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Educação
e resistência
José Dias Sobrinho, um dos grandes
especialistas em Avaliação do Ensino Superior do Brasil,
resiste ao pensamento único e desmonta a lógica do mercado
que vigora no país
Por André
Deak, Lígia
Ximenes e Rodrigo Savazoni
EmCrise 27/07/2002
A porta do apartamento está aberta
quando o elevador se abre; José Dias Sobrinho nos aguarda. Várias
xícaras de café regam quase quatro horas de conversa. Bem-humorado,
cartesiano, o professor da Unicamp minuciosamente explicou as razões
do desmonte do ensino superior no Brasil; analisou os motivos que levaram
nossa intelectualidade a aceitar a lógica mundial do neoliberalismo
e narrou a história das avaliações institucionais
desde sua gênese. Segundo ele, a falsa modernização
levada a cabo pelo governo Fernando Henrique gerou cinco distorções:
a crescente explosão da matrícula estudantil; a multiplicação
de cursos que ele chama de pós-secundários; a redução
dos investimentos públicos; a crescente participação
do setor privado nas ofertas de serviço educacional; e o crescente
controle do Estado liberal e flexível sobre o produto. O resultado
é o desmonte do patrimônio cultural brasileiro, e das suas
instituições de ensino. O coletivo EmCrise convida
você a ler os principais trechos da aula que ele nos concedeu.
Se tivéssemos
que ir ao centro do problema das Avaliações do Ensino Superior,
aonde chegaríamos?
O cerne do problema é político. A avaliação
do ensino que é feita na maior parte do mundo é sempre fundada
no liberalismo - e agora, neoliberalismo. O que se faz hoje com o Provão,
as Condições de Oferta, agora Condições de
Ensino, é usá-los como instrumentos de mensuração.
Isso vem da primeira geração daquilo que chamamos de todo
processo histórico de avaliação, algo de um século
e meio atrás. No final do século 19, começo do século
20. Faziam algo parecido com avaliação, mas que não
passava de quantificação, mensuração. Podemos
até voltar um pouco antes, ao século 18, em Napoleão.
A França tem um processo de avaliação do ensino médio
hoje parecido com o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), mas
que fornece elementos para reflexão, para ver como está
o ensino. Mas por que o exemplo desse exame? Lá, no início,
as provas começaram a definir a pedagogia escolar. O trabalho de
casa surgiu em 1808. O professor passava tarefas para o estudante fazer
em casa e depois corrigia. Isso construiu determinada pedagogia, dita
objetiva. O Provão repete essa visão. No caso do Provão,
comparar instituições, fornecer informações
sobre elas para o MEC aplicar sua política, mas, sobretudo, informar
o mercado. O Provão é para o mercado. O mercado atingiu
uma dimensão muito mais forte hoje. Como a educação
superior tem uma função no mercado, e não para a
sociedade, então o mercado precisa de instrumentos.
Para medir
a "qualidade"?
É muito mais banal que isso. Quando você compra um produto,
você tem que certificar-se de alguma forma, algo como...
Um selo
de garantia?
Mais por aí. Quando você vai comprar um carro, você
tem as informações técnicas para informar os clientes.
O mercado pede isso. Claro que isso não vale para aqueles que têm
uma formação melhor.
O Sr.
está dizendo que o Provão é uma coisa antiga, mas
certa vez perguntaram ao Paulo Renato "o Provão foi idéia
sua?", ao que ele respondeu: "Essa foi. Caminhando na praia
lá em São Paulo, bolei."
Esses exames gerais são antigos. Mas eu vi nos jornais, recentemente,
que os Estados Unidos estariam importando o Provão do Brasil. É
a mesma coisa que dizer que o milho é invenção brasileira.
Agora, evidentemente que o Provão tem uma característica
inovadora - e nesse ponto o Paulo Renato tem razão. Os exames gerais,
nos outros países, têm uma finalidade pedagógica,
e o Provão só tem uma finalidade punitiva, coercitiva. Nesse
sentido, de policiar, vigiar, fiscalizar, regular a educação
superior, é uma idéia dele. Nesse sentido o Provão
é muito eficiente para o mercado. E foi por isso que ele pegou.
