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O colecionador de histórias
Leitor
voraz, adorador de raridades e dono da maior biblioteca privada da América
Latina - que terá uma parte doada à USP -, o bibliófilo
José Mindlin fala de sua vida e tenta conquistar as pessoas com
sua grande paixão: a leitura
Por André
Deak
EmCrise* 10/05/2002
Poucos meses depois do início da
Primeira Guerra Mundial, em 1914, nascia em São Paulo José
Ephim Mindlin, filho de imigrantes russos judeus. Não era um mundo
convidativo - o que talvez tenha também despertado sua paixão
pelos livros. Mesmo que pudesse, Mindlin não escondeu-se atrás
de páginas amareladas cheias de histórias maravilhosas que
ia descobrindo nos sebos da cidade. Aos 15 anos foi contratado como repórter
do jornal O Estado de S. Paulo e participou assim da revolução
de 1930. Formou-se em direito no Largo São Francisco em 1936 e
atuou como advogado por mais de 10 anos quando, por acaso, juntou-se a
quatro empresários para criar uma das principais exportadoras de
autopeças do país, a Metal Leve. A partir de 1994, por causa
da alta do dólar e da invasão das peças importadas,
a empresa começa a ir mal e termina vendida.
Hoje, com 87 anos, mantêm-se calmo e bem-humorado. Também
pudera: sua grande paixão pelos livros levou-o a ser dono da maior
biblioteca particular da América Latina. "É a minha
loucura mansa", definiu seu hobbie enquanto mostrava as estantes
repletas de preciosidades. A primeira delas conseguiu aos 13 anos - o
Discurso sobre a História Universal (1740), do bispo francês
Jacob Bossuet. Desde então nunca mais parou de comprar livros,
menos ainda de lê-los: "Leio uma média de oito livros
por mês e entre 80 a 100 livros por ano". Mas não quer
dizer que tenha o tempo todo livre: é presidente do Conselho Editorial
do jornal O Estado de S. Paulo e membro do Conselho da Fundação
Vitae - Apoio à Cultura, Educação e Promoção
Social. Nessa entrevista, revela um pouco de sua "loucura",
fala da doação de seus livros sobre história brasileira
para a USP e tenta, mais uma vez, "inocular o vírus do amor
ao livro" nas pessoas.
O senhor
comprou o primeiro livro aos 13 anos. E antes, já lia muito?
José Mindlin: Sim, porque cresci num ambiente de interesse
cultural. Em casa todos liam, eu comecei aos sete anos. Mas foi só
dos 13 em diante que percorria os sebos pela cidade e então comecei
a formar a biblioteca. Ganhei numa ocasião um livro de minha tia,
uma história do Brasil, do Frei Vicente de Salvador, que li com
muito interesse. E foi então que comecei a comprar livros sobre
assuntos brasileiros. Venho fazendo isso há 75 anos. Hoje, a parte
brasileira da biblioteca é mais ou menos metade, e o resto é
literatura estrangeira, arte, viagens e história. Também
gosto muito de artes gráficas, então procuramos ter bons
exemplos do que foi o livro desde o século 15 até nossos
dias.
Quantos
livros existem na biblioteca?
No momento, cerca de 28 ou 29 mil títulos. Volumes, não
tenho a conta, porque o título pode ser um folheto ou uma coleção
de 20, 30 volumes. Aí não tenho a conta. E continuo comprando
livros novos, porque a biblioteca é algo vivo, não pode
ficar defasada. Mas também procuro em sebos. Raros, tenho no máximo
10 ou 15 mil volumes. Mas temos aqui coisas muito difíceis de encontrar.
Os escritores
de histórias infantis que existem hoje ainda não escreviam
quando o senhor era criança. O que o senhor lia?
Lia muito os escritores brasileiros e portugueses. E também sou
da geração de influência francesa, que tornou-se minha
segunda língua. Leio tanto português como francês.
Inglês aprendi mais tarde, assim como espanhol e italiano. Leio
também alemão, mas devagar, então prefiro tradução.
