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Bernard Cassen quer extirpar
o vírus liberal Por André Deak e Rodrigo Savazoni 3 de março de 2002 - Presidente
mundial do ATTAC (Ação para Taxação das Transações
Financeiras em Apoio aos Cidadãos) e diretor do Le Monde Diplomatique,
o francês Bernard Cassen, um dos mentores do Fórum Social
Mundial, fala pausadamente. Preocupa-se em responder as questões
com calma e utilizando as palavras exatas. Depois de passar horas conversando
com jornalistas de seu país de origem, desceu ao saguão
do hotel Plaza San Raphael, em Porto Alegre - no qual estava hospedado
- e, acompanhado de seu predileto charuto toscano, concedeu a seguinte
entrevista ao Em Crise. Bernard Cassen - Para entender o crescimento da rede, é preciso conhecer o perfil do Attac. Nós combinamos duas facetas: uma diz respeito à educação popular, capacitação e formação, com livros, folhetos, debates e conferências. Ninguém pode atuar se não entende o porquê. É preciso conhecer um pouco dos mecanismos, porque os detentores do poder conhecem. Isso é uma coisa. A outra é promover ações, marchas, o que corresponde a um grande desejo da população de participar, de estar nas ruas. Na França, como em outras partes do mundo, as pessoas esqueceram um pouco do que é sair às ruas. Acho que essa nossa forma de agir é a razão desse rápido crescimento. Entre o ano passado e esse ano acho que existiam 20 Attac... - Eram 14. - Isso. Havia alguns que estavam em formação. Hoje temos mais de 40. Porque em todas as partes do mundo há um vazio deixado pelas estruturas clássicas de representação. Os movimentos tradicionais não têm essa nossa dimensão ativista, não existia no passado essa combinação de educação e ação. Na minha opinião, isso também explica o rápido crescimento. - Existem muitas diferenças entres os diversos Attacs? - Não. Há uma carta, do Attac Internacional, que foi elaborada em dezembro de 1998. Desde então, para chamar-se Attac, deve-se acatar o que diz a carta, suas regras, sua tática de ação. - No Brasil, o Attac tem três núcleos organizados: em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. E no Rio há uma dissidência do Attac... - No Brasil? Eu não sabia disso... - Como se faz para juntar esses grupos? - O Attac Brasil não existe, mas sei que vai haver uma reunião para formá-lo. E isso não é um problema e não me surpreende. O Brasil é tão grande que podemos continuar com núcleos nas principais cidades e depois, quando o desenvolvimento for maior, formalizar um núcleo nacional. - Na América Latina a luta dos Attacs é contra o FMI, contra o imperialismo estadunidense, contra a Alca... O Attac França também apóia essa luta? - Estamos apoiando a luta contra a Alca.
Temos que impedir a sua implementação. Além disso,
estamos ao lado dos nossos companheiros da Argentina. Inclusive promovemos
panelaços mundiais em frente das embaixadas argentinas de diversos
países. - Isso porque a sigla é a mesma em todos os países. Nunca dissemos para que fosse, mas todos adotaram. Até no Japão a sigla é a mesma. Isso aconteceu de forma espontânea. A única exceção é o Attac Paraguai, por causa da semelhança do tom de vermelho com o Partido Colorado. - Qual é o futuro do Attac? Vai se transformar num partido? - Isso com certeza não. É impossível. Vamos continuar com esse processo de conscientização, promovendo debates e conferências e mobilizações, como temos feito até agora. - Ernst Lohoff afirma, em seu texto "Placebo ou Resistência Anti-Capitalista", que "existe uma ampla divulgação de conceitos de cor neokeynesiana no debate da antiglobalização. Não podemos dizer que a maioria dos manifestantes divinizem o Estado inquebrantável. Mesmo assim, iniciativas como ATTAC, que defendem incisivamente uma taxação reforçada dos ganhos especulativos, sempre determinam essencialmente o cenário, agrupando os amantes do falecido Estado em torno do ativo jornal Le Monde Diplomatique". O que você teria a dizer sobre isso? - Eu não comento a opinião que os outros têm sobre o Attac. Se ele diz que não somos um movimento revolucionário, ele tem razão. Como eu disse, somos um movimento de educação popular, orientado para a ação. Nada mais. Queremos tirar do cérebro das pessoas o vírus liberal. E há um outro texto, que foi distribuído na internet, dizendo que os interesses do Attac são outros, ligados ao capitalismo... Foi um tal de Laerte que escreveu isso, não? - Sim, Laerte Braga. - É um louco. Diz que eu sou amigo do Fernando Henrique, que estou ao lado das multinacionais, coisas desse feitio. Eu nunca falei com o Fernando Henrique. Mas não vale a pena comentar esse tipo de coisa, para não gerar uma discussão desnecessária. - De onde vem o financiamento do Attac? - Eu diria que, na França, entre 75% e 90% vêm das cotas que são divididas entre os membros e entidades. E temos subvenções do governo, mas somente para projetos específicos. Isso é normal. Você pode ser um movimento de esquerda e receber subsídios de um governo de direita. Existe uma tradição de financiamento das associações pelas autoridades públicas. E também temos subvenção da Comunidade Européia, ainda que ela seja alvo de nossos ataques. Nós consideramos que esse dinheiro nos pertence, porque somos cidadãos e o dinheiro não é do governo, é dos cidadãos. - O Attac acredita nesse tipo de governo, com esse tipo de representação que existe hoje? - Não abordamos esse tipo de pergunta. Os governos existem, os parlamentares existem, estão aí. Então vamos usá-los, são as ferramentas que temos. Nossos teóricos não formulam teorias de Estado. Existem membros que fazem isso, mas esse não é o papel do Attac. Em algum momento podemos discutir isso, mas até agora consideramos que todos eles foram eleitos democraticamente e são representantes do povo. O que fazemos é obrigá-los a cumprir seu papel. Temos direitos, e esses direitos devem ser cumpridos. Leia mais: |