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As
mil faces de Havana
Como está a capital de Cuba depois dos 43 anos de comunismo
que Fidel impôs ao seu povo?
Por André
Deak
EmCrise 12/10/2002*
Havana, a capital cubana, é uma
cidade maravilhosa. Havana também é um horror. Quase todas
as opiniões sobre a ilha caribenha e sua capital encaixam-se em
um desses extremos. A revolução de Fidel Castro teria feito
bem ou mal aos cubanos? Qual seria o saldo de mais de 40 anos de comunismo
aplicado? Assim, cheio de dúvidas, desembarquei em Havana, no modesto
aeroporto José Martí. Durante o trajeto até o hotel,
um conforto estranho me acompanhava. A razão veio somente algum
tempo depois, como um estalo: não existe poluição
visual em Cuba. Nenhum outdoor de cerveja, nenhuma placa ou faixa, nenhum
muro com autocolantes ou nomes de políticos pintados. Às
vezes, sim, uma propaganda ideológica ecoa na paisagem: "Um
povo feito para vencer", "Educar, para não ter que reeducar"
ou "Cuba é o único país livre do FMI e dos Estados
Unidos!".
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No semáforo, um antigo Cadillac
rabo-de-peixe azul pára ao lado, com quase dez pessoas dentro.
Uma garota, apertada no banco da frente, provoca o motorista do
meu "táxi-importado-de-vidros-fechados-com-ar-condicionado":
"É isso que você chama de revolução,
camarada?"
A abertura ao turismo, apesar de trazer importantes dólares
para a ilha, está gerando um fenômeno novo em Cuba,
uma espécie de divisão de classes ao estilo capitalista.
Pelo país passaram quase dois milhões de turistas
só no ano passado. Aqueles que trabalham em contato direto
com esses viajantes, como por exemplo os taxistas, barmans e arrumadeiras
- que recebem gorjetas em dólares -, podem levar uma vida
melhor do que o cubano comum. Isso explica também porque
muitos tentam ganhar alguns dólares vendendo nas ruas os
famosos charutos da ilha, os "puros" (falsificados ou
não). Essa é uma das únicas formas de ganhar
alguns dólares. A prostituição é outra.
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Claramente, o socialismo que existe para
os turistas em Havana é completamente diferente para os cubanos.
Não falta nada - pagando-se em dólares - aos estrangeiros:
a internet pode ser encontrada no Capitólio (uma réplica
da Casa Branca) ou nos hotéis. Toda a cidade tem ótimos
restaurantes, principalmente no bairro de Chino (surgido de uma colônia
dos escravos chineses de Cuba, onde pode-se deliciar um sensacional camarão
na manteiga), e o melhor da música cubana está nas casas
noturnas de jazz.
Os paradoxos estão por todo lado. Por exemplo: Havana tem muitas
livrarias que até se tornaram locais turísticos tradicionais,
como a feira de livros na Plaza de Armas, no bairro conhecido como Havana
Vieja, margeada por prédios antigos. Por esse e outros motivos,
o analfabetismo da população não passa de 3,5%. Ainda
assim, não há abundância e variedade de leitura: a
maior parte dos livros trata de poesia, biografias de líderes comunistas
ou alguns volumes de Gabriel García Márques. Os dois jornais
diários que existem, o Granma e o Juventud Rebelde, são
do governo - e são claramente manipulados. "Para que saber
ler então?", pergunta-me a senhora que explica a situação
literária da cidade.
Ao contrário dos jovens, entretanto, a maioria dos idosos defende
Fidel. Talvez porque, como Samuel Basques, de 59 anos, lembrem-se dos
tempos anteriores à revolução. "Antes da chegada
do Jefe (como muitos chamam o "chefe" Fidel) eu vendia caramelos
nos semáforos. Ele me deu estudo, casa e trabalho decente. Os jovens
cubanos revoltam-se porque não podem viajar, tirar férias
ou comprar roupas novas e boa comida. Mas eles não sabem o que
é não ter comida", diz Basques.
Os cubanos
vivem num regime de ditadura militar - o que o turista, muitas vezes,
sequer percebe. Levam uma vida pobre, mas é difícil encontrar
gente triste. Já se disse que são muito parecidos com os
brasileiros, e é bem verdade: a comida típica, chamada "congri",
é uma mistura de arroz com feijão preto. Eles dançam
ao som de ritmos quentes, têm um gingado extremamente sensual, são
muito hospitaleiros e adoram um bom bate-papo regado à cerveja
ou rum, a cachaça deles.
Conversar com os cubanos é uma das melhores formas de absorver
sua cultura. Por isso, vale a pena convidá-los para um papo e lhes
pagar um "mojito", drinque feito com hortelã, rum e soda,
famoso porque Ernest Hemingway entornava vários deles no bar La
Bodeguita del Medio, que existe até hoje e é um ponto de
parada imperdível. Como eles veneram as novelas brasileiras - que
passam nos únicos dois canais que existem, ambos do governo - o
primeiro contato sempre é fácil: o que mais se ouve ao citar
seu país de origem é "Você é do Brasil?
