O Homem que Escutava "O Segredo de Joe Gould" é o segundo livro da coleção sobre jornalismo literário da Companhia das Letras. A obra, que estará nas livrarias no final de junho, apresenta ao leitor brasileiro Joseph Mitchell, um dos maiores jornalistas e escritores americanos do século XX, colaborador da revista New Yorker até sua morte, em 1957.
Certa vez, no sul dos Estados Unidos, Joseph Mitchell apontou um binóculo na direção de um pica-pau. O passarinho fazia o que fazem os pica-paus: martelava o tronco de uma árvore. Mitchell acomodou-se no chão e ficou observando. Laboriosamente o pica-pau avançou tronco adentro, rasgando a madeira de casca a casca. A façanha durou quase duas horas e terminou com a árvore vindo ao chão. Mitchell não arredou pé até o final. Mais tarde, disse: Foi a coisa mais sensacional que já testemunhei. Joseph Mitchell era um escritor especialíssimo, tanto na escolha dos temas como no método de escrita. Um texto de apresentação da sua obra poderia começar por qualquer uma das características que o tornaram legendário: a lentidão com que escrevia, o seu peculiar senso de humor, sua tristeza inata, sua grande cortesia, o enigma que cerca os últimos trinta anos de sua vida. Escolhi o pica-pau porque acredito que a história seja uma destilação da alma de Mitchell, uma síntese da maneira particular como ele via o mundo aquela maneira que o tornou um mestre do jornalismo literário e, possivelmente, um dos grandes escritores americanos do século passado. Pouca gente destinaria tempo a um pica-pau empenhado em bicar uma árvore. Alguns tantos segundos, sim; alguns minutos, talvez; duas horas, não. Primeiro, porque isso exige disciplina e paciência: ficar ajoelhado no mato em completo silêncio é chato. Depois, porque um pica-pau bicando uma árvore não chega a ser um assunto danado de interessante. O segredo da escrita de Joseph Mitchell reside precisamente em contradizer essas duas afirmações. Contradiz a primeira revelando uma capacidade incomum de ter paciência, dom que se traduzirá numa obra construída em torno da escuta atenta e constante. Contradiz a segunda demonstrando que, quando se tem paciência, o que parece banal um pica-pau bicando um tronco pode ser extraordinário um pica-pau derrubando uma árvore. A cada texto publicado, Joseph Mitchell provava que um pica-pau estava prestes a fazer o impossível. Para nossa surpresa e, mais ainda, para nosso grande deleite, ao cabo de todo texto dele uma árvore vem abaixo, espantosamente. É bom que se diga, nem sempre o espanto provém de algum prodígio da natureza ou da consumação de fatos extraordinários. Mitchell tinha de fato um carinho especial pelas bizarrices da vida foi sobre uma mulher barbada que escreveu um de seus perfis mais comoventes , porém na maioria das vezes seus textos tratam de assuntos prosaicos: um antigo bar, um hotel abandonado ou um velho cemitério. Se o espanto permanece, é porque subitamente nos damos conta de que vidas anônimas podem ser extraordinariamente belas. Cabum! A árvore vem abaixo. Joseph Mitchell nasceu em 1908, no estado da Carolina do Norte, sul dos Estados Unidos. O pai era plantador e negociante de algodão e durante um bom tempo a família supôs que Joseph iria substituí-lo, cuidando das terras de seus antepassados. Da infância e da adolescência, Mitchell guardou a memória das visitas que fazia com as tias aos velhos cemitérios da região, nos quais estavam enterrados não só a parentela, mas também os pequenos grandes personagens do folclore local. As visitas obedeciam a um ritual tão fantástico quanto rigoroso. Lentamente, de túmulo em túmulo, o pequeno Joseph era passado de mão de tia em mão de tia como um bastão. Numa espécie de revezamento narrativo, a cada nova lápide ele ouvia da tia que agora lhe segurava a mão episódios da vida do morto diante do qual se encontravam. O nome gravado na pedra era lido em voz alta e seu titular, homenageado com uma história. Estas misturavam fatos biográficos com fuxicos e fantasias e nunca eram mórbidas. Também não tinham o compromisso de ser edificantes. Se o morto tivesse sido uma peste, as tias não economizavam adjetivos azedos, porém mesmo nesses casos a homenagem estava lá: entre gritinhos, muxoxos e risadas, o morto era lembrado. Mitchell nunca se esqueceria do que é capaz o relato oral. Não desgostava do campo, mas a inabilidade com a aritmética o fez concluir que jamais seria um bom negociante. Preferiu deixar os negócios na mão dos irmãos, e no dia 25 de outubro de 1929, depois de uma longa viagem, descansou as malas na calçada em frente à estação de trem, olhou para cima, para o alto dos arranha-céus, e engoliu com os olhos a cidade em que ambientaria sua obra: Nova York. Chegou numa sexta-feira. Tivesse chegado um dia antes, a data teria nome: Quinta-Feira Negra. Na véspera o mundo viera abaixo, a reboque do desmanche da bolsa de valores. Numa resenha publicada no New York Review of Books, o escritor Russel Baker observou que Mitchell iria conferir à sua cidade de adoção uma doçura e uma gentileza de caráter capazes de mitigar a dureza das vidas sobre as quais escreveria. A sua Nova York não é a cidade indiferente e anônima da literatura do século XIX, nem o inferno dos desvalidos do romance social da década de 30. Tampouco é a metrópole positiva da utopia modernista, berço único de todas as possibilidades e invenções. A sensibilidade de Mitchell, temperada pelo tempo largo, quase elegíaco, dos modos do campo, viria buscar na cidade grande um semiparadoxo: a permanência aquilo que não muda, ou muda pouco. Mais ainda: aquilo que resiste à mudança, às vezes militantemente. A obra de Mitchell é uma celebração de pessoas e lugares que, apesar de todas as tendências e argumentos contrários, escolhem preservar seus anacronismos. Nada o satisfazia tanto como as pequenas insurreições contra a crueldade do tempo. Quanto mais idiossincráticas fossem, melhor.
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mais : *Este texto foi publicado originalmente na revista NoMínimo.com.br. |