Uma Barba Gratuita

"Quem desejar garantir comida, teto e assistência médica, tudo gratuito, tem um meio infalível de consegui-lo. Dirija-se ao maior polícia que encontrar e plante-lhe um soco na cara".

Por Ernest Hemingway
The Toronto Star Weekly,
6 de março de 1920*

A terra dos homens livres e a pátria dos bravos é a modesta frase usada por certos cidadãos da república ao sul de nós para designar o país onde vivem (N.T.: os Estados Unidos). Talvez sejam bravos... mas nada existe que possa chamar-se livre. A sopa dos pobres, que era de entrada livre, já passou à história há algum tempo e se tentarmos ingressar nos Pedreiros Livres, somos informados de que isso custará setenta e cinco dólares.

A verdadeira pátria dos homens livres e dos bravos é a escola de barbeiros. Aí tudo é gratuito. E se você for lá tem que ser bravo. Se o leitor quiser poupar $5,60 por mês em barbas e cortes de cabelo, vá à escola de barbeiros mas não deixe a coragem em casa.

De fato, uma visita à escola de barbeiros exige o valor frio e a intrepidez do homem que caminha de olhos abertos para a morte. Se não acredita, dirija-se à seção de principiantes da escola e ofereça-se para que lhe façam a barba gratuitamente. Eu me ofereci.

Quando se entra no edifício, depara-se-nos primeiro uma barbearia bem montada no térreo. É aí que trabalham os alunos em vésperas de obter o diploma. As barbas custam cinco cêntimos, os cortes de cabelo quinze.

- O seguinte - disse um dos alunos. Os outros olhavam, na expectativa.
- Desculpe - disse eu. - Vou lá em cima.

Lá em cima é onde os principiantes trabalham gratuitamente.

Um frêmito de excitação percorreu a loja. Os jovens barbeiros entreolharam-se significativamente. Um deles fez um gesto expressivo passando o indicador pelo pescoço.

- Ele diz que vai lá em cima - articulou um barbeiro, com voz emocionada.
- Ele vai subir - ecoou o outro e entreolharam-se de novo.

Subi.

Em cima havia uma multidão de rapazes desocupados, de jaqueta branca, e uma fila de cadeiras ao longo da parede. Quando entrei na sala, dois ou três foram postar-se junto de suas cadeiras. Os outros ficaram onde estavam.

- Vamos, rapazes, está aí outro freguês - disse um dos jaquetas brancas que se encaminhara para a sua cadeira.
- Que trabalhem os que quiserem - replicou um do grupo.
- Você não falaria assim se estivesse pagando o curso - retorquiu o diligente.
- Cala a boca. O governo mandou-me para aqui. Não fui eu que pedi - disse o não-trabalhador e o grupo continuou em seu bate-boca.

Sentei-me na cadeira servida por um camarada ruivo.

- Está aqui há muito? - perguntei, para evitar pensar na provação que me esperava.
- Não... há muito não - sorriu.
- Quanto tempo lhe falta para ir para baixo?
- Oh, já estive lá embaixo - disse ele, ensaboando-me.
- Então por que voltou para cima?
- Tive um acidente - respondeu, continuando a ensaboar.

Nesse instante, um dos não-trabalhadores aproximou-se e ficou olhando para mim.

- Escute aqui, você quer que lhe cortem as goelas, não? - indagou, trocista.
- Não, não quero - disse eu.
- Ah! Ah! - riu o não-trabalhador.

Só então notei que o meu barbeiro tinha a mão esquerda envolta numa atadura.

- Como foi que fez isso? - perguntei.
- Puxa, quase decepei o polegar com a navalha esta manhã - disse o moço, afavelmente.

A barba não correu muito mal. Os cientistas dizem que o enforcamento é, na realidade, uma morte muito agradável. A pressão da corda nos nervos e artérias do pescoço produz uma espécie de anestesia. O que aflige um homem é a expectativa de ser enforcado.

Segundo o barbeiro ruivo, chega a haver uma centena de homens, em certos dias, que se apresentam para fazer a barba gratuita.

- Não são todos vagabundos, não senhor. Muitos arriscam-se só pelo prazer de ganhar alguma coisa sem pagar.

A barba gratuita não é o único serviço de entrada livre que se pode obter em Toronto. O Real Colégio de Odontologia faz trabalhos dentários em todos os que se apresentarem na instituição, sita nas ruas Huron e College. Só se paga o material usado.

Aproximadamente mil pacientes são tratados, de acordo com o Dr. F. S. Jarman, cirurgião-dentista e chefe do departamento de exames da clínica. Todo o trabalho é realizado pelos estudantes finalistas, sob a direção de especialistas.

Os dentes são extraídos gratuitamente se for aplicada apenas anestesia local, mas no caso de aplicação de gás o negócio já custará dois dólares. Segundo o Dr. Jarman, os dentistas com consultório pedem em geral três dólares para extrair um único dente. No Colégio de Odontologia, você pode, pela módica quantia de dois dólares, extrair vinte e cinco dentes. Isso pode, sem dúvida, ser um atrativo para os pechincheiros.

A profilaxia, ou limpeza geral dos dentes, é feita no Colégio por cinqüenta cêntimos a um dólar. Na clínica particular, isso custaria de um a dez dólares.

Colocam-se dentes desde que o paciente desembolse o preço do ouro. Usualmente, entre um e dois dólares. O trabalho de ponte é feito sob o mesmo sistema.

Não se recusam pacientes no Colégio de Odontologia. Se eles não puderem pagar o custo dos materiais, mesmo assim são tratados. A pessoa que estiver disposta a arriscar a sorte pode certamente poupar dinheiro em dentista.

No Grace Hospital, fronteiro ao Colégio, do outro lado da rua Hudson, existe um dispensário gratuito para indigentes, que atende, em sua clínica médica, uma média de 1.241 pacientes por mês.

Esse serviço é exclusivamente para os "necessitados". Os que forem pobres mas não tidos na conta de indigentes pelas assistentes do serviço social terão de pagar o serviço médico. Segundo os números do Grace Hospital, mais de metade dos casos tratados no mês findo eram judeus. Os restantes, um aglomerado de ingleses, escoceses e italianos, macedônios e pessoas de origem desconhecida.

Refeições gratuitas eram anteriormente servidas na Fred Victor Mission, ruas da Rainha e Jarvis. Mas as autoridades afirmam que esse refeitório já não é praticamente procurado. A Proibição e a Guerra resolveram o problema dos "vagabundos" e onde antigamente havia uma longa fila de mendigos para receberem as senhas de refeição gratuita, hoje só aparece um ou outro pedinte.

Quem desejar garantir comida, teto e assistência médica, tudo gratuito, tem um meio infalível de consegui-lo. Dirija-se ao maior polícia que encontrar e plante-lhe um soco na cara.

A duração do período de cama, mesa e roupa lavada dependerá do estado de humor do Coronel George Taylor Denison, o magistrado da polícia. E a extensão da assistência médica depende do tamanho do polícia escolhido.

 

*Texto extraído do livro Tempo de Viver, 1969
(Ed. Civilização Brasileira)