Uma Manhã, Uma Escola

Por Lia Rangel
EmCrise, 2002

"Calçadas de cimento, mal acabadas, acompanham um extenso muro. Para atravessá-lo é necessário enfrentar um portão de ferro e somente através dele é possível visualizar, entre correntes, o prédio. A entrada é permitida com autorização oficial ou em horário de visita. A vista de dentro é filtrada pelas telas de arame e grades, colocadas para guardar a segurança e para evitar a fuga de seus freqüentadores. Pelos corredores internos é possível ouvir as ordens de silêncio. Banho de sol só em períodos determinados. Assim é a rotina de uma escola pública na periferia de São Paulo. Com estruturas semelhantes a de uma prisão, os alunos são sujeitados a um sistema repressor. Da estrutura física, ao tratamento em sala de aula."

Antônio Duarte Almeida, Vila União, Zona Leste de São Paulo. O sinal está para tocar. A camisa cinza e a calça azul, o uniforme, garantem passagem livre. Segurando firme na mão de Lurdes, Márcio, mulatinho de cabelos ainda lisos, deixa-se beijar na testa. Depois de atravessar o portão, junto com uma multidão de crianças, verá a mãe somente ao anoitecer, se ela conseguir chegar em casa. Avista no pátio os rostos conhecidos, os garotos não são da família, mas já convivem diariamente desde o início do ano passado, quando entraram para a escola. Os colegas correm e quando vêem Márcio fogem liderados por Alexandre. Com seus olhos negros e fortes, da pele cor de carvão, o chefe da turma é insaciável. Márcio havia ensaiado um sorriso, mas reprime-se e segue em direção à sala de aula. Senta na primeira carteira encostada na parede de frente para a mesa da professora. Calado, aguarda o sinal. Uma sirene toca e a sala da 2ª série se enche de crianças. Com exceção de Alexandre e sua turma, estão todos lentos, em uma sinfonia de bocejos. A professora demora e os planos para o recreio já começam a ser traçados.

Samira conhece o segurança. Ao se aproximar, o portão é aberto para que ela entre com o seu automóvel. Há uma vaga e estaciona sem dificuldades. Atrasada, corre para chegar logo à sala dos professores. A porta da frente está trancada e tem de tocar a campainha. Pelas grades, vê alguém se aproximando.

- Ah, é você Samira?! Só um minuto que já vou abrir. Sua turma já está te esperando. - diz a inspetora Gláucia.
-Esqueci que hoje é dia de feira...e acabei errando o caminho. - responde a professora em ritmo acelerado.

Cumprimenta rapidamente os colegas, que logo entrarão em JEI (Jornadas Epeciais de Integração), e anuncia a venda do carro. Mesmo com pressa, não consegue esconder a preocupação que lhe aflige, afinal, o dinheiro está escasso. Pega os diários, atravessa três longos corredores, finalmente chega ao seu local de trabalho.

- Bom dia!, começa o ritual.
- Booom diiiia!, respondem os pequenos sem empolgação.
- Está todo mundo dormindo ainda? Eu disse bom dia! - repete a professora quase gritando.
Simulando animação, os alunos satisfazem o pedido da professora. O bom-dia sai em coro e Márcio solta aquele sorriso outrora guardado.


Para não deixar dúvidas de que todos têm de cumprir suas ordens, Samira fala em voz alta o cabeçalho antes mesmo de jogar na mesa os livros que carrega. Os alunos obedecem, abrem os cadernos: local, dia, mês, ano. Márcio olha para Jaqueline, a colega ao lado, e copia o que ela escreve. A reprodução sai perfeita. Karoleyn senta na mesma fileira. A menina vestida de rosa finge que não ouve o que a professora fala até que esta dirija-se a ela em particular: "Filha, você dormiu bem?". Sem abrir a boca, a pequena balança a cabeça para baixo e para cima e abre o caderno. Com o lápis na mão desenha as palavras.

Enquanto Samira dava atenção para a fileira da parede, Alexandre estava em pé, trocando traquinagens com Emerson. "Mas já vão começar?". A partir de então, todos tentam se concentrar. O silêncio só é quebrado quando a professora pede para os alunos a ajudarem a ler as palavras escritas na lousa.

Adivinhe
Sou pretinho...pretinho,
De uma perna só!
Uso gorro vermelho
E cachimbo de cipó!
Faço cada traquinagem
E sou esperto como eu só!
Quem sou?

