Nota do Autor

Por Gay Talese
Do livro Fame and Obscurity ("Aos Olhos da Multidão", Ed. Expressão e Cultura, 1973)*

Agradeço ao meu editor, Robert A. Gutwillig, por ter compilado esta seleção. A maioria das escolhas é representativa de uma forma de reportagem que recebe hoje em dia o nome de "novo jornalismo", "não-ficção" ou "parajornalismo", sendo a última uma descrição derrogatória criada pelo crítico Dwight Macdonald, que se mostra meio desconfiado da forma, achando, como acontece a outros, que aqueles que a praticam comprometem os fatos no interesse de uma narrativa mais dramática. Eu discordo.

O novo jornalismo, embora possa ser lido como ficção, não é ficção. É, ou deveria ser, tão verídico como a mais exata das reportagens, buscando embora uma verdade mais ampla que a possível através da mera compilação de fatos comprováveis, o uso de citações diretas, a alusão ao rígido estilo mais antigo. O novo jornalismo permite, na verdade exige, uma abordagem mais imaginativa da reportagem e consente que o escritor se intrometa na narrativa se o desejar, conforme acontece com freqüência, ou que assuma o papel de observador imparcial, como fazem outros, eu inclusive.

Procuro seguir discretamente o objeto de minhas reportagens, observando-o em situações reveladoras, anotando suas reações e as reações dos outros a eles. Tento absorver todo o cenário, o diálogo, a atmosfera, a tensão, o drama, o conflito e então escrevo tudo do ponto de vista de quem estou focalizando, revelando inclusive, sempre que possível, o que os indivíduos pensam nos momentos que descrevo. Esta visão interior só pode ser obtida, naturalmente, com a plena cooperação do sujeito, mas se o escritor goza da confiança daqueles que focaliza, isto se torna viável por meio de entrevistas, onde a pergunta certa é feita no momento exato. É assim possível saber e registrar o que se passa na mente das pessoas.

Utilizei-me amplamente do estilo no livro que publiquei no ano passado, The Kingdom and the Power (O Reino e o Poder, Cia. das Letras, 2000) e espero continuar a utilizar-me na obra que escrevo no momento, um estudo da tradição e das alterações sofridas por três gerações sucessivas de uma família ítalo-americana entre 1900 e 1970. Contudo, nesta coleção, Aos Olhos da Multidão, não realizo tudo o que sugiro possível em não-ficção, porque a maioria das seleções aqui incluídas foram escritas originalmente para revistas e produzidas num período variando entre quatro e oito semanas. Uma exceção é o perfil de DiMaggio, que levou cerca de dez semanas; a outra é o de Sinatra, que levou quase três meses (nenhum dos dois cooperou muito, embora eu creia que, em análise final, isto tenha sido mais uma ajuda que um obstáculo); a terceira exceção é o retrato dos construtores de pontes, publicado esporadicamente durante vários meses - tempo mais curto do que eu consideraria aceitável hoje em dia, sobretudo porque uma das minhas ambições é permanecer junto das pessoas focalizadas o bastante para testemunhar alguma alteração em sua vida. Para estabelecer uma comparação, passei três anos pesquisando e escrevendo The Kingdom and the Power, uma história humana do New York Times, onde trabalhei há tempos; e para escrever sobre a família ítalo-americana venho pesquisando, a intervalos, há seis anos.

Contudo, Aos Olhos da Multidão inclui parte do que melhor escrevi na década de sessenta, representando um desvio do "antigo" jornalismo que eu praticara no Times para uma abordagem mais livre, que a revista Esquire permitia e encorajava sob a editoria de Harold Hayes. Minha primeira colaboração para Esquire, em 1960, foi um ensaio a respeito a obscuridade na cidade de Nova York, uma série de perfis de pessoas que passam despercebidas, acontecimentos estranhos e bizarros que me atraíram a atenção em minhas andanças pela cidade como jornalista. Foi este o início do que mais tarde se tornou o livro publicado por Harper & Row e intitulado Nova York (Viagem de um descobridor). Relendo hoje a obra na parte final de Aos Olhos da Multidão, considero-a como Nova York vista por um rapaz, contemplada com uma espécie de admiração e respeito, mas também com a compreensão do quanto pode ser destrutiva a cidade, do quanto promete para além do que realiza e de como E. B. White estava certo ao escrever há muitos anos: "Ninguém deveria vir morar em Nova York, a menos que queira ser um sujeito de sorte". Em Viagem de um descobridor esboçam-se também os primeiros sinais de meu interesse pelo uso das técnicas de ficção, uma aspiração a levar, de certo modo, à reportagem o tom que Irvin Shaw e John O´Hara haviam levado ao conto. Mas não fui muito longe em Viagem de um descobridor, confiando mais na seleção do meu material do que no estilo para refletir as luzes e as sombras que sinto com tanta intensidade em Nova York.

