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Integração
na marra
Megaprojeto gestado no México,
o Plano Puebla-Panamá pretende levar desenvolvimento para a região
do Isto Americano e criar infra-estrutura para a adoção
da Alca
Por André
Deak e
Jorge Pereira Filho
EmCrise* 15/05/2002
Há milhares de anos os habitantes
da região conhecida hoje como Tehuantepec, no México, fazem
seus rituais sagrados no mesmo local. Bem ali, onde celebram seus deuses
pré-hispânicos, rogam por boas colheitas e agradecem por
tudo o que já têm, foi traçada uma linha invisível
pelo governo mexicano. Sobre essa linha, em breve, serão despejadas
toneladas de concreto e aço; passarão milhões de
volts de energia; serão gastos bilhões de dólares.
Ali chegarão, ainda este ano, as obras de um megaprojeto, tão
ambicioso quanto polêmico, chamado Plano Puebla-Panamá.
Na capital do Estado de Oaxaca, a cerca de 300 quilômetros a noroeste
dali, já estão prontos 15 quilômetros dessas estradas.
O projeto, assinado no ano passado por nove países da região,
pretende atravessar a fronteira mexicana em direção ao sul
e, em poucos anos, espalhar super-rodovias e antenas de transmissão
elétrica e telefônica até o Panamá, ou seja,
uma estrutura de quase 7500 quilômetros, a ser construída,
reconstruída e ampliada.
Nos dias 27 e 28 de junho, presidentes e representantes de todos os oito
países por onde o plano passa encontraram-se em Mérida,
estado mexicano de Yucatán, para apresentar as possibilidades de
investimentos do PPP, como é chamado, aos cerca de mil empresários
de 24 países, incluindo diretores de 780 empresas principalmente
norte-americanas. Logo depois da reunião, o presidente mexicano
Vicente Fox anunciava em seu programa semanal de rádio, "Fox
contigo", que o BID havia aprovado um linha de crédito de
US$ 4 bilhões para o Plano Puebla-Panamá. E acrescentava,
comemorando: a iniciativa mesoamericana "não é mais
um plano, agora é realidade".
O megaprojeto ambiciona integrar todos os nove estados da região
sul-sudeste do México, passar pela Guatemala, por El Salvador,
Belize, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, para, finalmente, terminar
no Panamá - região que, ao todo, é conhecida como
Istmo Americano. A idéia principal, afirma o governo do México,
onde surgiu, é facilitar o transporte viário de toda a região,
aumentando o comércio exterior entre todos os esses países
e entre cada um deles com os Estados Unidos, que já estão
conectados com a parte norte do México. Hoje, a velocidade média
dos caminhões de transporte de carga internacional nas principais
rodovias centro-americanas é de apenas 10 quilômetros por
hora, em parte por culpa das péssimas condições das
estradas, em parte por conta da grande burocracia que existe em cada um
dos lados de cada fronteira.
"O Plano Puebla Panamá tenta fazer um corredor num trecho
estratégico. Num futuro, seria a grande rodovia da Área
de Livre Comércio das Américas, a Alca", diz o professor
de geografia regional e política da Universidade de São
Paulo (USP), André Martin. Embora pouco industrializada, a América
Central é estratégica para se obter uma integração
econômica americana. "A região não tem mercado
consumidor muito grande, mas é importante. Primeiro, pelo Panamá
e seu canal. Depois, porque poucos países nas Américas têm
saída para o Pacífico e para o Atlântico como os da
América Central", afirma Stella Valdrighi, professora de comércio
exterior do Mackenzie.
A rodovia de 7500 quilômetros garantiria uma infra-estrutura mínima
para as mercadorias circularem do pólo sul ao norte do continente
americano. O professor da USP André Martin vê outros objetivos:
"suspeito também que o plano envolva uma estratégia
de cercar o Brasil. Se ligarmos essa estrada à rodovia Pan Americana,
que parte do Chile e sobe para a América Central pelos Andes, a
cena política fica concentrada mais para o Pacífico e para
o Norte".
Para a professora do Mackenzie Stella Valdrighi, o projeto seria uma forma
de incluir essas nações na Alca. "El Salvador, Guatemala
e Nicarágua, por exemplo, têm problemas estruturais nas suas
economias. Seria difícil inseri-los numa área de livre comércio.
Investindo em transporte, em energia, você coloca esses países
dentro da Alca. Além disso, você atrai investimentos, quanto
maior sua infra-estrutura, mais chances têm de captar recursos".
O mexicano Florencio Salazar, coordenador geral do Plano Puebla-Panamá,
explica que a integração será feita sobre três
grandes eixos: "Primeiro, a infra-estrutura, que é a construção
do sistema rodoviário, ferroviário e telefônico, além
da instalação de portos e aeroportos; segundo, estímulo
ao crescimento econômico da região; e terceiro, o desenvolvimento
sustentável, humano, que é a parte de educação
e saúde - mas não precisamos esperar terminar um eixo para
começar a trabalhar o outro".
