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Empatia
Alguém já disse que a Natureza teria mais defensores se as árvores gritassem e os bichos falassem. A flora e a fauna sofrem tanto nas mãos dos homens porque não têm nenhum poder de argumentação, e quem poderia falar por elas, o papagaio, até hoje não deu qualquer sinal de querer se comprometer. Nos falta empatia com as plantas e os animais, por isso os tratamos assim. A tragédia do World Trade Center foi mais trágica porque podíamos nos identificar com aquelas pessoas. Podíamos imaginar o seu desespero, obrigadas a escolher entre morrerem queimadas ou pularem, e imaginar o que faríamos na mesma situação, pois compartilhamos com elas a mesma civilização de arranha-céus. Depois surgiram os relatos pungentes de contatos entre pessoas prestes a morrer nas torres e suas famílias, o último adeus, o drama personalizado pelo celular, a empatia tornada ainda mais dolorosa, pois eram vidas tão comoventemente banais quanto as nossas. Felizmente, morreu menos gente do que o previsto nas primeiras estimativas. Ainda estão desenterrando corpos, mas já se sabe o nome e a história de quase todas as vítimas dos atentados de 11 de setembro. Falando numa cerimônia pelos mortos, o presidente Bush disse que cada um deles era a pessoa mais importante do mundo para alguém. Cada um dos mortos nos bombardeios americanos do Afeganistão também deve ter sido a pessoa mais importante do mundo para alguém. Não se sabe ainda nem aproximadamente quantos foram, mesmo porque os bombardeios continuam. Nunca se saberá nome ou biografia de nenhum deles, todos têm o nome coletivo de Estrago Colateral, e o único dado importante das suas vidas é o que compartilham com os mortos de 11/9: estavam no lugar errado na hora errada. No mais, não eram gente como a gente. Tinham hábitos esquisitos, não podemos sequer imaginar o que tomavam no café da manhã, quanto mais invocar qualquer tipo de empatia com suas vidas estranhas. É como se fossem árvores ou bichos: mesmo se os ouvíssemos, de tão longe, não entenderíamos nada. Empatia é o nome da capacidade de sentir o que os outros sentem. Não sei que nome tem o hábito de achar que só os nossos são gente, e o resto é paisagem. |