Após este começo hesitante, minha primeira tentativa no que poderia ser chamado "novo jornalismo" teve início com alguns perfis de gente famosa, realizados para Esquire. Na matéria sobre Joe Louis, por exemplo, o artigo inicia com Louis cansado de três dias e três noites de farra em Nova York, chegando ao aeroporto de Los Angeles e sendo recebido por sua mulher, uma advogada - cena que poderia transformar-se numa situação de conto; mais adiante, no mesmo artigo, o estilo recai para a reportagem direta, indicando a minha incerteza quanto à forma, àquela altura; mais adiante ainda, a abordagem estabelece novamente cenário e diálogo, afastando-se da rígida reportagem.

Enquanto pesquisava a matéria de Frank Sinatra, aconteceu-me estar no lugar certo na hora correta: na noite em que Frank Sinatra protestou contra a maneira de vestir de um rapaz que jogava bilhar na Daisy Discotheque, em Beverly Hills, eu me achava próximo ao bar, na sala contígua. Embora não tenha assistido à troca de palavras inicial entre Sinatra e o rapaz, cheguei a tempo para ouvir quase tudo o que se seguiu; mais tarde, com a cooperação de testemunhas que assistiram a tudo, consegui restituir a cena.

Conforme notara anteriormente, Sinatra não se mostrou muito cooperativo durante minha estada em Beverly Hills. Eu chegara numa época desagradável para ele, com a cabeça atacada por um forte resfriado, entre outras irritações, e não consegui a entrevista que esperava. Contudo, observei-o periodicamente durante as seis semanas que passei pesquisando, vendo-o gravar, observando-o num cenário de cinema, nas mesas de jogo de Las Vegas, percebendo-lhe a alteração de humor, a irritação e a desconfiança quando achava que eu estava me aproximando demais, seu prazer, cortesia e encanto quando relaxava entre as pessoas em quem confiava. Ganhei mais observando-o e ouvindo-o à distância do que se houvesse conseguido sentar-me ao seu lado e conversar com ele.

Joe DiMaggio mostrou-se ainda mais relutante quando iniciei a pesquisa sobre ele em São Francisco. Havíamos sido apresentados seis meses antes em Nova York, ocasião em que dera sinais de que cooperaria no artigo; mas teve atitude radicalmente diversa quando surgi no seu restaurante no Cais dos Pescadores. No entanto, a recepção tensa e glacial que recebi de início proporcionou-me uma interessante cena de abertura, na qual fui não só testemunha como participante, tendo sido expulso do local pelo próprio DiMaggio. O fato de conseguir reencontrar-me com ele alguns dias após foi resultado do pedido feito por intermédio de um dos amigos e companheiros de golfe de DiMaggio, no sentido de que eu acompanhasse o grupo numa partida de dezoito buracos. No decorrer da partida, DiMaggio, que detesta perder bolas, perdeu três. Eu as encontrei. Depois disso, sua atitude em relação a mim melhorou visivelmente; fui convidado a outras partidas e a reunir-me a ele à noite, com seus amigos, no Bar do Erno, onde foi realizada grande parte do meu trabalho.

À exceção de pequenas modificações de vocábulos, tais como restabelecer o colorido praguejar de Peter O´Toole, amenizado pelos editores de Esquire, não retoquei nenhum dos perfis de Aos Olhos da Multidão. Surgem neste volume como os escrevi há anos, uma simples coletânea de meu trabalho anterior. É sempre gratificante para um autor ver seu trabalho perpetuado em letra de imprensa e, por sua sugestão neste sentido e pela seleção da matéria, sou grato ao Sr. Gutwillig, assim como ao editor de Esquire, Harold Hayes, que publicou originalmente a maior parte, e aos editores de Harper & Row, que permitiram a transcrição de Nova York (Viagem de um descobridor), A Ponte e alguns dos perfis incluídos numa obscura coleção anterior, intitulada The Overreachers.