Educação e resistência

José Dias Sobrinho, um dos grandes especialistas em Avaliação do Ensino Superior do Brasil, resiste ao pensamento único e desmonta a lógica do mercado que vigora no país

Por André Deak, Lígia Ximenes e Rodrigo Savazoni
EmCrise – 27/07/2002

A porta do apartamento está aberta quando o elevador se abre; José Dias Sobrinho nos aguarda. Várias xícaras de café regam quase quatro horas de conversa. Bem-humorado, cartesiano, o professor da Unicamp minuciosamente explicou as razões do desmonte do ensino superior no Brasil; analisou os motivos que levaram nossa intelectualidade a aceitar a lógica mundial do neoliberalismo e narrou a história das avaliações institucionais desde sua gênese. Segundo ele, a falsa modernização levada a cabo pelo governo Fernando Henrique gerou cinco distorções: a crescente explosão da matrícula estudantil; a multiplicação de cursos que ele chama de pós-secundários; a redução dos investimentos públicos; a crescente participação do setor privado nas ofertas de serviço educacional; e o crescente controle do Estado liberal e flexível sobre o produto. O resultado é o desmonte do patrimônio cultural brasileiro, e das suas instituições de ensino. O coletivo EmCrise convida você a ler os principais trechos da aula que ele nos concedeu.

Se tivéssemos que ir ao centro do problema das Avaliações do Ensino Superior, aonde chegaríamos?
O cerne do problema é político. A avaliação do ensino que é feita na maior parte do mundo é sempre fundada no liberalismo - e agora, neoliberalismo. O que se faz hoje com o Provão, as Condições de Oferta, agora Condições de Ensino, é usá-los como instrumentos de mensuração. Isso vem da primeira geração daquilo que chamamos de todo processo histórico de avaliação, algo de um século e meio atrás. No final do século 19, começo do século 20. Faziam algo parecido com avaliação, mas que não passava de quantificação, mensuração. Podemos até voltar um pouco antes, ao século 18, em Napoleão. A França tem um processo de avaliação do ensino médio hoje parecido com o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), mas que fornece elementos para reflexão, para ver como está o ensino. Mas por que o exemplo desse exame? Lá, no início, as provas começaram a definir a pedagogia escolar. O trabalho de casa surgiu em 1808. O professor passava tarefas para o estudante fazer em casa e depois corrigia. Isso construiu determinada pedagogia, dita objetiva. O Provão repete essa visão. No caso do Provão, comparar instituições, fornecer informações sobre elas para o MEC aplicar sua política, mas, sobretudo, informar o mercado. O Provão é para o mercado. O mercado atingiu uma dimensão muito mais forte hoje. Como a educação superior tem uma função no mercado, e não para a sociedade, então o mercado precisa de instrumentos.

Para medir a "qualidade"?
É muito mais banal que isso. Quando você compra um produto, você tem que certificar-se de alguma forma, algo como...

Um selo de garantia?
Mais por aí. Quando você vai comprar um carro, você tem as informações técnicas para informar os clientes. O mercado pede isso. Claro que isso não vale para aqueles que têm uma formação melhor.

O Sr. está dizendo que o Provão é uma coisa antiga, mas certa vez perguntaram ao Paulo Renato "o Provão foi idéia sua?", ao que ele respondeu: "Essa foi. Caminhando na praia lá em São Paulo, bolei."
Esses exames gerais são antigos. Mas eu vi nos jornais, recentemente, que os Estados Unidos estariam importando o Provão do Brasil. É a mesma coisa que dizer que o milho é invenção brasileira. Agora, evidentemente que o Provão tem uma característica inovadora - e nesse ponto o Paulo Renato tem razão. Os exames gerais, nos outros países, têm uma finalidade pedagógica, e o Provão só tem uma finalidade punitiva, coercitiva. Nesse sentido, de policiar, vigiar, fiscalizar, regular a educação superior, é uma idéia dele. Nesse sentido o Provão é muito eficiente para o mercado. E foi por isso que ele pegou.

