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Oráculo
urbano Por Vanessa
Barbara Ela nem pensa. Olha para ele e apenas retruca, como se fosse a coisa mais natural do mundo: - Primeiro
corredor à esquerda, no final. É sempre bom saber como reagir quando alguém chega de súbito e diz: "quarenta e nove". Anote aí a resposta: primeiro corredor à esquerda. Pode acontecer a qualquer momento. E em qualquer lugar. O Balcão de Informações da Rodoviária Tietê, em São Paulo, é um espaço circular equipado com quatro cadeiras, dois computadores e uma garrafa cheia de água gelada. Há também alguns vasos de plantas, guias rodoviários, listas telefônicas e manuais de todos os tipos. As moças que trabalham lá - como Cíntia - precisam conhecer cada minúcia da cidade. E cada canto da Rodoviária: o homem só queria saber onde era a plataforma 49, e ela mal precisou de três segundos para informá-lo. Há apenas 8 meses trabalhando no local, Cíntia é um gerador automático de respostas. - - Onde
desce o ônibus de Atibaia? - Onde é
o guichê da 1001? - Onde sai
ônibus pro shopping D? - Como é
que eu chego no Center Norte? Uma, duas, três respostas em seguida, em tão pouco tempo. E não é só Cíntia que "pensa rápido": todas as suas amigas do Balcão de Informações sabem de coisas que a mente humana nem poderia imaginar. Na ponta da língua. - Como eu
chego em Santo Amaro? - Onde vende
bilhete para el Uruguay? - Minha querida...
Pássaro Marrom? - Que ônibus
eu pego pra cidade de Tietê? Cíntia e suas amigas são almanaques que usam coque, uniforme azul-marinho e lencinho da Socicam. "Tem que conhecer São Paulo a fundo", é o que elas declaram, cheias de elegância e sombra branca nos olhos. "Tem que saber, não interessa. Eles são impacientes e se você vacila, ficam bravos", diz Cíntia. Muitas vezes, as pessoas vêem a placa "Informações" e acham que podem perguntar qualquer coisa, sei lá, a raiz quadrada de trinta e dois, o sentido da vida. "Um dia me perguntaram onde se podia comprar um teco de pimenta", conta Silvana, antiga atendente do local. "Eles acham que a gente tem resposta pra tudo". Como no dia em que chegou uma velhinha calma, perguntando: - Moça,
onde é que eu faço inscrição pra ir pro Iraque? E a mulher foi embora, bastante brava com a incompetência das atendentes. Ora, que disparate. Como, não sabe responder a pergunta? I-n-f-o-r-m-a-ç-õ-e-s, é o que está escrito na placa. Desnorteados, os passageiros que desembarcam geralmente andam em círculos. Se trombam com o Balcão de Informações, é provável que ajoelhem e agradeçam aos céus. Parece inacreditável que, em uma cidade como São Paulo, existam moças dispostas a prestar atenção e a tentar ajudar o próximo, com todo interesse. Mesmo que a coisa seja insolúvel. - Você
pode avisar minha tia que eu já cheguei? Não, ninguém entende como é que, numa metrópole de 17 milhões de habitantes, não se conheça a Odete, da quitanda, o Décio, da farmácia, o Edevaldo, amigo do Tião. Para as garotas do Balcão de Informações, é normal alguém chegar perguntando pelo Seo Francisco (eletricista, cabeludo, conhece?), a dona Maria, a Josefa e por aí vai. Certo dia, foi a vez de um senhor de meia-idade, rosto queimado do sol e boné na cabeça, pedir para anunciar o amigo no sistema de som. - E como
é o nome dele, senhor? A mocinha vacila e pergunta para a amiga o que fazer: "pode anunciar apelido, Rosângela?". A outra ri, dá de ombros. Dentro de alguns minutos, os alto-falantes anunciam: "Senhor Pelé. Senhor Pelé. Favor comparecer ao Balcão de Informações do piso superior". O tempo passa - cinco, dez minutos - e o moço continua sentadinho, aguardando. De repente, as garotas do Balcão avistam um homem se aproximando, cheio de malas. O sentadinho se levanta e grita: - Moooça!! Moça, brigadão! As meninas apenas se entreolham, meio espantadas. - Óia só, o rapaz aqui! - e dá palmadas nas costas do amigo Pelé, que acena para elas, satisfeitíssimo. Os dois parecem tão felizes com o reencontro que nem percebem que estão gritando. O tal Pelé ostenta um sorriso de uma orelha à outra; "se sorrir mais um pouco, os dois cantos da boca vão se encontrar atrás", diria a Alice de Lewis Carroll. "E aí não sei o que pode acontecer com a sua cabeça. É capaz de cair". Pois esta era a alegria do Pelé, que era bem mais baixinho que seu xará famoso, porém sorria muito mais. Então, o amigo pára de andar, desmancha a expressão de alegria por uns instantes e pergunta, meio preocupado meio curioso: - Aliás, como cê chama, ô? O outro responde: - Edson. Ué. Que nem o Pelé. E saem, despreocupados, balançando os braços como crianças de filmes.