O ministro
disse também, numa entrevista à revista Educação,
que essa idéia de avaliação institucional, à
maneira do Provão, já havia sido testada na Unicamp. É
verdade?
Não. Isso ele está chutando. Ele foi reitor de 86 a
89, começo de 90. Eu fui pró-reitor de 90 a 94. E aí
sim fizemos uma avaliação institucional que veio a ser a
grande inspiração para o Paiub (Programa de Avaliação
Institucional da Universidade Brasileira). A única "avaliação"
que existia durante a gestão do Paulo Renato era a contabilização
de produtos científicos dos professores. Nada relativo ao ensino.
Qual é
a semente, a justificativa para que o governo FHC inserisse esse tipo
de avaliação institucional. O que disparou o processo?
O Banco Mundial. Mas temos que pensar não só nele, mas
em todo conjunto de organismos multilaterais, como a OCDE (Organização
para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), na Europa.
Todos têm um papel ideológico e prático na transformação
da universidade e em um modelo de avaliação. Quando falo
no Banco Mundial, é porque ele tem uma grande importância
para nós. Seu papel não é apenas o de emprestar dinheiro,
mas de impor uma política, um conceito, um modelo de avaliação
superior. Mas eu queria lembrar também que o Banco Mundial não
é simplesmente uma agência demoníaca que está
lá nos EUA pensando em sacos de maldades para jogar no terceiro
mundo. Tem que haver uma participação local favorável
à implantação dessas políticas.
Mas qual
é a relação de troca? Que interesse alguns intelectuais
daqui teriam para aceitar essas políticas?
Do lado de lá, é uma motivação meramente econômica.
Impor um determinado modelo econômico: o neoliberalismo. O Banco
Mundial é apenas um instrumento para isso. Aqui análise
é um pouco mais delicada; entra uma certa convicção,
uma certa adesão ao neoliberalismo mesmo antes dele assumir esse
caráter no mundo e no Brasil. Na década de 80, alguns intelectuais
propunham determinadas idéias e assim que tiveram chance de assumir
o poder, cargos importantes, de até segundo escalão, começaram
a colocar em prática essas idéias. Por exemplo: a diminuição
de tempo para o mestrado. Colocaram os prazos, as guilhotinas, dois anos,
três, quatro no máximo. Isso faz hoje com que a pós-graduação
fique "muito mais" produtiva. Aumentou o número de doutores
e mestres, mas a profundidade das pesquisas não existe. Hoje o
que importa são os números. Quanto maior for esse número,
maior seria a qualidade, ou o conceito. O pesquisador dificilmente vai
se interessar em escrever livros, ou se interessar em pesquisas de longo
prazo.
Na prática pode se perceber que a produção aumentou,
mas diminuiu a qualidade? O mercado consegue enxergar isso?
O mercado? Acho que não. Ele precisa de uma formação
mais técnica e imediatista, para suprir o emprego rápido.
Por isso que as escolas privadas se saem bem no mercado. Outro dia saiu
uma pesquisa. Nela, dizia que os grandes empresários saíram
todos de escolas privadas. É lógico! Está dentro
da lógica. Eles realmente estão mais ajustados a essa formação
técnica. O produto é aquele mesmo. E é lógico
também que as escolas privadas pressionem o MEC para colocar a
nota do Provão no diploma. Isso define bem o valor de mercado.
Quais
são as tendências na educação superior produzidas
por todas essas reformas?
São quatro ou cinco pontos. O primeiro é a crescente explosão
de matrículas. Há uma tendência de baixo para cima,
nas camadas mais jovens. Na medida em que se amplia a base da educação
fundamental, que depois passam para a educação média...
E há toda uma pedagogia de promoção automática,
há uma pressão maior também na educação
superior. Embora também seja mais quantitativa que qualitativa.
O Inep
diz que o número de matrículas em 2000 foi de 2,7 milhões.
Desses estudantes, 1,8 milhão estão cursando o ensino privado.
Mas há outro dado interessante: a queda entre os que passam no
vestibular e depois abandonam é absurda. O que pode ter relação
com o valor da mensalidade, não?
A idéia deles eram realmente aumentar a taxa de estudantes
no ensino superior - o que é desejável. Estamos numa faixa
de 12% de estudantes entre 18 e 24 anos matriculados no ensino superior.
O Estado de São Paulo tem 8,5%. A média da América
Latina é de 17,7%. O Brasil só ganha, com esses 12%, de
países como... Bom, perde para a Bolívia, Costa Rica...
O Chile tem mais de 30%, a Argentina tem 40%. Os Estados Unidos deve ter
algo por volta de 70%. Isso é o que chamam de universalização.
A Europa também deve chegar nesse nível. Agora, desde 1968
existe a política de facilitar a abertura de cursos. Mas essa ampliação
hoje se tornou muito mais agressiva. No ano passado, nos três primeiros
meses, foram criados dois cursos e meio por dia no ensino superior. O
que me preocupa é que existe um teto econômico. Porque a
oferta aumenta na iniciativa privada, não na pública. As
escolas públicas, federais, estaduais e municipais, sofrem a redução
de investimentos. A expansão ocorre, sobretudo, na iniciativa privada.
Evidentemente que muitos podem pagar, e estão pagando, mas tem
limites.
O Di Gênio,
dono da Unip (Universidade Paulista), maior instituição
privada de ensino do País, disse que quem pode pagar pelo ensino
no Brasil já está pagando.
Se você pensar muito grosseiramente, 52% ganham menos do que
dois salários mínimos. Sobra muito pouca gente que conseguiria
pagar por educação superior. Mas para dar vazão eles
defendem a rápida multiplicação e diversificação
dos cursos pós-secundários. É uma expressão
muito mais frouxa que Educação Superior. Comporta os tais
cursos seqüenciais, que não são cursos superiores.
É algo que vem depois do secundário. Esses cursos de "cara"
nova, para a chamada absorção de demanda. O mercado quer
alguém formado em massoterapia. Então cria o curso superior
disso.
Como o
curso de piloto de reserva, que o ministro da Educação quer
criar.
A Estácio de Sá tem até curso de Triatlo. Bom, mas
existem alguns bem feitos, como moda, sites, coisas que caracterizam novos
interesses do mercado, mas não da sociedade. E tem os "famosos"
MBAs... Seguindo essa tendência poderíamos citar também
os mestrados profissionalizantes. E isso entrou até nas boas universidades.
Antes se pensava na USP como uma instituição complexa que
oferecia cursos em diversos setores do conhecimento humano, atendia às
necessidades de ensino, pesquisa e extensão. Hoje você já
tem os centros universitários, que atendem a certas áreas
apenas. Não precisa de pesquisa, pode ficar só com ensino,
por exemplo. E com a extensão, que é a fonte de dinheiro,
a captação de recursos deles.
Dos 184
mil docentes em exercício, 104 mil estão em instituições
privadas. Isso é um reflexo dessa privatização do
ensino?
Acho que tem várias nuances. Primeiro: a formação
dos professores é mais completa na educação pública.
Ou seja, os professores com titulação de mestrado, doutorado,
pós-doutorado, que têm condições de se dedicar
muito mais ao ensino e pesquisa, estão na pública. Há
mais ou menos uma equivalência, da proporção de mestres,
mas com doutorado as públicas ganham disparado. A privada recruta
doutores apenas na medida burocraticamente exigida. Depois de recebida
a visita do MEC, eles despacham os doutores, mandam embora. Só
seguram aqueles que têm um perfil melhor.
Talvez
porque a pessoa tem o doutorado atingiu um nível de pensamento
crítico que não condiz com a universidade privada?
Exato, não tem o perfil. Não vai se submeter a salas
de aula com dezenas de alunos. Está "mal acostumado",
no bom sentido. Outra coisa: a formação de professor, em
nível de pós-graduação, é feita 90%
nas públicas. Então, mesmo os que estão trabalhando
nas escolas privadas, foram formados nas públicas. É o dinheiro
e o conhecimento público sendo transferido para a iniciativa privada.
A revisão
salarial resolveria esse problema?
Acho que em parte. Porque sem dúvida o professor da pública
prefere ficar lá porque tem condições de fazer pesquisa,
encontrar pensamento crítico. Mas tem um ponto em que ele é
jogado para fora. Existe também uma lógica de privatização,
que difere um pouco de outros setores econômicos. No mundo econômico
você tem um banco, estatal, que você vende para a iniciativa
privada. Assim como estradas, telefonia, enfim. A relação
é meramente comercial, apesar do fundo político e ideológico.
Na educação, você não vai vender a universidade.
Não existe um interesse para a lógica do capital, por exemplo,
em manter pesquisas funcionando na USP, por exemplo. Então é
uma pseudo-privatização. Você faz por dentro. Cria
fundações e elas fazem intermediações entre
as faculdades e as empresas. E o professor passa a vender pesquisa. Não
aquela básica, mas aquela útil para o mercado. Pesquisas
encomendadas pelas empresas.
Como ficam
as incubadoras de empresas dentro da USP?
Elas podem fazer parte dessa lógica. Como todo trabalho de atividade
e extensão, são muito importantes, mas só têm
valor desde que nunca percam o sentido público. Ou seja, algo voltado
para a sociedade no sentido mais amplo. O interesse de mercado é
outra coisa. Aí é preciso fazer a distinção
entre ética e mercado. O mercado não possui ética.
Tem interesses. A sociedade trabalha com os princípios éticos:
a democracia, o bem estar mais amplo, a felicidade, a cooperação,
ao passo que o mercado trabalha com lucro, produtividade, excelência,
eficiência. As incubadoras deveriam estar formando gente dentro
de um processo mais amplo, com utilidade de mercado, mas antes disso,
com uma função pública de formação
de cidadão. Isso a universidade está perdendo. Se perde
a parte ética, eu não concordo. Só entendo a formação
como uma coisa mais plena, que cria valores humanos, que estende a vida,
fortalece a democracia. Aceito a formação técnica
submetida a isso. Acho que o desenvolvimento da humanidade depende também
da formação técnica, mas não pode ficar só
nisso. Senão eu considero a técnica neutra, e aí
vale tudo.
Mas a
lógica que impera hoje é a do mercado. Não a da Ética...
A
universidade está constrangida por pelo menos dois fatores de pressão:
o mercado e o governo - que seria o Estado. Esse último controla,
regula, mas ao mesmo tempo liberaliza os processos, para que a iniciativa
privada aumente a oferta. Não controla a entrada, mas controla
a saída, os produtos. Aí entram os sistemas de avaliação,
o provão, etc. O mercado constrange a universidade porque pressiona
para que os formados tenham um certo perfil - e aí coincide com
o modelo final que o governo espera do aluno. Isso faz com que a cara
da universidade se transforme internamente. Mesmo que queira preservar
valores da autonomia, vai sendo minada e vai transferindo seus esforços
para a mentalidade de mercado.
Mas existe
uma resistência a isso, não é?
Hoje, nunca falamos tanto de universidade pública, de sentido público,
quanto agora. É uma forma de resistência. Se eu entendo educação
e formação como bens públicos, elementares, toda
instituição deveria ser pública. Mesmo que mantida
pela iniciativa privada, deveria ter um sentido público. Mas não
tem. E mesmo as instituições públicas perdem esse
sentido para a ideologia de mercado, para essas pressões.
As greves,
então, e os boicotes do Provão, têm uma capacidade
de chamar a sociedade para o debate, levar a informação
para a opinião pública?
Existe uma dificuldade muito grande já dentro da própria
instituição. Nós hoje não conseguimos explicar
para a sociedade, que está dominada pela ideologia de mercado.
A própria mídia ajuda muito a divulgar a lógica de
mercado. Mas dentro também não conseguimos. Autonomia universitária,
fóruns públicos, é difícil levantar isso.
Para o
estudante também é complicado: você vai chamar um
aluno e ele se vê como um consumidor.
Claro. Eles reproduzem a falta de ética que está no mercado:
brigas por vagas, promoções do tipo "quem trouxer tantos
alunos não paga rematrícula". E, depois, o que importa
para os cursos? Mostro para vocês uma cartilha, do presidente da
Associação Brasileira das Mantenedoras do Ensino Superior.
Olha o que diz!!! Funções do coordenador: "ele é
responsável pelo sucesso de cada estudante no Provão".
É literal. Aí o que algumas escolas privadas mais carentes
fazem. Pegam disciplinas básicas, que por ser básica deveria
estar no começo, e colocam no último semestre, perto da
prova. Tudo bem. Vai, até acho que deve existir quem gosta de começar
a construir uma casa pela pintura... Mas e os concursos? Dar prêmio,
transformar a formação num curso de sucesso no Provão.
Isso é absurdo.
É
tudo um grande absurdo!
Mas olhem, outra coisa interessante são as franquias. Um terço
do ensino privado, fundamental e médio pertence a franquias. Um
terço! Isso são números do ano passado. Este ano
talvez já seja maior, porque o crescimento é exponencial.
E o que tem de interessante nisso? É que eles fornecem pacotes.
Ou seja, qualquer pessoa pode investir. Como lojas do McDonalds ou postos
de gasolina. Você tem desde a parte arquitetônica da escola
até o currículo. Aliás, se você entende o currículo
como algo construído com professor e alunos, ele então não
existe. O professor é um técnico. Ele apenas repassa conforme
vem escrito. Se fugir disso está fora.
Várias
faculdades hoje são assim...
Várias. O que é importante frisar aí é a desprofissionalização.
O professor deixa de ser um docente, alguém que reflete sobre sua
prática; passa a ser simplesmente como um executor de programa.
Aí o Provão está congelando um tipo de currículo,
que será feito pela repetição das provas, e ajudando
nesse processo.
Mas isso
é uma contradição, porque o governo, teoricamente,
construiu vários parâmetros, os tais PCN, aí no Enem
faz um recorte direto...
...Sem levar em conta as especifidades regionais. Um professor de
Belém estava dizendo que um pessoal foi mal na prova de veterinária,
do Provão, porque caíram questões sobre um determinado
tipo de gado que só tem no sul. Como também falar em maçã
no Ceará é complicado. A maioria das crianças lá
não conhece. Ou falar de cajá mais ao sul. E existe uma
coisa mais grave ainda: você não pode averiguar a aprendizagem
numa situação de abstração geral. Um exame
nacional vai, quando muito, verificar desempenhos, naquele momento, gerais.
Mas nunca a aprendizagem, que é uma questão muito mais pessoal,
de todo o processo. E mais: vincular a avaliação a financiamentos
acaba sendo a prática do darwinismo social. As grandes universidades
vão receber mais recursos e aqueles mais carentes cada vez menos.
E como o número de estudantes também é fonte de recursos
para as públicas, acaba gerando um outro problema: ninguém
mais é jubilado. Se jubilar um estudante, ela perde recursos.
Sobre
o discurso do Paulo Renato no início da gestão, de criar
centros de excelência, o que o Sr. acha disso?
Essa é uma discussão que já vinha até mesmo
antes do atual governo. Haveria 10 ou 12 centros de excelência no
país e os outros teriam que batalhar para isso. Mas isso, politicamente,
não pega bem. Embora se pratique. São aquelas instituições
que demonstram melhor desempenho, dentro dessa lógica, e acabam
recebendo mais recursos. A lógica é deixar que as pesquisas
sejam feitas nos grandes centros, e transformar o sistema em um grande
provedor de ensino de graduação.
Se justamente
o desenvolvimento de pesquisa é o que permite criar inovações
tecnológicas que vão render lucros para o mercado, por que
acontece justamente o inverso aqui?
É a grande lógica da globalização, que eu
chamaria não de globalização, mas de americanização
do mundo. Não interessa ao grande capital internacional que os
países emergentes tenham sistemas próprios de pesquisa.
Essa é a lógica do Banco Mundial, do FMI... A grande pesquisa
é necessária para o desenvolvimento do grande capital internacional
- do qual estamos fora. A pesquisa feita no terceiro mundo só é
feita na medida em que interesse ao desenvolvimento regional, que aumente
à capacidade de consumo. Ter mais gente na escola não atende
exclusivamente aos nobres propósitos de melhorar a humanidade e
elevar a consciência humana, mas sobretudo aumentar a base de consumidores.
Isso é um paradoxo mundial também. Fala-se na sociedade
do conhecimento. De fato, a tecnologia se desenvolveu como nunca antes,
a medicina, mas se esquece que 4,5 bilhões - 2/3 da humanidade!!!
- não têm acesso aos meios mais elementares da tecnologia,
como eletricidade, água potável. Pelo menos um terço
vive na miséria. Bom, mas se 2/3 não têm acesso à
tecnologia, então estão fora da sociedade.
O Fernando
Henrique chegou a dizer que "na globalização não
existe espaço para todos". O que fazer com os que sobram?
O que caracteriza o Estado? É aquele ente que vai prover à
sociedade direitos básicos do cidadão. Por exemplo, segurança:
todo cidadão tem o direito de levar uma vida segura. Temos esse
direito hoje? Então criamos um aparato paralelo, para nos prover
segurança. Direito à educação. À saúde.
A emprego. Mas o próprio Estado diz que hoje o desemprego é
estrutural. O que quer dizer que ele não tem o dever de dar emprego
para ninguém, que é uma questão individual. Se você
tem é competente, se não tem é incompetente.
Esse discurso
da incompetência sempre existiu, mas chegou a uma generalização
onde a maioria da população é incompetente.
Mas isso continua dentro daquela lógica. É preciso dar
escola para todos, mas isso não basta. A escola amplia a base de
consumo, mas não os transforma em produtores. Mesmo a educação
é distribuída de acordo com os interesses do mercado. O
Banco Mundial propõe, explicitamente, que os Estados invistam menos
em educação superior, porque dizem que a educação
superior traz menos retorno econômico. Isso em 1993. Aí todos
os Estados reduziram, cortaram os investimentos. No Brasil, entre 95 e
99, houve uma redução de R$ 3,2 bilhões. O Banco
Mundial hoje já fez mea culpa. Disse que "estavam errados",
que a educação superior dá mais retorno. Mas e a
Argentina, como fica?
E como
se reverte um quadro desse?
Não há interesse no governo de se escutar essa segunda parte,
essa mea culpa, porque tem uma dívida externa a ser paga. E há
todo um arsenal estatístico muito competente, para mostrar que
a Educação melhorou: antes havia não sei quantos
estudantes no ensino fundamental, agora são 97%. Então,
houve um aumento. Há mais mestres, mais doutores... São
números importantes, que a primeira vista impressionam.
Como se
poderia denunciar a mentira?
Seria preciso fazer um estudo com esses números. Por exemplo, o
governo federal não está fazendo uma campanha contra o trabalho
infantil? Isso significa que tem muita criança trabalhando. Bom,
mas se todas estão na escola, alguma coisa está errada.
Vamos supor que os números estão corretos, realmente há
esse número de matrículas, quase 100%. Mas quantos estão
terminando? A evasão, no Estado de São Paulo, deve estar
entre 15% e 16%, e no interior a realidade deve ser bem pior. A merenda
é uma coisa importante para mudar isso: é um programa que
deve segurar as crianças na escola, suponho que para muita gente
deve ser a melhor refeição do dia.
Mas qual
é a sua avaliação do ensino público hoje?
Preocupa-me a desvalorização da educação pública.
A gente sabe que tem muita gente que chega à oitava série
sem estar alfabetizado. Por outro lado é perigoso dizer que toda
alfabetização pública é ruim. Primeiro, no
interior de São Paulo há escolas públicas melhores
que as privadas. A tendência é que nos grandes centros ela
se deteriore, mas no interior a pedagogia é mais valorizada. Não
dá para generalizar. O que deveríamos fazer é investir
em escola pública. Não adianta pensar em universidade sem
pensar em melhorar a base, a formação. No Brasil não
existe nada assim. No governo Clinton, por exemplo, a atenção
à escola pública foi muito forte. O Clinton ia às
reuniões de pais e mestres da escola onde a filha dele estudava,
participava de discussões eletrônicas, chats, um envolvimento
em nível nacional.
Você
acha que esse governo vai fechar alguma faculdade?
Não, claro. Mesmo porque esse negócio de fechar é
complicado. O ministro ameaçou de fechar. Mas se for universidade,
não pode, pela constituição. Se for particular, vamos
ver de quem é. É complicado. Além disso, e os alunos?
Vão ser transferidos do curso A para o curso B. Mas os alunos do
curso A não fizeram o vestibular do curso B. Digamos que eu não
tenha passado no vestibular do curso B, mas vejo um monte de gente entrando
sem fazer. Então vou entrar na Justiça. E como justificar
que um curso B vai receber alunos de um curso que é ruim. Os alunos
são ruins também? Se são, porque vão entrar
direto no curso B? Na prática, é complicado, devido a essa
questão legal. Muita gente pode se julgar prejudicada. O contrário
também ocorreu recentemente: o ministro autorizou o aumento de
vagas no curso de Direito. A OAB, no Supremo, ganhou. Não é
assim. E não adianta só mudar cursos com conceito, porque
esse modelo não garante que os cursos A e B estejam bem.
E o futuro?
Onde vamos chegar com isso tudo, seguindo essa lógica?
Isso está dentro de algo maior, que é o neoliberalismo.
Acredito que o neoliberalismo vá acabar um dia, se transformar
para melhor, ou para pior. Acho que vamos ter que recuperar alguns valores,
como a solidariedade, a ética.
Seriam
os valores da Revolução Francesa?
Acho que trabalhamos com duas coisas: a saudade e a esperança.
Tínhamos valores mais humanos. Não serão os mesmos,
já que a tecnologia se incorporou à vida moderna, mas vamos
ter que recuperar pelo menos esse horizonte. E a universidade está
dentro desse conjunto de instituições que um dia vai ter
que colocar a economia em segundo plano. Se você estender até
o limite essa linha da ética do mercado, vai haver um conflito
humano internacional em que os valores humanos serão apagados.
Se você não tem o público, o social, como valor, acaba
valendo tudo, não é? Tudo é válido. Vale o
sucesso individual: a minha carreira, a minha vida. Então, é
a competitividade levada ao extremo. E aí, passo a agir da maneira
que me dê mais sucesso, mesmo que para isso use de violência,
cometa corrupção. Se o social não existe, tudo é
permitido.
Você
é favorável ao boicote ao Provão?
Eu sou favorável a todo tipo de resistência. Mas é
preciso ter uma certa inteligência na organização.
Eu comparo o boicote com aquela tática do impedimento do Futebol.
Se todo mundo vai, tudo bem. Mas num determinado momento ocorre um erro,
alguém não vai, o juiz não vê... Perde tudo.
E a informação sai deturpada, começam a pensar que
as faculdades são ruins, se não houver um trabalho de informação.
Os professores também deveriam ter um movimento de resistência.
A minha forma é trabalhando, estudando o assunto. Essa é
minha forma de resistência.
Professor,
muito obrigado.
Não
há de que.
José
Dias Sobrinho é doutor pela Universidade de Campinas (Unicamp)
e tem pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales
e na Ecole Normale Supérieure, de Paris. Foi diretor da Faculdade
de Educação da Unicamp, pró-reitor de pós-graduação,
presidente da Comissão de Avaliação e Desenvolvimento
e coordenador da avaliação intitucional. Atualmente, preside
a Rede de Avaliação Institucinal da Educação
Superior (Raies) e é editor da revista Avaliação.
José
Dias Sobrinho mostrou-nos o seguinte quadro sobre Ensino Superior, utilizado
em suas palestras:
Universidade
para o Mercado
Função econômica
Avaliação=Controle |
Universidade
para a Sociedade
Função social
Avaliação educativa |
| Eficiência,
lucro, produtividade, competitividade, operacionalidade, racionalidade
instrumental, ética subjetivista, sucesso individual |
Relevância
social, eqüidade, pertinência, democracia, cidadania, solidariedade,
ética social, desenvolvimento da sociedade |
| Ênfase
em resultados e produtos específicos, segundo a lógica
competitiva |
Ênfase
em processos globais, segundo a lógica dos interesses da sociedade
|
| Controlar
a qualidade como quantidade de produtos e aumentar a competitividade,
segundo a lógica do mercado e do sucesso individual. Informar
o mercado (clientes) e a administração central (para
fins de regulação e fiscalização) |
Melhorar/construir
a educação cooperativamente, segundo a lógica
da qualidade social e do sentido público. Informação
pública com finalidade de formar melhor, consolidar a instituição,
melhorar a função social |
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