A Verdade sobre a guerra

Por André Deak
EmCrise – 08/08/2003

LONDRES - Justiça seja feita: vez ou outra, um dos cinco canais de televisão da Inglaterra apresenta algo extraordinariamente bom. Zapeando entre os seriados enlatados e os tantos filmes de aventura norte-americanos sobre muçulmanos esquisitos e mau encarados que, estranhamente, começaram a passar durante a guerra do Iraque (Indiana Jones, Nova Iorque Sitiada e O Legionário, entre outros), no canal 4 aparece uma tela estática, avisando: "Este programa contém imagens fortes. É aconselhável retirar as crianças da sala e mudar de canal se você tem problemas cardíacos ou é demasiadamente sensível".

Alguns segundos depois, sem nenhum comentário, som ou explicação, aparecem pedaços de corpos humanos espalhados por uma estrada. Carros em chamas, com restos de pessoas queimando dentro. Um homem jogando uma mão e um pedaço de um pé dentro da caçamba de um pequeno caminhão, cheio de outras partes humanas. Uma criança com a cabeça esmagada e vazia como uma máscara de látex. Um soldado carbonizado, com as roupas derretidas coladas na pele. Crianças no hospital, gritando de dor enquanto tomam pontos sem anestesia. Pouco mais de uma semana depois da guerra ter oficialmente terminado, o horror invade as salas inglesas pela televisão.

"A Verdadeira Face da Guerra - A guerra que nunca vimos", é um raro e impressionante documentário sobre a guerra do Iraque, apresentado pelo âncora da BBC Jon Snow. Depois do conceito de "guerra limpa", ele explica, as pessoas têm a impressão de que as chamadas "armas inteligentes" acertam sempre e apenas destróem "alvos militares" (aqueles frios polígonos computadorizados que ficaram conhecidos na Guerra do Golfo).

A brutalidade da guerra está anos-luz distante daquilo em que os jornais querem que acreditemos. John Pilger, um renomado jornalista australiano, conta em seu mais recente livro (The New Rulers of the World, Ed. Verso, London, 2002) que "de fato, menos de 7% das armas utilizadas na operação Tempestade no Deserto [Iraque, 1991] eram 'inteligentes' (...). Setenta por cento das 88500 bombas jogadas no Iraque e Kuwait - o equivalente a sete Hiroshimas - erraram o alvo completamente, e muitas caíram em áreas povoadas. Foi dito que as bases de lançamento iraquianas de mísseis Scud foram 'nocauteadas'. Nenhuma foi destruída. Nada disso foi reportado naquele momento. Mentiram para os jornalistas e, aceitando essas mentiras, elas acabaram sendo passadas para o público."

No rodapé de um jornal inglês, pouco antes da guerra começar, contou-se como curiosidade que o governo dos Estados Unidos contratou por alguns milhões de dólares um diretor de Hollywood para controlar a produção de imagens que seriam divulgadas. A realidade, tratada como entretenimento, é bem mais interessante - e pode ser mostrada durante a janta sem perigo de azia. De fato, muitas cenas de combate mostradas nos telejornais pareciam tiradas do filme "O Resgate do Soldado Ryan", "rodadas em 35mm". As últimas guerras, e esta mais recente em particular, parecem cenas de ação de algum filme onde ninguém morre realmente. A guerra, quase fazem crer, é apenas de artifício.

Como cachorros

Mostrar cenas brutais de uma guerra, argumenta o âncora da BBC, não é fazer sensacionalismo - como afirmaram em quase unanimidade os editores de jornais norte-americanos. "É preciso que as pessoas saibam quais são as conseqüências de se apoiar uma guerra; que é o mesmo que apoiar o assassinato de milhares de crianças". O documentário segue então mostrando novamente as imagens da abertura, corpos espalhados por uma estrada em chamas. A história desse desastre, conforme conta um dos sobreviventes, é angustiante. Dezenas de pessoas fugiam, pela estrada, de um conflito que ocorria no centro da cidade. Do outro lado, indo para o centro, infelizmente, vinha um comboio de soldados norte-americanos. Vendo a multidão correndo em sua direção, assustaram-se e gritaram para parar. Como ninguém parou, mataram todos. Na tela, um homem com lágrimas nos olhos: "O soldado disse 'me desculpe'. Enquanto eu perco dois irmãos, ele diz 'me desculpe'".

Atirar primeiro e perguntar depois foi a regra obedecida pelos soldados dos EUA. John Simpson, o correspondente da BBC que foi pego no "fogo cruzado", num ataque no qual morreram cerca de dez pessoas, incluindo seu tradutor, é apenas o exemplo mais conhecido entre tantos "enganos" cometidos pelos soldados do Império. O documentário vai além: mostra imagens de um ônibus aproximando-se de uma barreira militar. Instantes depois, o veículo começa a ser perfurado por centenas de tiros. Pode-se ver que o motorista foi atingido várias vezes. O ônibus perde o controle e pára, já em chamas. Três pessoas, em pânico, saem de dentro. Mais dezenas de tiros. Um deles, mesmo baleado, ainda consegue correr um pouco mais e torna-se o único alvo; é alvejado várias vezes. Eram civis? Eram soldados? Não se sabe. Cometeram o crime capital de aproximar-se de uma barreira militar norte-americana. E essa história não é incomum. No mesmo dia em que morreram os irmãos de Saddam Hussein, soube-se que um carro foi destruído da mesma maneira, matando dois homens. Nenhum soldado preocupou-se em tentar descobrir a identidade dos ocupantes.

