O attac e a queda do socialismo

Por André Deak e Rodrigo Savazoni
EmCrise, 3/03/2002

Christophe Ventura, missionário internacional do Attac (Associação para Taxação das Transações Financeiras em Apoio aos Cidadãos), é um político profissional. Viaja o mundo desenvolvendo trabalhos para a organização na qual milita. No dia três de fevereiro, durante o Fórum Social Mundial, no Hotel Embaixador, ele conversou com o Em Crise. No luxuoso saguão, em uma mesa de mogno, o jovem militante falou sobre essa nova forma de atuação política, uma das forças motrizes do Fórum.

Em Crise - O Attac é um movimento revolucionário?

Christophe Ventura - Não temos esse vocabulário no Attac. Nós não queremos entrar nesse debate político, ser de esquerda ou de direita. Claro que cada um dos membros faz sua opção, mas a organização, em si, não.

Então existem pessoas de direita no Attac?

Sim. Se bem que as pessoas da extrema direita não se interessam pelo Attac, são mais da direita moderada. Temos mais pessoas mais próximas do centro, tanto de esquerda quanto de direita. Mas nós não queremos ser uma facção política, isso seria nossa ruína. Somos um movimento de cidadãos. Queremos ser independentes dos partidos, e isso começa por não falar de revolução. Acreditamos que é preciso tentar criar um outro sistema, e nesse ponto somos revolucionários, mas também acreditamos que temos que tratar dos nossos problemas mais urgentes, e fazer isso agora. Não é preto ou branco. Temos que superar essa idéia.

Trata-se de uma novidade no contexto político mundial?

Sim, claro. E essa é nossa força: apresentar uma proposta mais ampla do que as dimensões tradicionais. E nós nos consideramos mais democráticos que os partidos políticos. Os políticos têm suas responsabilidades, mas nós estamos aqui com outros objetivos, para pressioná-los. Todos nós sabemos como é feita essa política.

Então, o Attac não apóia candidatos políticos?

Não, porque não temos nada para negociar com eles. Nós somos outra coisa. Nós temos gente na Assembléia Nacional da França, grupos de deputados, que defende as idéias do Attac. Para nós isso é ótimo, não é um problema. Somos democráticos. Queremos mudar as coisas e não temos problemas com a política.

O que faz uma pessoa ter interesse pelo Attac?

As pessoas estão se sensibilizando com questões que dizem respeito ao mundo em que vivem, mas ao mesmo tempo, não querem fazer parte de um partido por várias razões. O Attac parece que pode suprir esse vazio: quando alguém procura a organização pode aprender muito sobre o mundo e a globalização em geral. Por exemplo, sobre economia, sociologia, o problema dos campesinos e especulações. Esse o nosso trabalho de educação popular, que é o centro, o coração do Attac. Nós pensamos que podemos agir através de ações nas ruas, mas também através das palavras. Falar e aprender também significa influir. Este é o nosso trabalho de fundo.

Existe uma grande unidade entre o FSM e o Attac... Mas não podemos descartar o valor de todos os outros movimentos. Eles são muito úteis. A diversidade é a riqueza. Podemos todos ter um lugar nessa luta.
Precisamos também dos sindicatos, que são organizações de trabalhadores. Eles são importantes na luta pelo trabalho, enquanto o Attac serve para pessoas que não querem agir dessa maneira, mas que querem participar de alguma forma.

Onde entra a taxa Tobin nesse discurso?

A taxa Tobin é muito útil, mas todos sabemos que não é a resposta aos problemas do mundo. Claro que não. Não se pode, só com a taxa Tobin, fazer um mundo melhor. Ela é, principalmente, uma forma de pedagogia útil, porque com ela, acredito que as pessoas podem perceber que há como inverter a lógica do poder, produzir uma ação social a partir dos mercados. É por isso que esse é um ponto central do movimento. As pessoas passam a perceber que podem mudar alguma coisa, deixam de achar que os mercados, o sistema, tudo é muito distante e não podem tocá-los. Com a taxa Tobin nós demonstramos
que é possível que a sociedade transforme a lógica dos mercados. E transformar os mercados é afetar a
globalização. Então, ela tem um objetivo muito pedagógico.

Mas ela é uma idéia liberal?

A taxa Tobin impede a liberdade de especulação de uma forma concreta. Além disso, ela serve para o desenvolvimento dos países que sofrem com a globalização. A idéia da taxa Tobin é como se o sistema reconhecesse que faz muito mal às pessoas e pagasse a elas por esse mal causado. Não é suficiente, mas é algo.

Se todos os países do mundo adotassem a taxa Tobin, o que o Attac teria a fazer?

Teríamos que fazer muita coisa ainda. A taxa Tobin é uma luta, mas existe a luta contra a OMC, a luta dos campesinos, dezenas de outras. Teríamos muito trabalho ainda.

Há os que dizem que o Attac é apenas uma marca, uma griffe que engloba todo tipo de movimento. O que você pensa disso?

Veja bem, no Paraguai, nunca se pôde fazer um movimento social até que surgiu o Attac, que juntou
sindicatos, campesinos, políticos e todos que queriam mudar a situação do país. Se as pessoas querem usar o nome do Attac, devem seguir nossa temática, fazer um contrato moral. Parece-me que o Attac responde a uma demanda das pessoas; não podemos dizer que isso é ruim.

Como você vê a situação do Attac no Brasil?

No Brasil, não podemos interferir no processo de criação do Attac. Tem que nascer aqui. Podemos falar, ajudar com algumas coisas, mas não podemos influir diretamente. Não existe um modelo completo, que se possa exportar. A situação da França não é a situação do Brasil. Cada país, com sua própria cultura, tem que desenvolver seu projeto. Esse é o desafio de cada um.

Mas os Attacs se ajudam? A luta de um é a luta de todos?

Esse foi o nosso primeiro congresso. É um momento de contato entre todos os Attac. Vamos ajudar uns aos outros no que pudermos. Mas não existe, por exemplo, uma estrutura internacional. Isso seria a morte do movimento. Somos uma rede. Temos contatos continentais, mas todos somos membros do Attac de algum país, não existe o Attac Internacional.

E qual é o próximo passo?

Precisamos de tempo para continuar esse trabalho de construção, desenvolver todas as temáticas e as posições que temos que defender juntos. Esse, aqui em Porto Alegre, foi somente o primeiro, não podemos
esperar um manifesto disso. Agora temos que desenvolver uma dinâmica e uma identidade mundial.

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