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"Mídia apóia
o poder". Foi o Lula quem disse. O repórter do EmCrise não despediçou a chance de falar com Luís Inácio Lula da Silva, a caminho de Porto Alegre, e arrancou do presindenciável algumas frases de impacto. "É claro que a elite vai fazer todo esforço para não deixar o poder" é só uma delas. Por Jorge
Pereira Filho Porto Alegre - Luis Inácio Lula da Silva entra no avião, cumprimenta alguns passageiros e senta-se à poltrona 9C. Ao seu lado, acomoda-se José Dirceu. O corredor entre eles. Eu atrás. Lula pede o jornal "O Estado de São Paulo" e vê seu rosto estampado numa página do diário. Dirceu também pede o mesmo jornal, mas o passageiro ao lado, um pernambucano, mostra a ele reportagem do Jornal do Brasil. Repercussão do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel. Dirceu comenta com Lula: "O Cid Benjamin me procurou e eu nem quis atendê-lo. Sabia que ele iria escrever a matéria de acordo com os interesse deles. Por mim, a gente devia publicar uma matéria paga na primeira página dos quatro grandes jornais". O avião levanta vôo. E o pernambucano
sentado do lado de Dirceu também. Deixa sua poltrona, vira para
o presidenciável e fala: "Oi, Lula, tudo bem? Lembra de mim,
sou sindicalista pernambucano". "Oi, como vai?", responde
Luis Inácio, político. Do meu lado direito, um casal de
norte-americanos conversa sobre a programação do Fórum.
Do esquerdo, uma italiana lê textos sobre movimentos sociais. Depois,
descobri que não sabiam quem era aquele barbudo de terno cinza
e camisa amarela que atraía a atenção da tripulação.
Um dos moços, mais atrapalhado, derrama suco na cadeira do José
Dirceu. Durante a viagem, Lula brincou com alguns passageiros, contou piadas, disse para o pernambucano que o Frevo devia ser mais valorizado e, depois de uma certa insistência, concedeu-me uma mini-entrevista. Claro, tudo muito corrido, eu de pé ao seu lado, desviando dos carrinhos das aeromoças recolhendo restos de lanches e bebidas e tentando anotar o que era possível em meio às turbulências do vôo. EmCrise: Quais as suas expectativas para o Fórum? Lula: Espero que o Fórum Social Mundial consiga provar que a sociedade civil organizada tem melhores soluções que os governantes. Não é necessário que o Fórum tenha um documento único, temos de respeitar a pluralidade. EmCrise: O Fórum, os movimentos
anti-globalização, em parte, são movidos também
por uma parcela da pessoas que não acredita na política
tradicional. Na Argentina, os políticos ainda não encontraram
uma resposta para os problemas locais. O povo já tirou três
presidentes e caminha para tirar o quarto. O que isso mostra? Lula: Não há solução fácil, a Argentina chegou a um grau de degradação terrível. Mas não há saída fora da política. Nenhuma entidade vai resolver um problema que só o estado é capaz de resolver. EmCrise: Você estava lendo um
artigo do Veríssimo, publicado no Estadão, em que ele dizia
que a sua eleição podia representar o fim de uma tradição
elitista no poder, com o término do mandato do Fernando Henrique.
Essa não é a primeira vez que você se candidata. Por
que agora vai dar certo? A elite vai permitir? Lula: Primeiro você tem que analisar a história do Brasil, durante muito tempo o poder foi manuseado pelas elites brasileiras. O surgimento do Partido dos Trabalhadores é a primeira vez em que os excluídos têm chance de participar da vida política. A candidatura do PT, de um torneiro mecânico, é contra todos os hábitos políticos do país. Eu acho que é um fato sui generis. O PT elegeu camponês para deputado, negra senadora, metalúrgico, etc. É claro que a elite vai fazer todo esforço para não deixar o poder. A família Bornhausen há gerações está no poder. Noutros estados, acontece o mesmo. Mas, desta vez, estamos mais preparados desta vez. E a sociedade vai evoluindo aos poucos. EmCrise: E a mídia, dominada
por quatro grandes grupos familiares, também vai defender o poder
das elites? Lula: Claro, isso a mídia também está envolvida nesse jogo. |