Luis Castro, um jornalista da televisão portuguesa, dá outro depoimento que ilustra a inteligência militar norte-americana. Ele e seu camera man viajavam por uma estrada no Iraque, até que um jipe norte-americano veio em direção contrária. Mandaram parar o carro e baixar a câmera, ordem obedecida imediatamente. Mandaram descer do carro, encostar o rosto no chão. Castro sentiu pesados coturnos em suas mãos, esmagando-as. Depois disso, enquanto um deles apoiava o joelho em suas costas, os outros o chutavam: "Talvez você queira mostrar nossa posição para o inimigo. Talvez você seja um espião". Foram presos. Dois dias depois, um comandante apareceu para soltá-los e explicou: "Tente entender, nossos homens são treinados como cachorros: só sabem atacar".

A guerra que nunca vimos

A imagem antológica da guerra, simbolizando o fim do conflito, foi a derrubada da estátua de Saddam Hussein pelas tropas americanas, comemorada com entusiasmo pela população. Outro ângulo da imagem, entretanto, mostra que não eram mais de 20 ou 15 os iraquianos que comemoravam a queda da estátua. Ao redor, dezenas de pessoas apenas observavam, quietas, paradas. O recurso de aumentar o número de pessoas em uma manifestação construindo imagens fechadas, é uma das primeiras lições aprendidas por qualquer camera men. Com a "queda de Saddam", a mídia e o mundo acreditaram que a guerra havia acabado. Mas os conflitos tinham mesmo terminado?, pergunta o apresentador.

A partir desse momento, o documentário só mostra imagens amadoras, uma vez que os jornalistas profissionais foram embora porque "a guerra havia acabado". No pátio de uma escola, cheio de escombros, algumas crianças jogam bola. A imagem tremida filma um artefato no chão, perto de onde a bola quicava, um pedaço de metal. As crianças não sabem, mas é uma cluster bomb.

Protótipos das cluster bombs já eram testadas no Vietnam, chamadas pellets bombs. Essas armas explodiam em centenas de fragmentos, muitos deles afiados como dardos. "Os dardos (...) continuavam a se mover pelo corpo durante muitos dias, causando danos internos que, normalmente, levavam a uma morte agonizante. Os dardos eram feitos de um tipo de plástico difícil de ser detectado pelo raio-X; os fabricantes, depois eu li, queriam exatamente isso", revela John Pilger em seu livro. Sessenta por cento das cluster bombs não explodem quando caem. "A forma mais comum de cluster bomb, conhecida nos EUA como Rockeyes, foi testada no Laos. Elas explodem em aproximadamente 160 bomblets, dos quais metade ou mais fica no chão até que um animal ou uma pessoa pise nelas, ou as pegue, como uma criança normalmente faz. Então elas explodem. Trinta anos depois elas continuam a matar um número estimado de 20 mil pessoas por ano no Laos, um pequeno país que nunca esteve em guerra com a América, que foi bombardeado como uma amostra do que poderia ser a destruição do Vietnam e do Camboja. Com sua longevidade letal, cluster bombs foram projetadas puramente para o terror, como uma arma 'anti-pessoas', para usar o termo militar." Em Bagdá, mesmo meses depois do bombardeio ter terminado, as cluster bombs continuam a encher hospitais.

A "guerra sem mortos", como os EUA fazem acreditar ser possível, nunca aconteceu. Mesmo do lado norte-americano, hoje já se sabe, morreram muito mais soldados do que divulgado pelo presidente George Bush. Em 1° de maio, quando a guerra havia oficialmente terminado, os dados apresentados eram de 52 mortos americanos. Até agora, entretanto, de acordo com o jornal londrino The Guardian, já morreram 248 soldados - e continuam morrendo mais a cada dia. Os feridos chegam a 827, pelo menos. O coronel responsável pelo transporte aéreo desses soldados, entretanto, diz que são mais de 1500. Semanas depois da guerra ter terminado, uma câmera amadora mostrava o centro de Bagdá sob fogo cerrado, as lojas todas fechadas. Um iraquiano, exultante, dizia:

- Eu vi três soldados americanos e os iraquianos mataram todos eles!

Saiba Mais:
Iraq Coalition Casualty Count (total de mortes na Guerra do Iraque)

BBC, Channel 4
A Verdadeira Face da Guerra
(The True Face of War)
Apresentado por Jon Snow