Criei o hábito de sempre ter um livro comigo, para sempre estar
lendo. Por exemplo, quando eu deixava as crianças na escola, às
7:15, podia pôr o carro embaixo de uma árvore e ficar lendo
mais uma, duas horas, até ir trabalhar. Naquele tempo isso era
possível, porque não havia assaltos. Assim, minha leitura
é feita da soma de pequenos períodos. Leio uma média
de oito livros por mês e entre 80 e 100 livros por ano. O que é
uma gota d'água em relação ao que existe para ser
lido. Mas já não é pouco na vida que a gente leva.
O senhor
fez faculdade de direito. Com o grande volume de textos obrigatórios
ainda sobrava tempo para a leitura?
Sim, porque os professores liam as preleções, não
havia o costume de dar uma aula de conversa, onde os alunos participassem.
Então eu lia em casa, em 15 minutos, o texto que iria ser lido
na classe em voz alta, que levaria 50 minutos. Nesse tempo era que eu
lia muito.
Por que
escolher a faculdade de direito?
As profissões não eram muitas na época. Havia medicina,
engenharia e direito, as principais. Farmácia, odontologia e contabilidade
eram profissões menores. Além disso, eu gostava. O Brasil
daquele tempo era o Brasil dos bacharéis. Não que fosse
apaixonado, mas gostava principalmente da parte teórica, direito
penal e constitucional. Advoguei por 15 anos, até virar empresário
por acaso.
Como foi
isso?
Alguns amigos decidiram formar a Metal Leve e me chamaram. Fui um dos
articuladores. Ela começou muito pequena, cada um de nós
tinha que fazer de tudo. Pode-se dizer que ela foi crescendo junto com
o Brasil. Formei-me em 1936, advoguei até 1950, 51. A Meta lLeve
foi criada em 1950 e logo depois houve um grande impulso de industrialização
com o Juscelino (Kubitschek - governou de 1956 a 61). Pode-se dizer que
ajudamos o país a crescer. O Brasil de 50 e o de hoje são
dois países diferentes.
Só
existem três exemplares da primeira edição de O
Guarany, de José de Alencar, que foram impressos em 1857. Um
está na Biblioteca Nacional, outro no Instituto de Estudos Brasileiros
da USP e outro nas mãos do senhor. Como conseguiu esse livro?
Eu soube de um grego que tinha oferecido no Rio de Janeiro, a alguns colecionadores,
o exemplar. Naquele tempo só se conheciam dois exemplares da primeira
edição - e esse seria o terceiro. Mas os colecionadores
do Rio acharam muito caro e não compraram. Quando soube disso,
até brinquei com eles, disse que "para ter a primeira edição
do Guarany vale a pena até vender uma casa ou um terreno, porque
a casa você constrói de novo, essa edição você
nunca mais vai ver de novo". Quando fui ver, o grego já tinha
ido embora. Fiquei procurando de todo jeito, e quase 15 anos mais tarde,
em Paris, encontrei o grego e comprei dele. O engraçado é
que eu trouxe o livro na mão, com todo cuidado, numa pasta, na
viagem de volta. Quando fui trocar de avião no Rio, como estava
cansado, acho que acabei dormindo no avião. Vindo para São
Paulo, abri a pasta para olhar de novo o livro e vi que ele tinha caído.
Cheguei em casa, perguntei a minha esposa, Guita, se ela adivinhava o
que tinha comprado. Quando eu disse que era O Guarany, ela ficou
entusiasmada. "Mas já perdi", falei. [risos] Avisei
a companhia aérea e por sorte eles encontraram o livro no avião.
E mandaram de volta para mim pelo correio.
É
verdade que um dos grandes desejos ainda não realizados é
ter uma primeira edição de Antonil?
Tive ele na mão, um colecionador do Rio. Mas ele queria vender
a biblioteca, não os livros separados. Quando ele morreu, a família
aceitou a proposta de um livreiro francês que a levou para lá.
Era pequena, mas muito escolhida. A meu ver, está na gaveta daquele
livreiro, que me disse que tinha se enganado e vendido por 3 mil dólares.