Márcio adora as adivinhações e somente após a leitura se atreve a responder.
- É o saci - novamente sorri.

A professora responde ao estímulo do aluno. Segue a atividade planejada para o dia escrevendo no quadro negro duas listas com palavras compostas por sílabas complexas, aquelas com h no meio, como olho, lhama, ilha. Senta para aguardar os alunos finalizarem a tarefa. Novamente chama atenção de Alexandre que está de costas para a lousa, olhando o vizinho. Márcio está na mesma posição, mas a professora não diz nada. Só pensa em como poderá ajudar o garoto. Ele é comportado, atencioso, mas não sabe reconhecer uma palavra. Tem o caderno completíssimo, pois é um excelente copista. Passa a aula inteira observando a atividade dos colegas e depois desenhando o que vê. As letras para ele não têm significado. Não é o único caso da sala. Karoleyn faz como ele, mas não é tão disciplinada. Ela só copia quando está com vontade. Passa a aula rabiscando. Samira olha no relógio e percebe que terá de aguardar o intervalo para continuar. Vai a até a porta, encosta-se no batente, contempla os alunos e os corredores mudos.

Ao toque da sirene, o espaço cinza e vazio se enche de algazarra. Karoleyn segue triste, em passos lentos. A professora pergunta se ela está bem. A menina cai aos prantos e tenta se esconder tampando o rosto com a ajuda das mãos e da parede. Bem baixinho, diz que quer vomitar. A professora designa uma coleguinha para acompanhá-la até o banheiro. Samira sabe dos problemas da criança: em um dia qualquer, Karoleyn contou que viu o pai tentando matar a mãe com a mangueira do chuveiro.

As outras crianças correm, se atropelam, gritam, brincam, querem comer e se divertir. Seguindo-as ou à frente, mulheres caminham vestidas com um guardapó, sim, eles ainda existem. Já haviam deixado de ser ícones identificadores dos mestres, mas não sucumbiram à desvalorização de quem os traz no corpo. Entrar em uma sala com dezenas de falantinhos agitados vestindo um longo avental branco, sujo de giz, anuncia a necessidade do restabelecimento da ordem. Não que essa seja obrigatoriamente cumprida. O ritual indica o fim ou o início do recreio.

Com passos de sargento, as professoras caminham até a sala onde trocam experiências com seus iguais. Cafezinho, bolacha, cigarro, conversa. Desfazem por minutos a postura de superioridade e de autoridade. Querem uma pausa para relaxar. E lá vem novamente a bomba. Samira anuncia que no final do expediente haverá uma palestra com um pesquisador de educação. Começa um burburinho. A dúvida de como resolver a angústia de doutrinar uma sala com mais alunos do que o espaço físico comporta. São mais de 35 meninos e meninas por turma, que deveriam usar aquele espaço para construir conhecimento.

Os professores refletem sobre o trabalho que fazem. Eles o executam como podem, muitos adotam o método mais burocrático possível, pois acreditam que os esforços não valem a pena. Os salários baixos (ganham R$ 600,00, em média) e o desdém do Estado contribuem para a falta de motivação. Reclamam que são apenas professores e que não estão preparados, nem são pagos para fazer a análise dos alunos e de seus familiares.

Sem instrumentos, estruturais e intelectuais, improvisam. Destacam que perderam a razão para trabalhar, pois não há mais meios para que sejam reconhecidos. Tentam ensinar e, quando os alunos não aprendem, não há o que fazer. Todos passam de ano, sem exceção. Vêem as notas como um mero instrumento burocrático, sem valor. Samira sabe muito bem qual é a angústia de seus colegas, pois sofre do mesmo mal. Mas acredita que pode ser diferente. Novamente a campainha estridente. Está na hora de voltar para a sala de aula.

As crianças se amontoam no pátio tentando se organizar em filas. Estão eufóricas e gostariam de continuar com aquele espírito até o final do expediente. Sabem, porém, que na escola têm de fazer lição e não resistem. O segundo ano de Samira é o único que fora de ordem. Os pequenos estão em roda e não em linha reta. Ela se aproxima: no centro, Márcio chora compulsivamente, sem ter forças para falar. Emerson entrega:

- Foi o Alexandre, foi o Alexandre.

Os outros colegas completam dizendo que Márcio tinha levado um soco na barriga. Sentado de braços cruzados, o autor da confusão aguardava a bronca ensaiando a desculpa para seus companheiros:

- Eu não fiz nada, este bobão entrou na minha frente e caiu no chão sozinho.

