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A utopia real Somos realistas. Vivemos os últimos dez anos - e continuamos a viver - entre a ditadura do capitalismo cassino e a estética de resistência das bandas de rock. Ouvimos, nestas três décadas de avanço do neoliberalismo, as mesmas bocas que outrora reclamavam a revolução proferirem que não mais existem alternativas. Fomos, de certa forma, levados a acreditar em falsas verdades, no discurso sem réplica, no fim da história. A rebeldia, que move a humanidade a novas experiências, foi transformada em produto. Mas percebemos, a despeito de todo engano e manipulação, que existem outras formas de se organizar. E as redes, que se iniciam bambas, estruturam-se: o único torna-se plural. Somos jornalistas-guerrilheiros. Pretendemos descentralizar a comunicação e usá-la como arma. Sonhamos - este verbo ainda não foi abolido - em construir um outro processo de globalização. Porque, inspirados no exemplo dos camponeses e ambientalistas, dos meninos anarquistas que invadiram as ruas de Gênova e Seattle para defender seus ideais, dos trabalhadores e indígenas, dos gays, lésbicas e feministas que lutam pelo fim da hipocrisia, dessa tropa que anualmente viaja a Porto Alegre disposta a discutir novos rumos para a humanidade, almejamos dinamitar toda e qualquer forma de opressão. Somos criptojornalistas. Nos reunimos em alcovas, madrugada adentro, para discutir a fusão possível entre jornalismo e militância. Jovens mergulhadores, que ao explorarem os porões de nossa história em busca dos marginais que a redigiram, encontram-se unidos em nome do livre-pensar. Integramos um laboratório de idéias, no qual produzimos de forma coletiva, respeitando a diversidade e a individualidade, as diferenças e os paradoxos dialéticos do dia-a-dia. Colocando algumas idéias a partir de Marcos Faerman. Existe uma linguagem do poder e uma linguagem do antipoder. Nós estamos fazendo uma opção, que cremos ser o reto caminho para a liberdade. Somos utópicos. Não
queremos espaço no que se convencionou chamar grande imprensa.
Queremos o seu alcance e outros territórios, sobre os quais foram
construídos anéis de isolamento. Não queremos a objetividade
dos manuais que castram a criação, mas buscamos a subjetividade
necessária para compreender a realidade, na dimensão em
que ela se anuncie. Sendo assim, gritamos: não há uma verdade,
senão muitas - as verdades dos repórteres que, imbuídos
de perplexidade, buscam compreender a realidade. E para não parecermos
pueris, deixamos registrado: sabemos que nesse processo em que o caminho
é
"Aqui, precisamos tentar esclarecer o termo "crise", que se esvaziou pelo uso excessivo. Mas digamos, primeiro, que o emprego multiplicado da palavra "crise" (crise do progresso, crise da civilização, crise da adolescência, crise do casal, etc.) vem da própria multiplicação dos sintomas críticos... Ao primeiro olhar, a crise manifesta-se não só como fratura numa continuidade, perturbação num sistema até então aparentemente estável, mas também com o aumento das possibilidades e, portanto, das incertezas. Manifesta-se pela transformação das complementaridades em antagonismos, pelo desenvolvimento rápido dos desvios em tendências, pela aceleração de processos desestruturantes/desintegrantes (feedback positivos), pela quebra das regras, pela explosão, portanto, de processos descontrolados que tendem a se auto-amplificar por si mesmos ou a se chocar violentamente com outros processos antagônicos também descontrolados. (...) As duas idéias, uma de que a crise tornou-se o modo de ser das nossas sociedades, a outra de que o desenvolvimento comporta em si próprio um caráter de crise, devem ser associadas.Assim, no que diz respeito às sociedades ocidentais, a crise de civilização, a crise cultural, a crise dos valores, a crise da família, a crise do Estado, a crise da vida urbana, a crise da vida rural, etc., são outros tanto aspectos do ser (que passou a ser crítico) das nossas sociedade, que estão evidentemente ameaçadas pela crise mas também vivem da crise." O Coletivo Em Crise é
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