De volta a La Realidad: Uma expedição a Chiapas

Nós, os zapatistas, queremos tudo para todos, para nós nada. Todos os que com arma ou sem arma, com rosto ou sem rosto, indígena ou não indígena tomam para si o nosso sonho de um país melhor, são zapatistas. (Subcomandante Marcos)

Por André Deak e Sérgio Cardoso

Em Crise, 20 de fevereiro de 2001 - Foi num domingo nublado que subimos em um caminhão pouco maior que uma pick-up, que em outros dias já deve ter transportado gado, e agora levava pessoas para dentro da selva Lacandona, no sul do México, para as aldeias indígenas que ficam dentro do território onde está o Exército Zapatista de Libertação Nacional. Uma dessas aldeias, La Realidad, era o nosso destino.

Em 1994 o México e o mundo conheceram o Exército Zapatista de Libertação Nacional, o EZLN. No dia 1º de janeiro daquele ano os índios desceram as montanhas do estado de Chiapas com o rosto coberto por capuzes de alpinistas - os passa-montanhas -, declararam guerra ao exército federal e tomaram quatro cidades, inclusive San Cristóbal de Las Casas, de 70 mil habitantes - a segunda maior cidade do estado. Doze dias depois, uma manifestação no Distrito Federal com mais de cem mil pessoas saiu às ruas para apoiar o EZLN, fato que obrigou o então presidente Carlos Salinas de Gortari a declarar o cessar-fogo. Assim foi o início da última grande revolução do século, coincidentemente no mesmo país onde ocorreu a primeira, a de Emiliano Zapata, em 1910.

Como na luta que Zapata travou quase cem anos antes, os índios do EZLN também querem terra para plantar. A revolução de 1910 conquistou para os índios o ejido, que é uma propriedade que não pode ser vendida ou tomada, e sua posse é hereditária. Essa era a única garantia que os indígenas tinham para plantar e sobreviver. O fim do ejido foi uma das imposições dos EUA para que o México fizesse parte do Nafta, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte. Além de estarem no meio de gigantescos latifúndios, os ejidos deram o azar de ter petróleo sob seus solos. Sem a proteção do ejido, os bancos podem comprar a preços baixíssimos a terra de Chiapas. Não foi à toa que a revolta explodiu no dia em que o Nafta entrou em vigor. Mas a revolta do EZLN vai muito além da luta pela terra. O novo zapatismo luta por dignidade, ou como eles mesmos dizem, por "nunca más un México sin nosotros".

Enquanto o México se desenvolveu, a região indígena de Chiapas continuou parada no século XIX. As crianças ainda morrem de doenças como gripe e disenteria. Enquanto o estado tem sete quartos de hotel para cada habitante, tem apenas 0,4 leitos de hospital para a mesma quantidade. Outro fato: enquanto Chiapas é o terceiro produtor nacional de energia elétrica, e o primeiro em hidroenergia, só um terço das casas indígenas tem luz e a maioria não tem nem mesmo um lampião a gás. A cada 35 minutos, morre uma pessoa de fome. De cada 100 moradores, 54 são desnutridos. Por incrível que seja, esses números não são erros de digitação. Foram décadas - senão séculos - de exploração e esquecimento. O México tem orgulho do seu passado indígena maia e asteca, mas esqueceu de que seus descendentes mais próximos estão vivos, e deixou-os à margem do desenvolvimento. Um trecho do livro "México em Transe" do jornalista Igor Fuser, publicado em 96, ilustra bem a situação indígena: "Até a eclosão da guerrilha em Chiapas, os índios eram obrigados a ceder o lugar no ônibus aos brancos ou mestiços. Nas calçadas estreitas de San Cristóbal, eles tinham de baixar para o meio da rua sempre que um coleto (como as pessoas de classe média mestiça de San Cristóbal são conhecidas) cruzava seu caminho. Eram (ou são) menos do que um negro no sul dos Estados Unidos antes de Martin Luther King, menos do que um operário nordestino nas alamedas perfumadas dos Jardins, o reduto da elite paulistana." Foi por isso que houve o levante armado de Chiapas em 1994. Por isso querem que o México nunca mais se esqueça deles.

Em 1998 o fotógrafo Sergio Cardoso - companheiro desta aventura - já havia visitado La Realidad e não havia sido fácil. Foi parado cinco vezes pelos militares, obrigado a mostrar todos os seus pertences numa destas revistas e interrogado. "Você sabe que está em um zona de conflito? O que faz aqui? São periodistas (jornalistas)?", perguntavam os soldados em vigília para ele e para a repórter que o acompanhava. Agora, os jornais do mundo noticiam que o México está mudando. O governo do presidente Vicente Fox, que assumiu em dezembro do ano passado, diz-se mais democrático. Completamente diferente do governo ditatorial do PRI, partido que esteve no poder por 72 anos, cujo último presidente, Ernesto Zedillo, só fez piorar a situação em Chiapas. Se havia melhorado ou não, era justamente isso que queríamos confirmar.

Para se chegar à aldeia indígena La Realidad tem-se que viajar quatro horas e meia por uma estrada completamente esburacada. Hoje está melhor: antes do EZLN surgir, não havia caminhões - o percurso era feito a pé -, e se levava quatro dias para chegar à cidade e ao hospital mais próximo. Os índios iam ao hospital doentes e morriam pelo caminho. Hoje, se você não estiver de carro, como é o caso dos indígenas, irá num desses furgões acoplados com uma caçamba, que mal podem ser chamados de caminhões, mas que transportam até 22 pessoas de pé. Uma dessas, na ocasião em que viajamos, foi pendurada do lado de fora - não cabia mais ninguém dentro.

