De volta a 1929

Por Daniel Merli
EmCrise – 22/08/2003

Grãos de café servindo de combustível para as fornalhas do trem. A cena surreal marcou, no Brasil, a crise mundial de superprodução agrícola e industrial iniciada em 1929, após o crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque. Quase um século depois, a cotação internacional do café volta ao nível dessa época, descontada a inflação do dólar no período.

O alerta foi feito pela organização não-governamental Oxfam (www.oxfam.org). ''A desregulamentação do mercado de café provocou um excesso de grãos que deve gerar uma crise no setor só comparável com a de 29'', afirma o relatório da ONG. Desta vez, segundo a Oxfam, há um agravante: quem mais sofre com o excesso de oferta do produto são 25 milhões de pequenos produtores, espalhados por alguns dos países mais pobres do mundo. Os casos mais grave estão na Áfica. No Burundi, pequeno país da região central do continente, 80% das exportações são cafeeira. Na Etiópia, 50% das vendas para o exterior são do produto. Isso significa que a principal fonte de dólares desses países é um produto em grave crise. É com o dinheiro obtido com a venda do café que esses países pagam sua dívida externa ou sustentam os programas de combate à AIDS. Também são atingidos, agricultores da América Central – principalmente da Honduras, Nicarágua e Guatemala.

Ainda segundo o relatório ''Pobreza na sua xícara'', da Oxfam, outro agravante da crise foi o aumento da produção de Brasil e Vietnã, dois grandes exportadores. O excesso de oferta reduziu muito o preço dos grãos.

A ''mão invisível'' tem dono

Enquanto os pequenos produtores amargam na miséria, as grandes empresas que controlam o mercado de café moído saboreiam gordos lucros. ''Há dez anos, os países exportadores recebiam um terço do preço final do produto. Hoje, ficam com menos de 10%. O agricultor fica com apenas 2%'', acusa a Oxfam. Já as quatro grandes torradoras de grão – Nestlé, Kraft, Procter & Gamble e Sara Lee – têm margens altíssimas de retorno. Cerca de 26% do preço final do Nescafé é lucro, segundo o relatório.

A crise de agora tem origem semelhante à do século passado: falta de regulamentação do mercado. Em 1962, o Acordo Internacional sobre o Café – que determinava minimamente o teto e o piso da cotação do produto – foi abandonado por Canadá e Estados Unidos, maior consumidor mundial da bebida. Regido pela lei simplista ''da oferta e da procura'', o setor acabou dominado pelo mais forte. ''Agora, quem impõe a cotação são as empresas que torram o grão e que estão totalmente alheias aos produtores'', reclama o primeiro-ministro do Togo, Messan Abbeyone.

Como alternativa, a Oxfam propõe um Plano de Resgate do Café, um projeto que, como a ONG mesmo sugere, poderia ser estendido para outros setores agrícolas. A proposta inclui – além da união dos países produtores para controlar a produção e forçar a elevação do preço – o financiamento de pequenos agricultores para que vendam o grão já beneficiado, o que aumentaria o seu ganho.

Fontes:

''Pobreza en tu taza'', da ONG Oxfam

''La crise du café'', de Sarah Cox, Alternatives