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A progressão continuada, dez anos depois O que adianta falar em sociedade de conhecimento, conhecimento de quem? Para quem? Para fazer o quê? Por Lia
Rangel São Paulo - Em meio a pilhas de papéis em sua sala na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp), Lisete Arelaro recebeu a reportagem de Em Crise. Com humor e espírito crítico, a professora completa 35 anos de carreira como pedagoga e ativista política. Atualmente, é responsável pela administração da Secretaria de Cultura, Esporte e Educação de Diadema, pela segunda vez consecutiva. Mestre e doutora em pedagogia, Lisete trabalhou com Paulo Freire no período em que ele foi secretário de educação na gestão de Luiza Erundina (PT), entre 1989 e 1992. Foi Chefe de Assessoria Técnica e Planejamento da secretaria responsável pela implantação da Progressão Continuada e os Ciclos na Rede Municipal de Ensino. Dez anos após a experiência pioneira no país, Lisete reflete sobre o trabalho desenvolvido por sua equipe, confessa que faria diferente se pudesse voltar no tempo e critica, sem censura, os rumos que as reformas educacionais tomaram sob o controle do atual governo do PT na cidade e do PSDB, no estado de São Paulo e no País. Em Crise - Em que contexto foi pensada a reforma educacional na cidade de São Paulo, caracterizada pela implantação dos ciclos e da Progressão Continuada? Lisete Arelaro - Diferentemente
do que a maioria dos professores pensa, a discussão sobre a reorganização
dos currículos em ciclos não é recente e nem gratuita.
Para entendermos a questão é necessário voltarmos
para a década de 50 e a fazermos uma análise em duas perspectivas:
a política e a pedagógica. A primeira está explicitada
em artigo da Constituição, o qual determina a educação
como um direito de todos. Há meio século esta questão
é discutida de forma intensa por Anísio Teixeira e pela
Escola Nova. O Brasil vivia na época do nacional desenvolvimentismo
e existia a necessidade de traçar o perfil do País, de formar
uma identidade nacional. A educação era pensada como o carro
chefe para contribuir com a constituição de uma nação
independente, preparada para avançar. Isso só seria possível
com a democratização do acesso ao ensino. Em 1965, os ginásios
vocacionais (experiências isoladas cujo interesse era transformar
os alunos em cidadãos conscientes) prepararam pedagogias baseadas
em estudos do meio. Dois anos depois, José Mario Azanha elaborou
a primeira proposta sugerindo a implantação dos ciclos,
causando uma grande confusão por dividir o ensino básico
em dois níveis, o que estabeleceu o fim da repetência. Isso
tudo aconteceu em São Paulo, pois aqui se vivia um processo intenso
de industrialização. O projeto encabeçado por Paulo Freire não conseguiu atingir as suas metas, se analisarmos a situação atual da Rede Municipal de Ensino. Parece que as reformas não conseguiram passar do plano teórico. Temos hoje um sistema caótico extremamente criticado pelos docentes... Sim, os professores gostam de dizer que a implantação dos ciclos foi imposta, mas não é verdade. O que aconteceu é que não tivemos tempo para trabalharmos a implantação devidamente. Veja bem, Luiza Erundina sucedeu Jânio Quadros e Paulo Freire assumiu a Secretaria de Educação deixada por Paulo Zinge, jornalista ligado aos movimentos paramilitares anticomunistas. A situação estava caótica. Jânio havia punido 22 mil professores e demitido 2,5 mil funcionários. E se não bastasse, antes de deixar a Prefeitura decretou um reajuste de 120%. Situação real: o mesmo sindicato que caracterizava Jânio fascista, dizia o mesmo de Erundina, caso ela não aumentasse imediatamente os salários. A vontade de dialogar dos professores não era grande. Tínhamos que reestruturar o sistema e precisaríamos de tempo hábil para isso. Começamos um trabalho sério, valorizando o social, mas fomos surpreendidos pela vitória de Maluf. Estávamos certos que o PT reelegeria um sucessor para continuarmos. Nosso trabalho foi interrompido. Que tipo de trabalho foi feito? Precisávamos primeiro investir na estrutura das escolas. Quando assumimos faltavam 25 mil carteiras e os alunos faziam rodízio ou assistiam às aulas sentados em caixotes de madeira, utilizados para guardar maçã na feira. Só depois pensamos o projeto pedagógico. Paulo Freire e seu assessor, Mário Sérgio Cortella, não queriam baixar pacotes. Olha, os pacotinhos são uma tentação. Estávamos com o diário oficial ao lado e sabíamos que se tomássemos uma decisão tudo poderia ser diferente e melhor. Mas, não. Pacote gera resistência e preferimos investir mais tempo conversando com a Rede, saber dos problemas, da real situação. Os jornalistas não se conformavam com as medidas pouco extremas de