|
A educação na berlinda Marta Maffei, presidente do Conselho
de Trabalhadores de Educação da Argentina, fala do processo
de falência do sistema educacional de seu País Por Lia
Rangel e Rodrigo Savazoni* Marta Maffei, presidente do Conselho de Trabalhadores de Educação da Argentina, esteve em Porto Alegre sem muitas esperanças de voltar com soluções concretas para os graves problemas por que passa seu país. Sua presença no Fórum Social Mundial se deveu mais à certeza de ter uma história para contar - cujo enredo, acredita, pode vir a se repetir caso os países latino-americanos não apresentem propostas alternativas ao projeto econômico em curso na região. Segundo a professora, a crise na educação argentina está relacionada a um acelerado processo de empobrecimento. Mesmo sem esconder sua preocupação, esboça um sorriso de alento ao falar daquilo que sintetiza o seu trabalho: a educação como instrumento de transformação social e cultural. Ao trocar Buenos Aires pelo Rio Grande do Sul, as manifestações de rua pelos anfiteatros da capital gaúcha, Marta trouxe junto o discurso firme que a faz respeitada até por adversários em seu país: "Reordenar as vontades políticas têm a ver com a reorganização do sistema educacional, com a história, com as nossas lutas. Não se pode mudar o mundo somente com a educação. Mas é essencial que as pessoas tenham acesso ao conhecimento. E entendam a miséria, a história de nosso povo, e que se informem sobre os organismos de crédito internacional. Só assim será possível compreender uma sociedade solidária para construir democraticamente uma escola que vai mudar o mundo". O número de pobres argentinos aumentou 400%, segundo dados fornecidos pela professora. No início dos anos 90, 14% da população vivia abaixo da linha da pobreza. Hoje, esse número é de 49%. Quanto aos índices de escolaridade, "59% dos estudantes de até 14 anos vivem sem mínimas condições materiais". O analfabetismo está em 3% e o número de analfabetos funcionais supera a marca dos 20%. "Devido a esse processo de pauperização, os estabelecimentos de ensino passaram a ser instituições de apoio", lamenta. "Hoje, na Argentina, freqüentar aulas significa poder comer". De qualquer forma, assim como no Brasil, o acesso à escola foi universalizado: 97% das crianças têm acesso ao ensino básico - "mesmo que este tenha deixado de ter qualidade". A situação dos professores também é ruim, na avaliação de Marta: "Além dos salários baixos e da frustração profissional, os docentes têm que conviver com a ingerência do governo, que no ano passado chegou a decretar feriado escolar de semanas devido à falta de verba para a manutenção das escolas. Há 15 anos não temos um ano letivo completo na Argentina". "Esse processo de sucateamento do sistema educacional argentino se deve à transferência das responsabilidades administrativas do governo federal para as províncias", explica. Durante o período militar (1978 - 1983), as escolas primárias passaram a ser geridas pelos governos locais. Em 1992, atendendo às indicações do Banco Mundial, o Estado também transferiu o controle das escolas do ensino médio e das instituições de formação dos docentes para as instituições regionais. "Essa mudança ocorreu num momento de ajustes e cortes financeiros, sem que o orçamento necessário para manter as escolas fosse redistribuído para as diferentes localidades", critica. Mais recentemente, um outro processo teve início, a implantação das escolas autônomas, que funcionam com gestão privada e financiamento público. A professora e sindicalista sugere como alternativa para a reconstrução do sistema educacional argentino a implantação de uma política pública que defenda os interesses da maioria da população. E aos professores, pede que deixem de perpetuar suas práticas pedagógicas nocivas: "Ou eles estimulam o fracasso, porque acreditam que todo miserável é um fracassado, ou agem com complacência, porque têm pena dos menos favorecidos. As crianças não precisam nem de maltrato nem de compaixão. Necessitam de escolaridade plena, alimentação adequada, estímulos adicionais e de um estado que lhes oferte uma escola pública de qualidade, com estratégias pedagógicas, curriculares e didáticas bem definidas". Marta Maffei pretendia permanecer no II Fórum Social Mundial até o encerramento, para ouvir as histórias que seus colegas de outros países também tinham para contar. Mas, após 43 anos de profissão, não possuía os cerca de U$ 30 que a companhia aérea cobrava para alterar a data da passagem. Não reclamou de ter de voltar antes: "Estou preocupada com meu país". *Texto originalmente produzido para a Revista Educação |