Karoleyn chega com o rosto molhado, os olhinhos vazios, pálida.

- Está melhor, filha? - pergunta a professora.
Sem abrir a boca, a menina mexe a cabeça indicando que sim.
- Então vem para a fila.
Samira põe as mãos na cabeça e resolve botar ordem na bagunça. Em alto e bom tom pede silêncio e que os alunos se coloquem em posição. O portão se abre e eles atravessam novamente o corredor até a sala de aula.

O exercício iniciado no período anterior terminará no dia seguinte. As circunstâncias fazem com que ela mude de planos. Leva a turma para a quadra ao encontro das outras segundas séries que ensaiam uma apresentação para as mães. O evento será no final de semana. Posiciona seus alunos ao lado dos outros em fila, sempre em fila. As professoras ficam à frente, mostrando a coreografia. Samira é acanhadíssima, não tem muito jeito para a dança. Mas representa o papel de sabe-tudo. Não pode decepcionar seus alunos.

Num toca-fitas o cassete roda ininterruptamente com aquela canção da Bahia: "me abraça me beija me chama de meu amor..."

- Atenção, na hora do refrão quero todo mundo rebolando! - ordena Maria Emília, também professora.
- Vocês estão congelados, é? - enfatiza seu pedido.

Até o final do período, as 90 crianças reunidas seguiram passo a passo os movimentos de suas superiores e só foram dispensadas quando atingiram um sincronismo perfeito.

O sinal toca. Quase todos os alunos recolhem o material pela última vez no dia. A maio ria corre em direção ao primeiro dos três portões que terão de atravessar para chegar à saída. Márcio, Karolyen e os colegas que sentam encostados na parede não vão embora. Eles fazem parte de uma turma especial. Só vão para casa mais tarde, após as aulas de recuperação. Não sabem ler, nem escrever e as chances de terem suas dificuldades sanadas são remotas.

Samira se sente incomodada todas as vezes que vê a cena se repetir. Fica frustrada por não saber como comandar o batalhão de pequeninos que diariamente aguardam suas ordens. São crianças de 7 e 8 anos que ao fim dos exercícios, como no texto do Saci, colocam em suas mãos um desafio angustiante. Sabe que já deveria começar a introduzir um conteúdo mais pesado, pois os alunos estão na segunda série e deveriam estar alfabetizados. Uns lêem com perfeição, outros nem sequer reconhecem o alfabeto.

Muito a contragosto, a professora traz para dentro da sala a seleção, a exclusão, e divide a turma em duas: os alfabetizados e os outros. As consequências dessa atitude por enquanto são refletidas somente dentro dos limites da escola. Samira sabe que as coisas têm de mudar. Como a escola não tem estrutura, ela pede ajuda aos outros professores, mas sente-se impotente. Por ela e pelo sistema.

A realidade da professora e das crianças é uma só. Estão ambas encarceradas, cercadas por grades, muros, regulamentos. O ambiente em que deveriam construir o conhecimento tem os moldes do espaço destinado para recuperação de delinqüentes. A escola tem a estrutura de uma prisão. O sistema vigente carrega o peso de um passado secular marcado pelo autoritarismo, pela seleção e pela exclusão. Mas Samira ainda acredita que pode mudá-lo. As dificuldades da profissão nunca fizeram com que pensasse em desistir. Sonha em ter uma sala com alunos que possam ler Monteiro Lobato em coro. Como em um jogral.

De volta à sala dos professores, na escola em Antônio Duarte. Samira vai buscar os docentes para a palestra com Ocymar Munhoz, orientador pedagógico de outro núcleo próximo dali. Ele vai tentar solucionar algumas dúvidas dos professores que pouco acreditam na ciranda educacional em que estão inseridos. Desde a implantação da Progressão Continuada e dos Ciclos, a descrença na profissão passou a ser rotina para muitos mestres.

Munhoz, também professor de filosofia e sociologia, desenvolve há três anos uma pesquisa sobra metodologia trazida para São Paulo por Paulo Freire. Sente-se instigado em saber exatamente quais foram os desvios que uma proposta - segundo ele tão avançada - tomou para chegar a uma condição tão ineficiente.