O ministro disse também, numa entrevista à revista Educação, que essa idéia de avaliação institucional, à maneira do Provão, já havia sido testada na Unicamp. É verdade?
Não. Isso ele está chutando. Ele foi reitor de 86 a 89, começo de 90. Eu fui pró-reitor de 90 a 94. E aí sim fizemos uma avaliação institucional que veio a ser a grande inspiração para o Paiub (Programa de Avaliação Institucional da Universidade Brasileira). A única "avaliação" que existia durante a gestão do Paulo Renato era a contabilização de produtos científicos dos professores. Nada relativo ao ensino.

Qual é a semente, a justificativa para que o governo FHC inserisse esse tipo de avaliação institucional. O que disparou o processo?
O Banco Mundial. Mas temos que pensar não só nele, mas em todo conjunto de organismos multilaterais, como a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), na Europa. Todos têm um papel ideológico e prático na transformação da universidade e em um modelo de avaliação. Quando falo no Banco Mundial, é porque ele tem uma grande importância para nós. Seu papel não é apenas o de emprestar dinheiro, mas de impor uma política, um conceito, um modelo de avaliação superior. Mas eu queria lembrar também que o Banco Mundial não é simplesmente uma agência demoníaca que está lá nos EUA pensando em sacos de maldades para jogar no terceiro mundo. Tem que haver uma participação local favorável à implantação dessas políticas.

Mas qual é a relação de troca? Que interesse alguns intelectuais daqui teriam para aceitar essas políticas?
Do lado de lá, é uma motivação meramente econômica. Impor um determinado modelo econômico: o neoliberalismo. O Banco Mundial é apenas um instrumento para isso. Aqui análise é um pouco mais delicada; entra uma certa convicção, uma certa adesão ao neoliberalismo mesmo antes dele assumir esse caráter no mundo e no Brasil. Na década de 80, alguns intelectuais propunham determinadas idéias e assim que tiveram chance de assumir o poder, cargos importantes, de até segundo escalão, começaram a colocar em prática essas idéias. Por exemplo: a diminuição de tempo para o mestrado. Colocaram os prazos, as guilhotinas, dois anos, três, quatro no máximo. Isso faz hoje com que a pós-graduação fique "muito mais" produtiva. Aumentou o número de doutores e mestres, mas a profundidade das pesquisas não existe. Hoje o que importa são os números. Quanto maior for esse número, maior seria a qualidade, ou o conceito. O pesquisador dificilmente vai se interessar em escrever livros, ou se interessar em pesquisas de longo prazo.

Na prática pode se perceber que a produção aumentou, mas diminuiu a qualidade? O mercado consegue enxergar isso?
O mercado? Acho que não. Ele precisa de uma formação mais técnica e imediatista, para suprir o emprego rápido. Por isso que as escolas privadas se saem bem no mercado. Outro dia saiu uma pesquisa. Nela, dizia que os grandes empresários saíram todos de escolas privadas. É lógico! Está dentro da lógica. Eles realmente estão mais ajustados a essa formação técnica. O produto é aquele mesmo. E é lógico também que as escolas privadas pressionem o MEC para colocar a nota do Provão no diploma. Isso define bem o valor de mercado.

Quais são as tendências na educação superior produzidas por todas essas reformas?
São quatro ou cinco pontos. O primeiro é a crescente explosão de matrículas. Há uma tendência de baixo para cima, nas camadas mais jovens. Na medida em que se amplia a base da educação fundamental, que depois passam para a educação média... E há toda uma pedagogia de promoção automática, há uma pressão maior também na educação superior. Embora também seja mais quantitativa que qualitativa.

