Argentina e a repressão global

Por André Deak

Buenos Aires, 26 de janeiro de 2002 - A polícia e os militares de Seatle, Gênova, São Paulo e Buenos Aires devem ter lido a mesma cartilha que ensina a lidar com manifestações populares, sejam quais forem as reivindicações: gás lacrimogênio, cassetetes e tiros. Foi assim que, na madrugada do dia 26, a polícia argentina tratou a classe média que protestava contra o governo e contra a violência policial que já havia matado 34 pessoas poucos dias antes.

Depois de cinco horas de panelaço pacífico em todo o país, depois da meia noite, policiais de motocicleta passaram atirando bombas de gás e balas de borracha nas centenas de pessoas que se refugiavam da chuva em uma marquise na Praça de Maio. Parecia que o objetivo era simplesmente causar pânico, já que nada estava sendo depredado e a não-violência foi também a grande reivindicação dos manifestantes.

Quando algumas pessoas revidaram atirando pedras nos policiais, a repressão ficou ainda mais intensa. Enquanto um carro blindado perseguia manifestantes, mais de dez motocicletas atiravam mais gás e mais balas de borracha nos que ainda estavam na praça.

No dia 26 de janeiro, a classe média argentina tomou as ruas de Buenos Aires. Na imagem, a interdição da ponte que dá acesso ao sul da cidade (crédito: André Deak).

Famílias corriam desesperadas, pais, filhos e avós, fugindo da repressão desnecessária. O estudante Pablo Boido explicou, horas antes do ocorrido, que "normalmente os policiais aparecem de madrugada, porque o governo tem medo de que as pessoas fiquem até de manhã, e junte mais e mais gente, até que fique insustentável - como aconteceu com o De La Rúa".

Mesmo depois que as pessoas deixaram a praça, fugindo dos gases que queimavam os olhos, a garganta e a pele, mais bombas foram lançadas sobre as pessoas que caminhavam para casa - e, de novo, sem motivo. Stella, que presenciou as cenas de repressão, afirmou que "não eram gases para dispersar ou para dissuadir, eram gases simplesmente atirados por ódio. Nunca vi nem vivi algo igual. Jamais vi tal quantidade de policiais e de militares, sem contar os que estavam sem uniforme, junto com as pessoas, tentando provocar, que eram isolados por vizinhos e vizinhas".