O que era conversa. Isso faz parte do prazer de formação
da biblioteca. Não tem fim. Não existe a biblioteca completa.
Estamos sempre procurando coisas que a gente procurava ou que não
conhecia e despertaram o interesse.
Já
se disse que, quanto aos livros, existem dois tipos de tolos: os que emprestam
e os que devolvem...
[risos] Eu empresto, de bom grado, um livro que pode ser substituído.
O raro, em geral, não empresto. Qualquer consulta é aqui
na biblioteca. Não chego a ser tolo, mas gosto de incentivar o
interesse pela leitura. Chamo isso de "inocular o vírus do
amor ao livro". Muitas vezes, se li um livro que gostei, procuro
emprestar. Só lendo é que a pessoa só pega o gosto
de ler. De fato, tenho perdido alguns livros que às vezes empresto
e que não voltam. Mas também me acontece de ter emprestado
um livro de alguém e não lembrar quem é o dono depois.
Mas, normalmente, quando leio um livro que gosto, compro logo vários
exemplares, que é para dar aos amigos.
Como é
o dia a dia de José Mindlin?
Faço parte de uma série de conselhos de fundações
culturais. Sou do Conselho Editorial do Estadão, cuido da biblioteca,
entrevistas como essa são freqüentes... [risos] Tenho
muita correspondência também. Realmente, não posso
me queixar de não ter o que fazer.
E o que
falta fazer ainda?
A parte brasileira da biblioteca será doada em breve. Estamos tratando
de fazer um centro de estudos brasileiros através de uma fundação
de direito privado. Será instalada na Universidade de São
Paulo, em um terreno cedido por eles, durante 99 anos. Digo brincando
que é um período de experiência, mas de certa forma
é verdade: não sei o que vai acontecer com a USP, se vai
ser privatizada, se vai desaparecer... Se tudo correr bem depois desses
99 anos, passa a ser patrimônio da USP. Então esse projeto
da biblioteca vai me dar muito trabalho. Mas vai assegurar o trabalho
de uma vida inteira.
Que conselhos
o senhor pode dar para quem gostaria de conservar bem os seus livros ou
toda uma biblioteca?
Existe uma associação de encadernação e restauro,
da qual minha mulher, Guita, é presidente. E existe também
um laboratório ligado ao Senai, de artes gráficas. Deviam
pedir a visita de um técnico de um desses órgãos.
Qual é
o tipo de leitura que mais o agrada? O senhor lê revistas?
Revistas leio menos. Assino um série delas, sempre na ilusão
de que vou poder ler todas. Mas a biblioteca tem revistas antigas, do
século 19 até os anos 1950. Em relação aos
livros, gosto muito de ficção, biografias... No fundo, tenho
uma variedade de interesses. É por essa minha variedade de interesses
que chamo a biblioteca de "indisciplinada". Autores, gosto muito
de Machado de Assis. Não passa ano sem que eu leia Machado. Guimarães
Rosa é outro que sou apaixonado. Da literatura francesa li todos
os grandes autores, mas se tivesse que escolher um, só um, seria
a obra de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido. Li cinco vezes,
com intervalos de dez anos, e a cada leitura ele é diferente -
e não foi o livro que mudou.
Que livros
o senhor recomendaria?
Machado de Assis e Guimarães Rosa são obrigatórios.
E tem também a literatura francesa, Anatole France (A Ilha dos
Pingüins) eu lia com muito interesse. Está um pouco desacreditado
agora, mas é um autor muito bom. E temos os brasileiros do nordeste,
Lins do Rego, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz... O que ler não
falta.
Quais
autores nacionais contemporâneos ficarão para sempre?
Guimarães, Graciliano, Lins do Rego e todo aquele grupo do nordeste.
Mas não posso dizer isso, porque senão acabo cometendo uma
injustiça. Quando falamos com repórter, lembramos de muita
coisa só depois que a entrevista acabou.
*Texto originalmente produzido para
a Revista Diálogos&Debates
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