Mosquito da dengue não quer a Alca

Por Jorge Pereira Filho
EmCrise, 6/2/2002

Porto Alegre - A passeata parou. No prédio público ocupado por moradores sem-teto, tremulam bandeiras vermelhas. Numa sacada, um manifestante faz malabarismos: cospe fogo, joga tochas para o ar. "Ocupar, resistir, pra morar", gritam. O coro ganha força, espalha-se até mesmo entre aqueles, tímidos, que assistem da calçada o desfile de quem não acredita na Alca. Só os argentinos, ocupados com suas panelas, não acompanham. Continuam a cantar "que saiam todos", como fazem em Buenos Aires. E eis que no meio do povo, surge o mosquito da dengue, diretamente do Rio de Janeiro. Uma espécie diferente: não voa, mede quase um metro, pesa três quilos. E está na cabeça de José Antonio Conceição, o saquinho. Mas o que a dengue tem a ver com a Alca?

Antes, quem é José? José é carioca e desempregado. Trabalhava na Fundação Nacional de Saúde. Entrou lá em 88, era um mata-mosquito. "Ia nos lugares de difícil acesso, favelas, terrenos baldios, combater o bicho." Foi demitido em 99. Junto com outros 5 mil. Obra de quem? "Nosso excelentíssimo ministro José Serra resolveu municipalizar o serviço preventivo de saúde. Mandou todo mundo embora e deixou as prefeituras responsáveis pelo combate à dengue. Só não passou os recursos necessários".

Prédio público ocupado em Porto Alegre durante o Fórum Social Mundial (foto: André Deak)


(foto: Brígida Rodrigues)

Estado enxuto. Do jeitinho que pregam os bíblicos textos do FMI, do Banco Mundial, da globalização. Reduzir gastos. Privatizar. Abrir mercado. Alca. Dengue. Claro, a cartilha não fala dos gastos com publicidade, mas ser o Ministério que mais aparece na televisão é um título honrado para quem consegue conviver com antigas epidemias da humanidade, como a dengue, a febre amarela, a hipocrisia.

"Houve 33 suicídios na categoria." Os demitidos acamparam na Cinelândia, protestaram e nada conseguiram. José tem 49 anos. O mosquito da dengue, que carregou na cabeça durante os cinco dias do Fórum Social Mundial, nasceu em janeiro. Feito de isopor, tecido de algodão e arame. E as asas eram chapas do pulmão de uma criança.