que são
direitos". Valdecir e todos os outros voluntários do Apac
não pensam assim. Dessa maneira, já provaram que traficantes,
assaltantes, homicidas e ladrões, que antes trilhavam o caminho
da marginalidade, podem sim mudar os rumos de suas vidas.
*Publicado originalmente na revista
Sem Fronteiras.
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