Mas nem sempre as coisas são simples."Você não tem idéia de como isto aqui é", declara Cíntia. Nas vezes em que elas não são capazes de resolver os problemas, o silêncio se prolonga. Normalmente, quando a situação é difícil, elas encaminham o usuário para a Assistência Social. Não é raro que as moças do Balcão - por iniciativa própria - façam uma vaquinha, a fim de ajudar alguém desesperado a voltar para casa ou comer alguma coisa. - Como é
que eu faço pra mim descer pra Vila Mariana? Outras vezes, não há jeito. Em um só dia, mais de três pessoas vieram procurar o Juizado de Menores. Precisavam de autorização para viajar com os filhos ou parentes. Uma delas levava a filha adotiva - sem documentos -; a outra trazia a sobrinha, sem a autorização dos pais por escrito. Nesse mesmo dia, houve um senhor de 50 anos que recorreu ao Balcão, acompanhado do filho de 14. - Por favor,
o Juizado de Menores? Rodeio João Vítor chega correndo, põe os braços em cima do balcão e pergunta, afobado, encarando a atendente Rosângela: - Com licença, que ônibus vai pra Jaguariúna? Ela toma um susto ("que espalhafatoso!") e procura entre as folhas de uma pasta. - Gontijo,
segundo corredor à direita. E sai correndo. Minutos depois, o rapaz volta, de mansinho. - Desculpa...
mas acho que eu não entendi direito. Gontijo, é? Ele corre de novo, e some entre as pessoas. Mais uns minutos se passam, e lá está o moço de volta. Aproxima-se de Rosângela, abre um sorriso e assim, sem motivo, começa a puxar papo. João Vítor, 23 anos, esperava o primo para ir ao rodeio ainda naquele sábado à noite. Usava botas de cowboy, cinto com fivelas de boiadeiro e segurava um chapéu. Tinha enormes olhos azuis (daqueles que estão sempre felizes) e disse que voltaria ainda às 6 da manhã do domingo, para prestar uma prova de concurso público. - Iiiih,
gandaieiro - exclama Rosângela, já amiga do moço.
- Não vai nem estudar antes da prova? Mal Rosângela termina a frase e ele se debruça no balcão, com um sorriso galante. - Ôpa!