Assisto muito ao Rei do Gado!". Aliás, eles tanto apreciam
nossas novelas, que elas até influenciaram o cotidiano local. Na
mesma época em que o folhetim "Vale Tudo" era transmitido
em Cuba, por exemplo, Fidel permitiu que as pessoas abrissem restaurantes
em suas casas. Como a personagem de Regina Duarte tinha um restaurante
que se chamava "Paladar" - que deu jeito na existência
da sofrida Raquel, desempenhada da atriz -, todo cubano deu o mesmo nome
ao seu negócio. Hoje, os famosos paladares, encontrados por toda
Havana, são ótimas opções para uma refeição
típica.
Entretanto,
para conhecer de fato os rituais dessa cidade latina fundada em 1511,
não se pode apenas comer e beber. A primeira noite deveria incluir,
por exemplo, o espetáculo ao ar livre conhecido como "cañonazo",
quando soldados usando roupas típicas do império espanhol
dão tiros de canhão próximos à Fortaleza Morro
Cabaña. Perto dali, não se pode deixar de ir também
ao famoso bar La Zorra y el Cuervo, onde o legítimo jazz cubano
se encontra - à moda do melhor Buena Vista Social Club.
Conhecer Havana a pé é a melhor escolha, optando pelos taxis
antigos - chamados máquinas - quando for o caso. E uma caminhada
pelo Malecón certamente pode dizer muito mais do que qualquer guia
turístico. O Malecón é uma antiga avenida que contorna
toda a cidade velha, margeando a praia por oito quilômetros. É
lá que os habitantes vão para se divertir mergulhando no
mar ou apenas tomar sol. Em alguns pontos, ainda, as ondas invadem a rua
banhando os carros que passam e as crianças que brincam na calçada.
A explicação dessa construção estar tão
perto do mar é que em 1901 havia uma epidemia de dengue na cidade,
causada pela água que ficava parada entre as rochas - problema
que terminou assim que a avenida ficou pronta.
Vale entrar também no conhecido memorial José Marti, um
mirante que fica na praça da Revolução, local onde
começam as festas e os principais discursos homéricos de
Fidel Castro - e onde fica aquele ministério que por muitos anos
ostentou uma bandeira com o rosto do Che Guevara, hoje substituída
por uma face estilizada do guerrilheiro. Por dois dólares pode-se
ter uma vista impagável do mar do Caribe e uma boa noção
do tamanho da cidade. Outra construção majestosa da ilha
é o Capitólio, uma réplica do Casa Branca de 92 metros
de altura que levou 19 anos para ser terminada (1910-1929). Feito durante
o período em que os Estados Unidos podiam intervir na ilha através
da Emenda Platt (e que levou o ditador Fulgêncio Batista ao poder),
hoje é um museu de ciências naturais. E quem se interessa
por arquitetura tem que ver também a Quinta Avenida, conhecida
como Avenida das Américas. Ostentava nada menos que 12 grandes
cassinos - todos fechados pela revolução.
Mas nem tudo
são flores ou programas divertidos em Havana. Para controlar possíveis
"contra-revolucionários", foram criados em 1960 Comitês
de Defesa da Revolução, os CDRs. Em todo bairro há
um CDR, onde vizinhos são responsáveis por vigiarem-se uns
aos outros, além de organizar campanhas de vacinação,
limpeza das ruas e outras atividades. Assim, todos na cidade vivem, de
certa forma, em um esquema de liberdade assistida. O que explica, por
outro lado, o baixíssimo índice local de violência:
um brasileiro que estuda medicina em Havana garante que os casos mais
graves que aparecem em seu plantão são "brigas de faca
por causa de mulher".
Outro exemplo do estilo de vida "meio vigiada" que se leva em
Havana é o caso de Dariel Morejon. O rapaz é formado em
engenharia civil, mas por ali é o governo que decide quem trabalha
em qual área. Assim, quando chegou a vez de Dariel buscar um emprego,
sobravam engenheiros civis e faltavam arquitetos, e ele foi encaminhado
para a área de Arquitetura. Dariel, entretanto, preferiu trabalhar
como barman. "Se é para fazer algo que não gosto, pelo
menos no bar eu ganho dólares", diz. Enquanto conversávamos,
ele quis saber o que eu fazia no Brasil. Respondi que sou jornalista,
pois me formei em jornalismo. "Está vendo? Eu preferia até
pagar uma faculdade para poder trabalhar na minha área."
O caso de Dariel é emblemático porque sintetiza um pensamento
geral entre a juventude. Como conhecem apenas turistas - normalmente do
primeiro mundo e com dinheiro -, pensam que o mundo capitalista constitui-se
apenas de tipos assim e desconhecem, por exemplo, que no Brasil a maioria
da população não tem dinheiro para fazer curso superior
- e quase um terço da nação passa fome.
Mas não espere que esse caso ajude a resolver todas as dúvidas
sobre a vida que leva o povo tão alegre e dançante da capital
cubana. Eu mesmo me confundi a cada minuto: cada vez que encontrei uma
resposta, surgiram duas ou três perguntas diferentes, mais profundas
e difíceis de responder. Para conhecer a cidade, talvez uma semana
seja o bastante. Para entendê-la, talvez um ano seja insuficiente.
O melhor mesmo é observar Havana de perto e decidir em qual dos
extremos você se encaixa - ou seguir, como eu, perplexo.
*A matéria
original foi publicada na revista Horizonte
Geográfico, dez/2002.
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