Paulo Freire. Perguntavam com muita insistência e provocação: "Escuta professor, vocês não vão invadir os bancos e transformá-los em escolas?" E ele respondia: "em Cuba e na Nicarágua para fazer isso tiveram de fazer uma revolução armada de muitos anos". Só para saber qual era a cobrança que existia sobre o Paulo Freire. "Pô, você só vai fazer isso? Discutir com os professores, conseguir assessorias, deixar eles conversando?" Existe esta realidade e o professor vai dizer que o sistema foi imposto. Mas qualquer um afirma que foi a melhor gestão até hoje. E por que a implantação ocorreu só no último ano da gestão da Erundina? Foi uma questão política. O PT achou que elegeria seu sucessor. Por isso implantamos os ciclos nos últimos seis meses. Achávamos que a rede já tinha experiência para organizar o ensino em ciclos, pois tínhamos implantado em algumas escolas que poderiam servir de vitrine. Trabalhamos com a abordagem de interdiciplinaridade fundamentando a idéia. Começávamos com um trabalho com a comunidade, fazendo a leitura do universo dos moradores. Partimos do pressuposto de que se não conseguirmos olhar para os lados, não entenderemos o mundo. O primeiro desafio para um processo educacional eficiente é decodificarmos onde estamos. Trabalhamos com os professores e com a comunidade o regimento de escola durante um ano, mas não houve continuação. Existiu um acidente de percurso. Se eu pudesse voltar atrás, faria a reforma logo no início da nossa gestão, como fez Porto Alegre e Belo Horizonte, e ao longo do tempo iríamos avaliando o funcionamento do novo sistema. Mas, em São Paulo, o currículo continua divido em ciclos... Aqui não têm ciclos, male-male a sua implantação existiu. Há em São Paulo uma seriação com o codinome de ciclos. O ensino é dividido em série, a organização é seriada, os professores trabalham assim, os livros didáticos acompanham este ritmo, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) funcionam em série. A opção de trabalhar com interdiciplinaridade pressupõe uma mudança na dinâmica da escola que é não é simples. Os professores elaborando um projeto comum também necessitam de um investimento. E eu diria que nós tínhamos as condições históricas dadas. Poderíamos ter adotado assessorias por regiões. Paulo Freire era um foco aglutinador, radiador, entusiasmante. Os ciclos existem simplesmente para diminuir as estatísticas de evasão e repetência. Por que os professores são tão resistentes? Primeiro pela sua formação. Nos cursos de pedagogia e de licenciatura não há a discussão sobre o sistema. Segundo, a implantação implica em mudanças de jornada de trabalho, pois os professores têm de ficar mais na escola. A avaliação também os assusta, porque avaliar o processo e não o produto final exige um conhecimento muito maior do conteúdo. Para tanto é necessário um número menor de alunos em sala de aula para que se possa fazer uma avaliação individual, situação que não existe na cidade. Qual o maior problema do sistema educacional brasileiro? É a despolitização
da educação. É difícil alguém que tenha
consciência da relação entre politização
e pedagogia, o que parece óbvio. Paulo Freire disse: "o ato
pedagógico é um ato político". Por quê?
Não é um ato partidário, mas quando eu escolho os
conhecimentos para serem transmitidos eu estou optando por uma determinada
visão de mundo. E a forma como eu trabalho em sala de aula também
reflete minha posição em relação ao mundo.
Se me coloco como um rei, ou como uma pessoa que trabalha junto, que ajuda,
divide e aprende estou apresentando um modelo para meus alunos. E este
é um papel fundamental dos professores e do conhecimento. Mas a
questão não é tão simples como parece. Se
pegarmos essa escola aqui (Feusp), voltada para a formação
de docentes, o professor é aquele que sabe, como o governante é
o que sabe mais e o patrão aquele que decide melhor. A secretaria de Educação
do Estado de São Paulo também adotou a Progressão
Continuada em 1998 e a situação da escola estadual é
ainda mais crítica do que a escola municipal. A proposta que fizemos para São
Paulo em 1989, na gestão de Luiza Erundina, do PT, não tem
nada a ver com a proposta da secretária do Estado (Rose Neubauer,
PSDB) que criou a promoção automática. A proposta
aqui é outra coisa. É redução estatística
de reprovação, ponto. Não tem nada a ver se o aluno
aprendeu ou não. É uma forma simplista. Ela pegou o argumento
de uma idéia com fundamentos pedagógicos e o esvaziou. Utilizar
frases que indicam o politicamente correto, como a questão explícita
na Constituição que estabelece que a educação
é um direito de todos. Eu acho que ela não acredita nisso.
Apesar de se falar muito em construtivismo, a proposta hoje é decididamente
comportamentalista. |