Isso foi uma cantada? Rosângela ri. Moço espontâneo, e um tanto abusado. O papo ia longe, mas sempre chegavam usuários com dúvidas e a conversa se interrompia. Ou melhor: João Vítor tentava se intrometer e ajudar, sempre daquele jeito matreiro. - Boa noite,
onde ficam os telefones? - perguntou uma moça e, antes que Rosângela
respondesse, ele perdeu a paciência: Rosângela lança um olhar irritado, passa a informar exatamente onde são os telefones públicos - no final deste corredor, senhora - e dá uma bronca em João Vítor. - Mais um pouco, somos dois os desempregados! Ai de você se alguém reclamar de mim, hein. Vai ver só. Ele dá risada, achando tudo aquilo muito divertido. Chega uma adolescente e pergunta como se faz para ir à rua Embu Natal. Rosângela pega o guia de endereços e começa a procurar com cuidado. João Vítor tira o livro das mãos da moça e diz que vai achar rapidinho. Procura, procura, e não encontra. - Não
existe, dona. Tem certeza que pegou o endereço certo? Ele larga o guia e se recosta no balcão, convicto. A atendente volta a pegar o catálogo e encontra o endereço. "Tá aqui, ó!" - ele faz cara de quem não acredita. Sua mentirosa. Ela aponta para o nome da rua - viu? "Iiih, menino, acho que a casinha do cachorro vai servir bem pra você!". As duas garotas riem, e ele fica emburrado. Pergunta se Rosângela tem um telefone celular pra emprestar, porque precisa ligar para o primo ("a cobrar, né"). Devolve o aparelho e, minutos depois, avista um rapaz vindo em sua direção. Xinga-o com palavras nada elegantes (mas pede desculpas às moças do Balcão) e abraça-o, dando aqueles tapões nas costas que chegam a fazer eco. "Finalmente, homem! Tô esperando aqui faz uma data!". Dá um beijo estalado em Rosângela e se despede, perguntando: - Lembrei...
Cometa ou Cristal, né? Eles partem, satisfeitos, e desaparecem em meio às pessoas. Rosângela acompanha a dupla quieta e, quando eles somem, vira para a amiga e declara: "AQUILO é uma peça rara no terminal!". Dá uma risada, se ajeita na cadeira e confidencia, com um sorrisinho maroto: "o danado ainda conseguiu anotar o número do meu celular". ET, telefone, casa São mais de 2 mil as informações fornecidas diariamente pelas atendentes do Balcão (117 por hora, quase 2 a cada minuto). Respostas a todo tipo de pergunta, feitas pelas pessoas mais incomuns. "Você conhece aquela teoria de que o ser humano consegue se comunicar em qualquer lugar?", é o que Rosângela responde, quando pergunto se não é difícil atender a todos e se ela fala inglês. Não, nenhuma delas sabe qualquer outro idioma, conhece a linguagem de deficientes auditivos ou decorou o tomo L da enciclopédia, mas parece não fazer diferença. - lajararojadesugodenaranjagrandullóndivertimientocortázarayudame...? Rosângela apanhou um papel e foi esquematizando as instruções para o estrangeiro, passo a passo. Conseguiram se entender, no final das contas. Ele ficou satisfeito, sorriu e fez um sinal positivo. Uma espécie de "joinha" universal. Em outra ocasião, um moço de Curitiba perguntou qual era o caminho para a Feira do Revestimento. Feira do Revestimento! Rosângela descobriu sabe-se lá como, pegou um papel, foi anotando as instruções e explicou direitinho: ele deveria pegar o metrô e ir para tal lugar, fazer baldeação na estação X, tomar o ônibus tal, descer na rua Y, enfim. Ao final da ladainha, o homem continuou parado e balbuciou: - Hmm... tá bom. Agora me diz uma coisa: como é que eu faço pra pegar o metrô? Ela retribui com um olhar engraçado, amassa o papel e suspira, sorrindo: - Ih... Acho melhor a gente começar de novo. Escreveu todas as instruções mais uma vez. Agora, em minúcias. "Ir até a rampa tal, comprar um bilhete de integração, entrar no metrô com destino a...". Ele saiu com o papelzinho estendido na palma da mão, como se fosse uma bússola. No final do dia, antes de voltar pra casa, ainda passou no Balcão, agradeceu e ofertou um pão de queijo quentinho, especialmente para Rosângela. Houve ainda