"Mídia apóia o poder". Foi o Lula quem disse.

O repórter do EmCrise não despediçou a chance de falar com Luís Inácio Lula da Silva, a caminho de Porto Alegre, e arrancou do presindenciável algumas frases de impacto. "É claro que a elite vai fazer todo esforço para não deixar o poder" é só uma delas.

Por Jorge Pereira Filho
EmCrise, 31/1/2001

Porto Alegre - Luis Inácio Lula da Silva entra no avião, cumprimenta alguns passageiros e senta-se à poltrona 9C. Ao seu lado, acomoda-se José Dirceu. O corredor entre eles. Eu atrás. Lula pede o jornal "O Estado de São Paulo" e vê seu rosto estampado numa página do diário. Dirceu também pede o mesmo jornal, mas o passageiro ao lado, um pernambucano, mostra a ele reportagem do Jornal do Brasil. Repercussão do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel. Dirceu comenta com Lula: "O Cid Benjamin me procurou e eu nem quis atendê-lo. Sabia que ele iria escrever a matéria de acordo com os interesse deles. Por mim, a gente devia publicar uma matéria paga na primeira página dos quatro grandes jornais".

O avião levanta vôo. E o pernambucano sentado do lado de Dirceu também. Deixa sua poltrona, vira para o presidenciável e fala: "Oi, Lula, tudo bem? Lembra de mim, sou sindicalista pernambucano". "Oi, como vai?", responde Luis Inácio, político. Do meu lado direito, um casal de norte-americanos conversa sobre a programação do Fórum. Do esquerdo, uma italiana lê textos sobre movimentos sociais. Depois, descobri que não sabiam quem era aquele barbudo de terno cinza e camisa amarela que atraía a atenção da tripulação. Um dos moços, mais atrapalhado, derrama suco na cadeira do José Dirceu.

Durante a viagem, Lula brincou com alguns passageiros, contou piadas, disse para o pernambucano que o Frevo devia ser mais valorizado e, depois de uma certa insistência, concedeu-me uma mini-entrevista. Claro, tudo muito corrido, eu de pé ao seu lado, desviando dos carrinhos das aeromoças recolhendo restos de lanches e bebidas e tentando anotar o que era possível em meio às turbulências do vôo.

EmCrise: Quais as suas expectativas para o Fórum?

Lula: Espero que o Fórum Social Mundial consiga provar que a sociedade civil organizada tem melhores soluções que os governantes. Não é necessário que o Fórum tenha um documento único, temos de respeitar a pluralidade.

EmCrise: O Fórum, os movimentos anti-globalização, em parte, são movidos também por uma parcela da pessoas que não acredita na política tradicional. Na Argentina, os políticos ainda não encontraram uma resposta para os problemas locais. O povo já tirou três presidentes e caminha para tirar o quarto. O que isso mostra?

Lula: Não há solução fácil, a Argentina chegou a um grau de degradação terrível. Mas não há saída fora da política. Nenhuma entidade vai resolver um problema que só o estado é capaz de resolver.

EmCrise: Você estava lendo um artigo do Veríssimo, publicado no Estadão, em que ele dizia que a sua eleição podia representar o fim de uma tradição elitista no poder, com o término do mandato do Fernando Henrique. Essa não é a primeira vez que você se candidata. Por que agora vai dar certo? A elite vai permitir?

Lula: Primeiro você tem que analisar a história do Brasil, durante muito tempo o poder foi manuseado pelas elites brasileiras. O surgimento do Partido dos Trabalhadores é a primeira vez em que os excluídos têm chance de participar da vida política. A candidatura do PT, de um torneiro mecânico, é contra todos os hábitos políticos do país. Eu acho que é um fato sui generis. O PT elegeu camponês para deputado, negra senadora, metalúrgico, etc. É claro que a elite vai fazer todo esforço para não deixar o poder. A família Bornhausen há gerações está no poder. Noutros estados, acontece o mesmo. Mas, desta vez, estamos mais preparados desta vez. E a sociedade vai evoluindo aos poucos.

EmCrise: E a mídia, dominada por quatro grandes grupos familiares, também vai defender o poder das elites?

Lula: Claro, isso a mídia também está envolvida nesse jogo.