Para tanto, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) estimou um
custo de aproximadamente US$ 4,2 bilhões, com empréstimos
que serão conseguidos, "na maior parte, com financiamentos
do próprio BID ou do Banco Mundial", conforme explica Marcelo
Antinori, funcionário brasileiro do BID responsável pelo
estudo do caso. Além das instituições bancárias,
dois outros pilares sustentarão o plano: a iniciativa privada e
setor público de cada país envolvido. Segundo esse modelo,
o coordenador mexicano pretende "consolidar a Mesoamérica
como receptora do capital privado". E acrescenta: "Queremos
ser pró-ativos na globalização". De acordo com
a análise de José Narro, deputado federal mexicano do Partido
dos Trabalhadores, isso é verdade: "Com Fox, a política
neo-liberal aprofundou-se. Através do plano, querem integrar toda
a América Central. Se a Alca for realmente assinada em 2003 e começar
em 2005, o Plano Puebla-Panamá está implantando a infra-estrutura
rodoviária para isso."
Antinori afirma que até agora foram arrecadados US$ 1,2 bilhões,
que estão servindo, em uma primeira fase, para a construção
de pontes e linhas de transmissão já erguidas em estados
como Oaxaca, nivelamento de caminhos por onde as estruturas passarão
ou - exemplo. O coordenador Florencio Salazar afirma que "a intenção
do projeto é levar bem-estar às regiões mais castigadas.
Se estamos interessados que as empresas gerem empregos, é necessário
criar uma infra-estrutura física para que venham". No sentido
de trazer empresas, ele explica que existe ainda "outro projeto,
chamado Marcha al Sur, que busca fomentar a pequena indústria.
Reconheço que não temos mão-de-obra qualificada,
mas podemos fazer cursos de especialização e melhorar a
educação". O Estado do México subvencionará
US$ 20 milhões para criar infra-estrutura de 92 maquiladoras que,
segundo o governo, criarão "37 mil empregos bem remunerados".
As maquiladoras são uma experiência que nasceu no lado latino
da fronteira do México com os Estados Unidos e disseminou-se pela
região nos últimos dez anos. Por um acordo entre governos
dos dois países, empresas mexicanas importavam componentes de indústrias
norte-americanas e, depois, exportavam o produto beneficiado de volta
para o vizinho. Recebiam isenções de diversos impostos.
Não respeitavam legislação trabalhista nem normas
ambientais. São definidas por um documento da Organização
Internacional do Trabalho (OIT) como "um sistema de produção,
em geral na forma de subcontratação, no qual se transformam
insumos intermediários e matérias-primas importadas, por
meio de processos de escasso valor agregado, cujos produtos finais se
comercializam no exterior".
A experiência das maquilas, como são chamadas, como alternativa
de industrialização, não é novidade na América
Central. Um acordo comercial chamado de Iniciativa para a Bacia do Caribe
(Iniciativa para a Cuenca Del Caribe - ICC) teve papel importante nesse
processo. Trata-se de um programa dos Estados Unidos com o objetivo de
promover o desenvolvimento econômico da região. Na prática,
foram estabelecidos benefícios comerciais para setores têxteis
de dez países da América Central: Belize, El Salvador, Guatemala,
Haiti, Jamaica, Panamá, Costa Rica, República Dominicana,
Honduras e Nicarágua. Dentre os requisitos exigidos pelo governo
norte-americano para compor essa seleta lista, estava o compromisso de
que a maquiladora importasse 75% da sua matéria-prima dos Estados
Unidos. Outros produtos, como calçados e alguns componentes eletrônicos,
também receberam o mesmo tratamento, o que explica, em parte, a
razão do plano mexicano para a América Central especificar
que pretende desenvolver, em particular, "a indústria dos
setores de vestidos, móveis, eletrônica e autopeças".
A produção das maquiladoras responde a praticamente 10%
do Produto Interno Bruto (PIB) da América Central e a um terço
das exportações totais, de acordo com um estudo de 2000,
da pesquisadora Anna Feillou, da ONG Setem. Mas de cada 100 dólares
exportados, apenas 25 dólares entram no país como divisa,
por causa da matéria-prima importada da matriz. A isso, soma-se
todo o custo que uma nação tem para manter uma zona franca
com inúmeros benefícios fiscais para essas empresas. Violação
da legislação trabalhista, repressão ou proibição
da organização sindical, horas-extras forçadas e
maus-tratos são algumas das condutas a que esses trabalhadores
estão submetidos. "As pessoas não têm escolha.
Não têm trabalho por aqui", diz Fausto Torres, diretor
da Associação dos Trabalhadores do Campo (ATC), da Nicarágua.
Além disso, as condições de trabalho são precárias.
Segundo estudo do Comitê Regional de Apoio Fronteiriço do
Trabalhador (Cafor), 76% dos empregados mexicanos de maquilas têm
dores pulmonares e 62% desenvolvem alergias e doenças de pele.