Durante a viagem ainda se pode ver soldados em seus acampamentos e, o mais impressionante, a aldeia abandonada de Guadalupe Tepeyac. Mas não é correto dizer que ela está completamente abandonada; lá está instalado o maior quartel do exército mexicano em Chiapas. Poucas horas antes dos soldados chegarem, em fevereiro de 1995, a população indígena que morava ali fugiu para a floresta com ajuda do EZLN, com medo. O medo pode ser explicado pelo caso de Acteal, outra comunidade indígena de Chiapas, que aconteceu em 1997: os paramilitares, capangas fardados contratados pelos latifundiários, chegaram e atiraram em homens, mulheres e crianças, matando 45 pessoas. Isso talvez só não tenha acontecido em 1995 em Guadalupe Tepeyac porque os índios fugiram para a selva Lacandona. Guadalupe mostra hoje uma dúzia de casas invadidas por mato, ao lado de um quartel típico de qualquer filme de guerra: arame farpado nos muros, torres de vigia, jipes e soldados se movimentando lá dentro. Em 98, quando o fotógrafo Sergio Cardoso esteve lá, haviam cinco tanques de guerra atravessados na estrada, e foi lá que o revistaram da maneira mais minuciosa de todas. Hoje não há mais revistas, mas os soldados não parecem estar se preparando para ir embora. Aliás, no estado de Chiapas, ainda hoje, está um terço do total efetivo do exército mexicano. Num comunicado de novembro de 99, o EZLN informa que "de acordo com os números oficiais, são 30 mil os elementos do Exército Mexicano que encontram-se destacados para Chiapas. Cálculos não oficiais garantem que são cerca de 70 mil". Um terço do efetivo militar mexicano. Sendo assim, há aproximadamente um soldado para cada família chiapaneca, ao mesmo tempo em que há um médico para cada 18 mil habitantes naquela região.

Chegando na aldeia de La Realidad, Bernard, um índio forte de cabelos negros bem escuros, como todos os homens dali, vem nos receber. O procedimento de quem chega é entregar uma carta de recomendação a Bernard, que a leva para que seu superior leia e aprove ou não a estadia dos viajantes. Nós não tínhamos uma carta de recomendação. Entregamos então uma carta escrita por nós mesmos explicando que o Sérgio já havia feito uma matéria para a Caros Amigos sobre Chiapas em 98 (e que saiu na edição número 22 da revista), e que agora queríamos fazer uma matéria sobre as mudanças ocorridas de 98 até hoje. Mal sabíamos o que nos esperava.

Bernard voltou com a aprovação de seu superior e levou-nos até um galpão onde seria nosso hotel. O galpão estava servindo de igreja provisória para os indígenas, porque estavam construindo uma nova igreja, de tijolos, para substituir a antiga, de madeira. Por isso pudemos usar de cama os bancos de madeira, alguns deles apenas tábuas sobre tijolos. Por nossa sorte zelava Nossa Senhora de Guadalupe, a santa mais importante do México, que estava num altar improvisado numa das paredes do galpão.

Começava ali a espera. Até ter a aprovação, não se pode entrevistar qualquer pessoa nem tirar fotos de quase ninguém. Só de crianças e de paisagens. Isso acontece para proteger os indígenas; não é bom mostrar pessoas que apoiam os zapatistas nos jornais. Fotos de homem, só se estiver de passa-montanha ou de lenço nos rosto, como os bandidos do velho-oeste.

Finalmente, depois de dois dias, soubemos que poderíamos entrevistar o comandante Tacho. Além das nossas expectativas, outra chance surgiu: o subcomandante Marcos estava em La Realidad, para dar entrevista a uma televisão mexicana. O fotógrafo Sergio Cardoso conseguiu ir junto como se fosse o fotógrafo da equipe de reportagem mexicana e conseguiu uma entrevista exclusiva para o Brasil. Como sempre, Marcos estava fumando seu famoso cachimbo e usando walkie-talkie, no melhor estilo "guerrilheiro tecnológico", como muitos gostam de chamá-lo. Acompanhado do comandante Tacho e do Major Moysés, ambos armados, Marcos falou conosco.

- Qual é a sua opinião sobre a situação na América do Sul, principalmente no Brasil?

Subcomandante Marcos - Na questão indígena pensamos que os povos índios da América também estão lutando e merecem o lugar que lhes corresponde. Brasil, Nicarágua, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia não podem dizer que são países democráticos se continuam tratando seus povos indígenas marginalizados. Tudo isso que está surgindo, o MST no Brasil, o Movimento dos Indígenas do Equador, são sintomas que vão continuar existindo até que os grandes centros de poder reconheçam a existência dessas pessoas como o que são, e até que reconheçam todos os seus direitos e todas as suas lutas como justas.

- Vocês tem contato com o MST?

- Sim, existe um contato de solidariedade conosco e existe intercâmbio com organizações brasileiras que aconteceram no Segundo Encontro Continental. Foram companheiros até lá e o encontro foi organizado, entre muitos outros, pelo MST. Respeitamos suas raízes profundamente populares e sociais em suas demandas e sempre houve uma relação de respeito recíproco.

- Conhece o PT?

- Sabemos que o PT também demonstra solidariedade e interesse com nossa causa e temos uma relação, mínima, por cartas. Até agora não houve maior contato.

- Que músicos brasileiros você conhece?

Caetano Veloso e Chico Buarque. Fundamentalmente esses dois. E o mais conhecido, claro, Roberto Carlos.

- E qual é seu livro de cabeceira?

Don Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes.