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"São
todos pródigos e perdulários"
Segundo o editor da revista Carta Capital,
a origem da crise econômica que afeta o jornalismo brasileiro está
principalmente nos enormes gastos que os donos da mídia fazem sem
necessidade
Por André
Deak
EmCrise 15/05/2002
Mino Carta, italiano naturalizado brasileiro,
é um dos dinossauros que povoam o imaginário dos jovens
jornalistas que surgem. Entrou pela primeira vez numa redação
aos quatro anos levado por seu pai, redator-chefe do jornal Século
XIX. Nascido em Gênova, em 1933, aos 12 anos veio para o Brasil
com a família, quando o pai foi contratado para dirigir a Folha
de S. Paulo. Começou fazendo crônicas de futebol e logo
foi para a Itália, onde trabalhou também como jornalista.
De volta ao Brasil, participou da criação da revista Quatro
Rodas, inspirada na italiana Quattro Ruote, episódio clássico:
- Fico feliz
com o convite, mas não posso aceitá-lo: eu não sei
dirigir, nem diferencio um Volksvagem de um Mercedes, ficaria ridículo!*
Terminou
aceitando o convite de Victor Civita e a revista foi um sucesso - entre
tantos outros. Fez o mesmo com o Jornal da Tarde, depois com a
revista Veja, em 1968, criando um semanário de notícias
nos moldes da Time e Newsweek, voltado principalmente para
a política - numa época de ditadura, lembremos. Quase 10
anos depois cria e dirige a IstoÉ, o Jornal da República,
a revista Senhor e Carta Capital, cuja redação
fica na Alameda Santos, em São Paulo - onde ocorreu a entrevista.
Bem vestido e bem humorado, falou sobre a crise que abala o jornalismo
brasileiro e aproveitou para contar um pouco de suas boas experiências
com a profissão.
EmCrise
- Qual é a origem dessa crise econômica das empresas de mídia?
Mino Carta - Em primeiro lugar, é bom saber que a crise
é muito maior do que os leitores imaginam. Essas empresas, a Globo,
Abril, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, etc. estão todos
a beira do desastre total. A Globo, sozinha, deve dois bilhões
de dólares. De dólares! As razões dessa crise são
de duas naturezas. A primeira é que existe uma mania de grandeza
voltada para um consumismo grosseiro. Por exemplo: jornais a cores, na
quantidade que temos no Brasil, não existem em nenhuma outra parte
do mundo. Os melhores jornais do mundo são em preto e branco. The
New York Times, Corriere Della Sera junto com o La Repubblica,
são todos em preto e branco. Alguns jornais ainda fazem a capa
colorida, para chamar a atenção na banca - mas só
a capa! Depois, veja essas sucursais de Brasília. Com o número
de repórteres que eles têm lá dava para fazer umas
cinco redações. Se bem que agora, por causa da crise, não
é mais assim. Agora só dá para fazer duas redações.
Esses chamados grandes da mídia, para mim, são mínimos.
Aqui na Carta Capital temos 13 profissionais do jornalismo, ao
todo, contando comigo. Todos eles, os donos da mídia, foram pródigos
e perdulários, motivados pela busca de Ibope e tiragem. E essa
busca também é culpada pela enorme vulgaridade que vemos
hoje no noticiário. O jornalismo italiano, que eu conheço
bem, é muito comedido nos gastos. Não existe essa diferença
de salário astronômica. Eu sei que o Mario Sérgio
Conti, quando foi para o JB, foi para ganhar 70 mil por mês! E com
uma luva que o cobria em um milhão e meio de reais! Isso não
existe em lugar nenhum do mundo.
E qual
é a segunda razão?
Todos eles acabaram se endividando em dólar. Quando o dólar
disparou, suas dívidas dobraram. O grande trunfo deles seria a
permanência do Real como moeda forte. Só que houve um engodo,
fizeram todo mundo acreditar que a cotação ficaria firme.
Eu digo brincando que os donos da mídia, às vezes, acreditam
demais nos seus jornalistas - e por isso, caíram do cavalo! Agora
a coisa ficou cara, os avanços tecnológicos são caros.
Os sponsors, a publicidade também não está ajudando.
Se você for ver, diminuiu muito o número de anunciantes.
A própria Globo teve uma queda grande de publicidade. E
se você pega as revistas, então... Pegue a Veja, a
Playboy: elas não têm aquele número exorbitante
de anúncios que tinham até um tempo atrás. O país
todo empobreceu abruptamente. E tudo graças ao ilustríssimo
Fernando Henrique Cardoso. E agora, temos que continuar essa caminhada
em direção ao passado. Temos que eleger seu sucessor, para
que termine o belíssimo trabalho de destruição nacional
que ele começou.
Mas agora
a crise está aí e eles estão tentando se salvar com
a PEC 203, que abre a mídia ao capital estrangeiro...
É como o aprendiz de mágica: sabe dizer abracadabra, mas
não sabe parar o processo. É cíclico: eles entopem
as redações de gente, não têm como manter aquela
estrutura enorme e demitem. Mas o passaralho passa e depois de um tempo
começam a contratar tudo de novo... Não tem coerência.
Não vai mudar. E agora, com a copa, você vai ver de novo.
A delegação brasileira, historicamente, sempre foi a mais
numerosa delegação de jornalistas na copa. A paixão
pelo futebol é enorme. Só para lembrar um exemplo disso,
uma história famosa: os jornalistas brasileiros atacaram os jogadores
húngaros em 1954. Não foram os jogadores, mas os jornalistas!
Sobre
a entrada do capital estrangeiro, qual é sua opinião?
Se eu sou capitalista, é óbvio que eu vou querer mandar.
Nunca vou colocar dinheiro numa empresa que eu não tiver um mínimo
de controle. O investidor estrangeiro vai logo entender que as empresas
daqui foram muito mal administradas, que os donos da mídia são
uns incompetentes. A mídia política, em nenhum país
do mundo, é entregue aos estrangeiros. Mas aqui, num país
de tantos analfabetos, os políticos estão pouco ligando.
Fizeram um país para 20, 30 milhões de pessoas, e é
lá que eles vivem.
Como a
Carta Capital funciona? Enquanto os outros diminuem, a Carta
vira semanal. Qual é o segredo?
É uma coisa antiga. Quando eu saí da Veja, tive que
inventar meus empregos. Eu já morei um tempo na Europa, trabalhei
quatro anos lá. Aprendi que poucos jornalistas podem fazer uma
boa redação. A primeira Isto É, por exemplo, foi
feita com cinco profissionais. Cinco. Claro, havia uma austeridade feroz,
com papel, caneta, tudo. Mas fizemos. Outra coisa: você pode fazer
jornalismo alternativo, mas o aspecto tem que ser profissional. A Caros
Amigos é uma boa revista, mas você não a imagina na
mesa do Antônio Ermírio de Moraes. Nós gastamos no
aspecto: temos o melhor papel da praça. Mas cada uma das nossas
64 páginas editoriais é administrada com austeridade; por
isso estamos sobrevivendo com tranqüilidade.
O que
acha daquele empréstimo do BNDES para a Globo?
Aquilo é um esboço de Proer.
Mas e
se fosse uma linha de investimento para todo mundo? Como fizeram na Suécia?
Claro, seria perfeito. Mas uma redação na Suécia
tem 50 jornalistas, não 500.
Como foi
a experiência com o Jornal da República?
Era um jornal diário sem retorno financeiro. Faltou alguém
para investir. Mas não foi só isso, claro, houve uma porção
de erros nossos. Tínhamos 25 profissionais trabalhando - veja,
25 pessoas produzindo um jornal diário. Inicialmente, a Folha de
S. Paulo, estranhamente, teve interesse em publicar, então usamos
a gráfica deles. Depois cortou - e nos sobrou a gráfica
dos Diários Associados. Só que eles exigiam a entrega da
primeira página - que é a última que o jornal fecha
- às oito horas. Até fazíamos alguns milagres, mas
sem alguém para bancar o projeto, por trás, é inviável.
Fazíamos porque era uma equipe muito coesa. O dobro do que temos
hoje aqui, mas era uma ótima equipe. Foi uma aventura fracassada,
mas muito rica.
* CONTI,
Mario Sergio. Notícias do Planalto, Cia das Letras, São
Paulo, 1999. p. 366
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