O Inep diz que o número de matrículas em 2000 foi de 2,7 milhões. Desses estudantes, 1,8 milhão estão cursando o ensino privado. Mas há outro dado interessante: a queda entre os que passam no vestibular e depois abandonam é absurda. O que pode ter relação com o valor da mensalidade, não?
A idéia deles eram realmente aumentar a taxa de estudantes no ensino superior - o que é desejável. Estamos numa faixa de 12% de estudantes entre 18 e 24 anos matriculados no ensino superior. O Estado de São Paulo tem 8,5%. A média da América Latina é de 17,7%. O Brasil só ganha, com esses 12%, de países como... Bom, perde para a Bolívia, Costa Rica... O Chile tem mais de 30%, a Argentina tem 40%. Os Estados Unidos deve ter algo por volta de 70%. Isso é o que chamam de universalização. A Europa também deve chegar nesse nível. Agora, desde 1968 existe a política de facilitar a abertura de cursos. Mas essa ampliação hoje se tornou muito mais agressiva. No ano passado, nos três primeiros meses, foram criados dois cursos e meio por dia no ensino superior. O que me preocupa é que existe um teto econômico. Porque a oferta aumenta na iniciativa privada, não na pública. As escolas públicas, federais, estaduais e municipais, sofrem a redução de investimentos. A expansão ocorre, sobretudo, na iniciativa privada. Evidentemente que muitos podem pagar, e estão pagando, mas tem limites.

O Di Gênio, dono da Unip (Universidade Paulista), maior instituição privada de ensino do País, disse que quem pode pagar pelo ensino no Brasil já está pagando.
Se você pensar muito grosseiramente, 52% ganham menos do que dois salários mínimos. Sobra muito pouca gente que conseguiria pagar por educação superior. Mas para dar vazão eles defendem a rápida multiplicação e diversificação dos cursos pós-secundários. É uma expressão muito mais frouxa que Educação Superior. Comporta os tais cursos seqüenciais, que não são cursos superiores. É algo que vem depois do secundário. Esses cursos de "cara" nova, para a chamada absorção de demanda. O mercado quer alguém formado em massoterapia. Então cria o curso superior disso.

Como o curso de piloto de reserva, que o ministro da Educação quer criar.
A Estácio de Sá tem até curso de Triatlo. Bom, mas existem alguns bem feitos, como moda, sites, coisas que caracterizam novos interesses do mercado, mas não da sociedade. E tem os "famosos" MBAs... Seguindo essa tendência poderíamos citar também os mestrados profissionalizantes. E isso entrou até nas boas universidades. Antes se pensava na USP como uma instituição complexa que oferecia cursos em diversos setores do conhecimento humano, atendia às necessidades de ensino, pesquisa e extensão. Hoje você já tem os centros universitários, que atendem a certas áreas apenas. Não precisa de pesquisa, pode ficar só com ensino, por exemplo. E com a extensão, que é a fonte de dinheiro, a captação de recursos deles.

Dos 184 mil docentes em exercício, 104 mil estão em instituições privadas. Isso é um reflexo dessa privatização do ensino?
Acho que tem várias nuances. Primeiro: a formação dos professores é mais completa na educação pública. Ou seja, os professores com titulação de mestrado, doutorado, pós-doutorado, que têm condições de se dedicar muito mais ao ensino e pesquisa, estão na pública. Há mais ou menos uma equivalência, da proporção de mestres, mas com doutorado as públicas ganham disparado. A privada recruta doutores apenas na medida burocraticamente exigida. Depois de recebida a visita do MEC, eles despacham os doutores, mandam embora. Só seguram aqueles que têm um perfil melhor.

Talvez porque a pessoa tem o doutorado atingiu um nível de pensamento crítico que não condiz com a universidade privada?
Exato, não tem o perfil. Não vai se submeter a salas de aula com dezenas de alunos. Está "mal acostumado", no bom sentido. Outra coisa: a formação de professor, em nível de pós-graduação, é feita 90% nas públicas. Então, mesmo os que estão trabalhando nas escolas privadas, foram formados nas públicas. É o dinheiro e o conhecimento público sendo transferido para a iniciativa privada.

A revisão salarial resolveria esse problema?
Acho que em parte. Porque sem dúvida o professor da pública prefere ficar lá porque tem condições de fazer pesquisa, encontrar pensamento crítico. Mas tem um ponto em que ele é jogado para fora. Existe também uma lógica de privatização, que difere um pouco de outros setores econômicos. No mundo econômico você tem um banco, estatal, que você vende para a iniciativa privada. Assim como estradas, telefonia, enfim. A relação é meramente comercial, apesar do fundo político e ideológico. Na educação, você não vai vender a universidade. Não existe um interesse para a lógica do capital, por exemplo, em manter pesquisas funcionando na USP, por exemplo. Então é uma pseudo-privatização. Você faz por dentro. Cria fundações e elas fazem intermediações entre as faculdades e as empresas. E o professor passa a vender pesquisa. Não aquela básica, mas aquela útil para o mercado. Pesquisas encomendadas pelas empresas.

Como ficam as incubadoras de empresas dentro da USP?
Elas podem fazer parte dessa lógica. Como todo trabalho de atividade e extensão, são muito importantes, mas só têm valor desde que nunca percam o sentido público. Ou seja, algo voltado para a sociedade no sentido mais amplo. O interesse de mercado é outra coisa. Aí é preciso fazer a distinção entre ética e mercado. O mercado não possui ética. Tem interesses. A sociedade trabalha com os princípios éticos: a democracia, o bem estar mais amplo, a felicidade, a cooperação, ao passo que o mercado trabalha com lucro, produtividade, excelência, eficiência. As incubadoras deveriam estar formando gente dentro de um processo mais amplo, com utilidade de mercado, mas antes disso, com uma função pública de formação de cidadão. Isso a universidade está perdendo. Se perde a parte ética, eu não concordo. Só entendo a formação como uma coisa mais plena, que cria valores humanos, que estende a vida, fortalece a democracia. Aceito a formação técnica submetida a isso. Acho que o desenvolvimento da humanidade depende também da formação técnica, mas não pode ficar só nisso. Senão eu considero a técnica neutra, e aí vale tudo.

Mas a lógica que impera hoje é a do mercado. Não a da Ética...
A universidade está constrangida por pelo menos dois fatores de pressão: o mercado e o governo - que seria o Estado. Esse último controla, regula, mas ao mesmo tempo liberaliza os processos, para que a iniciativa privada aumente a oferta. Não controla a entrada, mas controla a saída, os produtos. Aí entram os sistemas de avaliação, o provão, etc. O mercado constrange a universidade porque pressiona para que os formados tenham um certo perfil - e aí coincide com o modelo final que o governo espera do aluno. Isso faz com que a cara da universidade se transforme internamente. Mesmo que queira preservar valores da autonomia, vai sendo minada e vai transferindo seus esforços para a mentalidade de mercado.

Mas existe uma resistência a isso, não é?
Hoje, nunca falamos tanto de universidade pública, de sentido público, quanto agora. É uma forma de resistência. Se eu entendo educação e formação como bens públicos, elementares, toda instituição deveria ser pública. Mesmo que mantida pela iniciativa privada, deveria ter um sentido público. Mas não tem. E mesmo as instituições públicas perdem esse sentido para a ideologia de mercado, para essas pressões.

As greves, então, e os boicotes do Provão, têm uma capacidade de chamar a sociedade para o debate, levar a informação para a opinião pública?
Existe uma dificuldade muito grande já dentro da própria instituição. Nós hoje não conseguimos explicar para a sociedade, que está dominada pela ideologia de mercado. A própria mídia ajuda muito a divulgar a lógica de mercado. Mas dentro também não conseguimos. Autonomia universitária, fóruns públicos, é difícil levantar isso.

Para o estudante também é complicado: você vai chamar um aluno e ele se vê como um consumidor.
Claro. Eles reproduzem a falta de ética que está no mercado: brigas por vagas, promoções do tipo "quem trouxer tantos alunos não paga rematrícula". E, depois, o que importa para os cursos? Mostro para vocês uma cartilha, do presidente da Associação Brasileira das Mantenedoras do Ensino Superior. Olha o que diz!!! Funções do coordenador: "ele é responsável pelo sucesso de cada estudante no Provão". É literal. Aí o que algumas escolas privadas mais carentes fazem. Pegam disciplinas básicas, que por ser básica deveria estar no começo, e colocam no último semestre, perto da prova. Tudo bem. Vai, até acho que deve existir quem gosta de começar a construir uma casa pela pintura... Mas e os concursos? Dar prêmio, transformar a formação num curso de sucesso no Provão. Isso é absurdo.

É tudo um grande absurdo!
Mas olhem, outra coisa interessante são as franquias. Um terço do ensino privado, fundamental e médio pertence a franquias. Um terço! Isso são números do ano passado. Este ano talvez já seja maior, porque o crescimento é exponencial. E o que tem de interessante nisso? É que eles fornecem pacotes. Ou seja, qualquer pessoa pode investir. Como lojas do McDonalds ou postos de gasolina. Você tem desde a parte arquitetônica da escola até o currículo. Aliás, se você entende o currículo como algo construído com professor e alunos, ele então não existe. O professor é um técnico. Ele apenas repassa conforme vem escrito. Se fugir disso está fora.

Várias faculdades hoje são assim...
Várias. O que é importante frisar aí é a desprofissionalização. O professor deixa de ser um docente, alguém que reflete sobre sua prática; passa a ser simplesmente como um executor de programa. Aí o Provão está congelando um tipo de currículo, que será feito pela repetição das provas, e ajudando nesse processo.

Mas isso é uma contradição, porque o governo, teoricamente, construiu vários parâmetros, os tais PCN, aí no Enem faz um recorte direto...
...Sem levar em conta as especifidades regionais. Um professor de Belém estava dizendo que um pessoal foi mal na prova de veterinária, do Provão, porque caíram questões sobre um determinado tipo de gado que só tem no sul. Como também falar em maçã no Ceará é complicado. A maioria das crianças lá não conhece. Ou falar de cajá mais ao sul. E existe uma coisa mais grave ainda: você não pode averiguar a aprendizagem numa situação de abstração geral. Um exame nacional vai, quando muito, verificar desempenhos, naquele momento, gerais. Mas nunca a aprendizagem, que é uma questão muito mais pessoal, de todo o processo. E mais: vincular a avaliação a financiamentos acaba sendo a prática do darwinismo social. As grandes universidades vão receber mais recursos e aqueles mais carentes cada vez menos. E como o número de estudantes também é fonte de recursos para as públicas, acaba gerando um outro problema: ninguém mais é jubilado. Se jubilar um estudante, ela perde recursos.

Sobre o discurso do Paulo Renato no início da gestão, de criar centros de excelência, o que o Sr. acha disso?
Essa é uma discussão que já vinha até mesmo antes do atual governo. Haveria 10 ou 12 centros de excelência no país e os outros teriam que batalhar para isso. Mas isso, politicamente, não pega bem. Embora se pratique. São aquelas instituições que demonstram melhor desempenho, dentro dessa lógica, e acabam recebendo mais recursos. A lógica é deixar que as pesquisas sejam feitas nos grandes centros, e transformar o sistema em um grande provedor de ensino de graduação.

Se justamente o desenvolvimento de pesquisa é o que permite criar inovações tecnológicas que vão render lucros para o mercado, por que acontece justamente o inverso aqui?
É a grande lógica da globalização, que eu chamaria não de globalização, mas de americanização do mundo. Não interessa ao grande capital internacional que os países emergentes tenham sistemas próprios de pesquisa. Essa é a lógica do Banco Mundial, do FMI... A grande pesquisa é necessária para o desenvolvimento do grande capital internacional - do qual estamos fora. A pesquisa feita no terceiro mundo só é feita na medida em que interesse ao desenvolvimento regional, que aumente à capacidade de consumo. Ter mais gente na escola não atende exclusivamente aos nobres propósitos de melhorar a humanidade e elevar a consciência humana, mas sobretudo aumentar a base de consumidores. Isso é um paradoxo mundial também. Fala-se na sociedade do conhecimento. De fato, a tecnologia se desenvolveu como nunca antes, a medicina, mas se esquece que 4,5 bilhões - 2/3 da humanidade!!! - não têm acesso aos meios mais elementares da tecnologia, como eletricidade, água potável. Pelo menos um terço vive na miséria. Bom, mas se 2/3 não têm acesso à tecnologia, então estão fora da sociedade.