A apresentação começa. Antes de qualquer explicação transmite um vídeo com cenas de um evento natural filmado em close, como se o objeto estivesse sendo observado por um microscópio. Só se vê fragmentos e a cada instante a cena leva a conclusões contraditórias.
O filme dura 5 minutos o provoca risos dos mestres, alunos agora. Eles tentam adivinhar o que realmente estão vendo, chute atrás de chute, mas ninguém acerta. No final, a descoberta causa o espanto da platéia. Eles assistiam ao processo de fritura de um milho até sua transformação em pipoca. Algo corriqueiro, que dificilmente apresentaria um grau tão complexo para ser identificado, caso fosse visto em sua totalidade.

- Estamos tão colados no problema, por isso não conseguimos enxergá-lo - elucida Munhoz.

O orientador não se referia à pipoca, mas à questão da Progressão Continuada. Estava ali para convencer os homens e mulheres, com olhos fixos em sua explicação, da necessidade de uma reflexão mais abrangente sobre o papel que desempenham como educadores.
O ambiente fica tenso. A platéia irritada, ainda em silêncio, joga olhares de desaprovação para o palestrante. Já acostumado com a reação, Munhoz continua sua explanação e arremessa uma bomba.

- Sabem quantos analfabetos temos em São Paulo? Um terço da população.

Os ânimos se agitam ainda mais. Segue implacável.Lembra que, de acordo com a mais recente pesquisa do Inep, apenas 4% das crianças brasileiras não freqüentam a escola.

- 4%?!
- Acham pouco?
- São 2 milhões de pessoas sem acesso ao conhecimento.

Não tem nada tranqüilo na sala. As cadeiras tremem. A pergunta na cabeça dos professores é a mesma que sempre usam para descartar qualquer possibilidade de ampliar a discussão.

- E o que adianta aumentarmos os números, as estatísticas, colocarmos para dentro da escola o máximo de alunos possível, se não temos como oferecer qualidade?
- Temos o compromisso em garantir conhecimento a todos.

Quanto mais Ocymar fala, mais os professores se irritam. O orientador resolve, então, mudar o rumo da discussão. Assume que o modo como o sistema havia sido implantado era realmente arbitrário. Por este motivo, poucos professores tinham noção da pedagogia que existe por trás da Progressão Continuada e dos Ciclos. Com paciência, retoma os princípios básicos que embasam a aplicação dos conceitos em questão.

- Batizaram de ciclos, mas podiam chamar de sistema 'x', ou 'y', ou continuar chamando ginásio ou primário. O conceito não foi aplicado como deveria ter sido. - falou, se referindo à divisão das séries em grupos.

Segundo o pedagogo, ciclo refere-se a um processo que exige continuidade. Depois da reforma educacional em 1992, as séries foram inicialmente separadas em 3 ciclos: o primeiro, que compreendia da primeira à terceira série, o segundo (quarta a sexta série) e o terceiro e último ciclo composto pela sétima e a oitava série. Em 1998, a divisão voltou a ser a mesma da estrutura tradicional.

Os professores têm pressa em obter respostas. Há dez anos vivem uma realidade fora de controle. Queriam soluções.

- Como eu posso trabalhar em uma sala onde a desigualdade é tão latente? - indaga Zé Renato, professor de História da sétima série.

Exaltado, afirma que não tem "cacife" para alfabetizar ninguém, portanto, os alunos que chegam até ele nestas condições são simplesmente ignorados. Elaine, professora de Ciências, tem dúvida em relação à avaliação. Não sabe mais como avaliar, já que a prova deixou de ter valor.

- Eu tenho três empregos, mais de duzentos alunos. Como posso acompanhar o desenvolvimento individual de cada um? Temos que passar todo mundo.

Sua colega, Marina, que leciona Geografia, completa o raciocínio afirmando que a escola virou um depósito de alunos. Munhoz perde o controle da discussão. Tenta retomar a calma do ambiente, mas Zé Roberto novamente põe fogo.

- Querem saber, falta muita coisa sim, mas principalmente o professor se conscientizar de seu papel. O professor está apartado do conhecimento porque não lê. Pode aumentar salário, diminuir turma, mas o estereótipo está enraizado.

Marina retoma a palavra indignada com o posicionamento de seu colega e sugere ironicamente uma solução.

- Então o que devemos fazer? Nos rebelar e levar cacetada da polícia na Avenida Paulista como no ano passado? Corrermos o risco novamente de sermos pisoteados pelos cavalos da tropa de choque?

Antes que Munhoz pudesse tentar responder as indagações, a sala começa a esvaziar. O horário destinado para a reunião esgotou-se e muitos têm de voltar para as classes. É troca de turno. Samira agradece a presença do orientador.