Carta ao editor

"quem mantém a objetividade diante de uma cidade bombardeada pode ser um bom jornalista, mas é um péssimo ser humano"

De Luis Fernando Verissimo, a Augusto Nunes
(Revista Zero Hora, 25/09/94)

Prezado Augusto:

Obrigado pela sua carta em 17/9, que passo a responder. Nossa espécie se desentende tanto porque se comunica com palavras, ao contrário das formigas (que usam a química), das abelhas (mímica) e dos políticos nordestinos (hipérbole). As palavras são imprecisas e ambíguas, às vezes tribíguas. Veja o nosso caso. Eu sustento que honestidade intelectual é um jornal ser parcial (no sentido de ter parte, lado) e nem por isso ser injusto, você diz que a honestidade intelectual está na imparcialidade, que eu digo que não é nem possível nem desejável e fatalmente acaba em pseudo-imparcialidade. Você admira a objetividade dos jornalistas da CNN diante do bombardeio de Bagdá, eu acho que quem mantém a objetividade diante de uma cidade bombardeada pode ser um bom jornalista mas é um péssimo ser humano.

A Guerra do Golfo, aliás, não me parece um bom exemplo para qualquer jornalista, imparcial ou não. A objetividade de Peter Arnett acabou sendo chamada de subjetividade, e de traição, no Congresso americano, porque ele mostrou que o bombardeio "cirúrgico" de Bagdá estava matando gente. Depois disso a CNN maneirou e rapidamente acrescentou um pseudo à sua imparcialidade. A sempre admirável imprensa americana teve um dos seus piores momentos na Guerra do Golfo. Acabou noticiando só o que o Pentágono queria, e está até hoje debatendo se fez o certo submetendo-se à subjetividade alheia. Você diz, com razão, que nem os comunistas no palanque do Lula provam que ele é comunista nem os aliados de ex-governos (no caso do Marco Maciel, de qualquer governo) no palanque do Éfe Agá provam que ele é um novo Collor. Pois eu reconheço os malucos no palanque do Lula e concordo que Éfe Agá está longe de ser Collor e mesmo assim assumo minha parcialidade diante desse bombardeio. Tenho notícia do que os comedores de criancinhas fizeram em outros países, mas os crimes da oligarquia brasileira eu conheço de primeira mão. O que eles fazem com as criancinhas eu sei. Vejo todos os dias. No fim, nossa opção (a não ser, claro, para quem vai votar no Enéas) é entre duas traições: Lula teria que trair seus radicais para governar, Éfe Agá terá que escolher entre trair seu passado e trair seu palanque. A diferença é que acomodar os xiitas seria sopa, contrariar o PFL e etc significa ameaçar toda essa estrutura de poder e cumplicidade assentada sobre nós há anos como uma grande bosta seca, da qual Éfe Agá aceitou ser o ornamento. Já que toda essa conversa é acadêmica, pois o Éfe Agá está eleito, só nos resta esperar que ele escolha a traição certa, e seja parcial à maioria. (Enquanto isso, eu preciso urgentemente arranjar uma causa vencedora. Se pelo menos o Internacional estivesse bem!).

Sem mais, e com recomendações para a Luzia e as meninas, subscrevo-me, atenciosamente.
Um Leitor.

PS: Feliz aniversário.