O Fernando Henrique chegou a dizer que "na globalização não existe espaço para todos". O que fazer com os que sobram?
O que caracteriza o Estado? É aquele ente que vai prover à sociedade direitos básicos do cidadão. Por exemplo, segurança: todo cidadão tem o direito de levar uma vida segura. Temos esse direito hoje? Então criamos um aparato paralelo, para nos prover segurança. Direito à educação. À saúde. A emprego. Mas o próprio Estado diz que hoje o desemprego é estrutural. O que quer dizer que ele não tem o dever de dar emprego para ninguém, que é uma questão individual. Se você tem é competente, se não tem é incompetente.

Esse discurso da incompetência sempre existiu, mas chegou a uma generalização onde a maioria da população é incompetente.
Mas isso continua dentro daquela lógica. É preciso dar escola para todos, mas isso não basta. A escola amplia a base de consumo, mas não os transforma em produtores. Mesmo a educação é distribuída de acordo com os interesses do mercado. O Banco Mundial propõe, explicitamente, que os Estados invistam menos em educação superior, porque dizem que a educação superior traz menos retorno econômico. Isso em 1993. Aí todos os Estados reduziram, cortaram os investimentos. No Brasil, entre 95 e 99, houve uma redução de R$ 3,2 bilhões. O Banco Mundial hoje já fez mea culpa. Disse que "estavam errados", que a educação superior dá mais retorno. Mas e a Argentina, como fica?

E como se reverte um quadro desse?
Não há interesse no governo de se escutar essa segunda parte, essa mea culpa, porque tem uma dívida externa a ser paga. E há todo um arsenal estatístico muito competente, para mostrar que a Educação melhorou: antes havia não sei quantos estudantes no ensino fundamental, agora são 97%. Então, houve um aumento. Há mais mestres, mais doutores... São números importantes, que a primeira vista impressionam.

Como se poderia denunciar a mentira?
Seria preciso fazer um estudo com esses números. Por exemplo, o governo federal não está fazendo uma campanha contra o trabalho infantil? Isso significa que tem muita criança trabalhando. Bom, mas se todas estão na escola, alguma coisa está errada. Vamos supor que os números estão corretos, realmente há esse número de matrículas, quase 100%. Mas quantos estão terminando? A evasão, no Estado de São Paulo, deve estar entre 15% e 16%, e no interior a realidade deve ser bem pior. A merenda é uma coisa importante para mudar isso: é um programa que deve segurar as crianças na escola, suponho que para muita gente deve ser a melhor refeição do dia.

Mas qual é a sua avaliação do ensino público hoje?
Preocupa-me a desvalorização da educação pública. A gente sabe que tem muita gente que chega à oitava série sem estar alfabetizado. Por outro lado é perigoso dizer que toda alfabetização pública é ruim. Primeiro, no interior de São Paulo há escolas públicas melhores que as privadas. A tendência é que nos grandes centros ela se deteriore, mas no interior a pedagogia é mais valorizada. Não dá para generalizar. O que deveríamos fazer é investir em escola pública. Não adianta pensar em universidade sem pensar em melhorar a base, a formação. No Brasil não existe nada assim. No governo Clinton, por exemplo, a atenção à escola pública foi muito forte. O Clinton ia às reuniões de pais e mestres da escola onde a filha dele estudava, participava de discussões eletrônicas, chats, um envolvimento em nível nacional.