uma vez em que uma moça de vestido surrado e chinelo de dedo perguntou como fazia para montar "naquilo ali". "Aquilo ali" era o metrô. A jovem precisava chegar em um bairro distante, na casa de um parente. Trazia uma criança no colo. Tinha vindo do interior, e não parecia estar entendendo muita coisa. Rosângela explicou o melhor possível, mas a moça não tinha coragem de embarcar. Continuou sentada, nervosa, cheia de dúvidas. A atendente aconselhou-a a partir o mais rápido possível, pois estava começando a escurecer. Mas não havia jeito, ela continuava amedrontada. Então chegou uma senhora tímida e perguntou como fazia para ir a um determinado lugar, usando o metrô. Também estava com medo. Rosângela, então, chamou a primeira e sugeriu que fossem juntas, já que parte do caminho era o mesmo. E foram. A imagem Rosângela conversa com as pessoas sem rosto da Rodoviária. Olha nos olhos de cada uma e ouve, com atenção, o que têm a dizer. Lembra-se de muitas delas, sabe dizer seus nomes e contar suas histórias. Dá um exemplo de relações públicas até para os altos funcionários da Socicam. "Eu estou aqui para ajudar o usuário. Tudo o que eu puder fazer por ele, eu faço", afirma a moça, séria. "Já falei pro meu chefe: antes de tudo está a pessoa, não me importo com o lucro, com a imagem da empresa, essas coisas. Se eu atendo bem, ela fica satisfeita, é o meu trabalho. Depois é que vem o resto". Ela diz que adora olhar nos olhos de cada um dos usuários que vêm ao Balcão. Só não gosta mesmo é de uma coisa: "não suporto quando alguém chega assim, bem grosso, passa na frente de todo mundo e grita: 'moça! Onde é que fica o...?'", e exige atenção prontamente. Mal ela termina a frase, uma mulher alta e bem vestida, de óculos escuros, joga uma nota de 10 reais no Balcão e ordena que lhe dêem um cartão telefônico. Rosângela apenas aponta à direita, onde ficam os guichês de venda de cartões. "Tá vendo? É assim. A pessoa nem olha pra você. Não sei como consegue viver desse jeito", protesta. Ela conta que agia da mesma maneira e só percebeu como a atitude era horrível quando, um dia, jantava no Terminal e um senhor se aproximou. - Boa tarde,
senhorita! Envergonhada, Rosângela olhou pra cima, desculpou-se e a partir de então percebeu como uma atitude atenciosa pode mudar o dia do outro. "Se você já recebe as pessoas de um jeito amável, dificilmente elas vão brigar com você, responder mal ou sair dali chateadas. A atenção que a gente dá a alguém pode transformar muita coisa, não só na pessoa mas em você também". Ela sabe do que está falando: um usuário que conheceu ali mesmo, no Balcão de Informações, chegou a ir visitá-la com uma proposta de casamento. "Ô Rosângela, tem um queniano aqui na porta com um buquê de flores pra você!", avisou a irmã certo dia, por telefone, achando tudo muito estranho. "Essas pessoas que você conhece na Rodoviária, vou te contar hein!". Há usuários que sempre procuram por ela, que contam histórias e conversam todo dia com as moças do Balcão antes de embarcar. Há outros que ficam com ciúmes da amizade entre elas e os funcionários dali - "negão, se eu te cato vou te deixar branco!", brincou Rosângela com o amigo Marcos, da administração, para espanto de outro colega do Terminal. Mas já
é hora de ir para casa, e Rosângela conclui filosoficamente,
enquanto vai arrumando as coisas: "Tem pessoas aqui no Tietê
que marcam a sua vida de verdade". Ainda sorrindo, ela completa:
"Ao invés de tantas outras, que só passam correndo
e perguntam onde é o guichê da Cometa". *Segundo a assessoria de imprensa da Socicam, o Juizado de Menores foi retirado dos três Terminais Rodoviários da capital há três anos, por uma decisão de um juiz da Vara da Infância e da Juventude. Ele alegou que, nesses terminais, quem autorizava os menores de 12 anos a viajar eram comissários (e não juizes), que não tinham tal poder jurídico. Oráculo (s.m.): Aquele que prevê os destinos. Resposta dada por uma divindade ou por uma pitonisa. |