Antinori, do BID, diz não acreditar que esse tipo de empresa venha
para o México: "A única coisa que atrairia as maquiladoras
é a mão-de-obra barata - mas em comparação
com a mão de obra asiática, ainda é caro. E o desenvolvimento
que elas geram é até benéfico, por causa do emprego,
mas é pequeno: só gera emprego perto dos portos, de lugares
onde se possa escoar o produto". Sobre o medo de organizações
mexicanas de direitos humanos têm de que a mão-de-obra indígena
venha a ser explorada por esse tipo de empresas, Antinori diz isso não
vai ocorrer. "Os indígenas foram expulsos há séculos
dessas regiões [portuárias], estão na selva, não
serão prejudicados. É óbvio que ninguém vai
construir uma maquila na selva."
A selva de Chiapas - onde surgiu o Exército Zapatista em 1994 -,
estado do México incluído no Plano Puebla-Panamá,
é uma das regiões mais pobres do país. Crianças
ainda morrem de doenças como gripe e disenteria e, enquanto o estado
é o terceiro produtor nacional de energia elétrica, e o
primeiro em hidroenergia, só um terço das casas indígenas
têm luz. Mesmo juntando todos os estados mexicanos incluídos
no megaprojeto, há dois anos atrás ainda a principal fonte
de energia utilizada nas casas de 44% dos habitantes era a lenha. É
um recorte da parte mais pobre das Américas - o Istmo Americano.
Com mais de um milhão de quilômetros quadrados, a região
abriga 64 milhões de pessoas e tem um PIB conjunto estimado pelo
BID em US$ 143 bilhões - que é pequeno, se comparado com
o do Brasil, cerca de US$ 600 bilhões. Mais de 35% dos habitantes
vivem com menos de um dólar por dia. É aí que vai
atuar o projeto que, conforme diz, pretende "elevar o nível
de desenvolvimento humano e social da população".
Para outras pessoas, entretanto, essa não é a real intenção
do plano e seus efeitos não serão tão benéficos
quanto o governo mexicano proclama. Javier Balderas Castillo é
diretor do Centro de Direitos Humanos Tepeyac, de Tehuantepec, uma região
no México onde as estradas em direção ao Panamá
já estão sendo construídas. Ele afirma que "no
lugar de resolver os verdadeiros problemas, isso é como dar um
melhoral a um doente grave. O que essas construções farão
é estimular a expectativa de que vai haver trabalho, gerando imigração
e criando cinturões de miséria por onde o projeto passar."
André Martin, da USP, e Andrés Barreda, pesquisador da Universidade
Autônoma do México (UNAM), vão mais longe. Martin
afirma que "o Plano Puebla-Panamá nasce também por
conta de Chiapas. Fizeram a rodovia atravessando a região para
tentar desarticular o zapatismo". Barreda, em entrevista ao jornal
mexicano La Jornada, disse que os corredores do projeto "são
pensados como linhas que permitem explorar as matérias-primas da
região", além de utilizar o solo centro-americano como
depósito de lixo dos EUA, literalmente: "Desde 1990 se sabe
que os grandes lixões industriais dos Estados Unidos estão
saturados, (...) de tal forma que monitorar quantos lixões podem
ser implantados nos corredores é de importância estratégica
para o México". Começa-se, também, a organizar
redes de cooperação para estabelecer "planos de defesa"
contra o megaprojeto. Em exemplo é o encontro mexicano "Porque
o Povo é Primeiro: não ao PPP", que ocorrerá
em Manágua, no estado de Veracruz, de 16 a 18 de julho. Faz parte
das reuniões preparatórias para o terceiro fórum
mesoamericano "Frente ao PPP, pela integração popular",
organizado pelo Conselho Latino Americano de Organizações
do Campo.
Salazar diz que aqueles que estão contra o projeto "têm
recebido desinformação através de líderes
políticos", porque "não vai haver nenhum projeto
que não seja feito em conjunto com a população".
Segundo ele, a ordem do presidente Fox é "consultar as comunidades,
as organizações sociais e os grupos ambientais", já
que "não se trata de impor desenvolvimento". Na outra
ponta, Balderas discorda: "É mentira. O governo disse que
ia nos consultar, mas jamais o fez. E isso é justamente o que exigimos
que se faça". E o diretor da União de Comunidades Indígenas
da Zona Norte do Istmo (Ucizoni), Juan Carlos Beas, também concorda:
"Até agora, o plano não teve agenda social. E nem tem
como ter, porque não consultaram as comunidades, não sabem
o que precisa".
Antinori, do BID, reconhece as críticas sociais, mas argumenta:
"É verdade, mas entenda: esse é um projeto que tem
que ter a concordância de oito governos. É óbvio que
quando você fala em linhas de transmissão ou estradas é
mais fácil de conseguir acordos. Imagine agora um projeto de educação
intercultural que envolve pelo menos 30 nações indígenas,
onde tem que se definir cada detalhe e obter a concordância de todos.
Leva tempo, é uma loucura". Segundo ele, "a virtude do
plano é que a parte social pelo menos faz parte da agenda de integração,
diferente de outros projetos, como o Acordo de Livre Comércio da
América do Norte [Nafta], que nem tocava no assunto. Aí
você vê como quiser: o copo meio cheio ou meio vazio".
*Publicado
originalmente na revista Carta Capital, edição
17 de julho de 2002.
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