Você acha que esse governo vai fechar alguma faculdade?
Não, claro. Mesmo porque esse negócio de fechar é complicado. O ministro ameaçou de fechar. Mas se for universidade, não pode, pela constituição. Se for particular, vamos ver de quem é. É complicado. Além disso, e os alunos? Vão ser transferidos do curso A para o curso B. Mas os alunos do curso A não fizeram o vestibular do curso B. Digamos que eu não tenha passado no vestibular do curso B, mas vejo um monte de gente entrando sem fazer. Então vou entrar na Justiça. E como justificar que um curso B vai receber alunos de um curso que é ruim. Os alunos são ruins também? Se são, porque vão entrar direto no curso B? Na prática, é complicado, devido a essa questão legal. Muita gente pode se julgar prejudicada. O contrário também ocorreu recentemente: o ministro autorizou o aumento de vagas no curso de Direito. A OAB, no Supremo, ganhou. Não é assim. E não adianta só mudar cursos com conceito, porque esse modelo não garante que os cursos A e B estejam bem.

E o futuro? Onde vamos chegar com isso tudo, seguindo essa lógica?
Isso está dentro de algo maior, que é o neoliberalismo. Acredito que o neoliberalismo vá acabar um dia, se transformar para melhor, ou para pior. Acho que vamos ter que recuperar alguns valores, como a solidariedade, a ética.

Seriam os valores da Revolução Francesa?
Acho que trabalhamos com duas coisas: a saudade e a esperança. Tínhamos valores mais humanos. Não serão os mesmos, já que a tecnologia se incorporou à vida moderna, mas vamos ter que recuperar pelo menos esse horizonte. E a universidade está dentro desse conjunto de instituições que um dia vai ter que colocar a economia em segundo plano. Se você estender até o limite essa linha da ética do mercado, vai haver um conflito humano internacional em que os valores humanos serão apagados. Se você não tem o público, o social, como valor, acaba valendo tudo, não é? Tudo é válido. Vale o sucesso individual: a minha carreira, a minha vida. Então, é a competitividade levada ao extremo. E aí, passo a agir da maneira que me dê mais sucesso, mesmo que para isso use de violência, cometa corrupção. Se o social não existe, tudo é permitido.

Você é favorável ao boicote ao Provão?
Eu sou favorável a todo tipo de resistência. Mas é preciso ter uma certa inteligência na organização. Eu comparo o boicote com aquela tática do impedimento do Futebol. Se todo mundo vai, tudo bem. Mas num determinado momento ocorre um erro, alguém não vai, o juiz não vê... Perde tudo. E a informação sai deturpada, começam a pensar que as faculdades são ruins, se não houver um trabalho de informação. Os professores também deveriam ter um movimento de resistência. A minha forma é trabalhando, estudando o assunto. Essa é minha forma de resistência.

Professor, muito obrigado.
Não há de que.

José Dias Sobrinho é doutor pela Universidade de Campinas (Unicamp) e tem pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales e na Ecole Normale Supérieure, de Paris. Foi diretor da Faculdade de Educação da Unicamp, pró-reitor de pós-graduação, presidente da Comissão de Avaliação e Desenvolvimento e coordenador da avaliação intitucional. Atualmente, preside a Rede de Avaliação Institucinal da Educação Superior (Raies) e é editor da revista Avaliação.

José Dias Sobrinho mostrou-nos o seguinte quadro sobre Ensino Superior, utilizado em suas palestras:

Universidade para o Mercado
Função econômica
Avaliação=Controle
Universidade para a Sociedade
Função social
Avaliação educativa
Eficiência, lucro, produtividade, competitividade, operacionalidade, racionalidade instrumental, ética subjetivista, sucesso individual Relevância social, eqüidade, pertinência, democracia, cidadania, solidariedade, ética social, desenvolvimento da sociedade
Ênfase em resultados e produtos específicos, segundo a lógica competitiva Ênfase em processos globais, segundo a lógica dos interesses da sociedade
Controlar a qualidade como quantidade de produtos e aumentar a competitividade, segundo a lógica do mercado e do sucesso individual. Informar o mercado (clientes) e a administração central (para fins de regulação e fiscalização) Melhorar/construir a educação cooperativamente, segundo a lógica da qualidade social e do sentido público. Informação pública com finalidade de formar melhor, consolidar a instituição, melhorar a função social