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Passando
o abacaxi
FHC mostra
na passagem de cargo um Brasil que não corresponde à realidade.
É esse País que Lula terá que administrar a partir
de 2003.
Por Rodrigo
Savazoni
EmCrise 12/2002*
Última
semana de outubro, a primeira após a vitória de Luiz Inácio
Lula da Silva. Com a palavra, Antônio Carlos Magalhães, o
Toninho Malvadeza: "O FHC está falando assim para o PT: 'vai
lá, pode mexer no orçamento, à vontade, não
têm problemas, sinta-se em casa. Com isso, o PT nunca mais vai poder
dizer, quando Lula da Silva estiver governando, que o problema do orçamento
era da competência do Fernando Henrique'".
Foi preciso o cacique baiano gritar, ironizar, para que o coro dos contentes
se rompesse. Raposa sagaz, conhecedor, como poucos, dos meandros da política
nacional, ACM expôs, de forma persuasiva, o que setores da imprensa
e o governo atual tentam disfarçar: as armadilhas que o processo
dito democrático de transição esconde.
Desde a majestosa vitória de Lula nas urnas, estabeleceu-se pelo
Brasil um orgulho democrático superior ao proporcionado pela campanha
civilista de Rui Barbosa. Jornais, telejornais, revistas, grandes magazines
têm elogiado a atitude responsável de ambas as partes envolvidas.
Principalmente, a conduta de FHC, que transformou a transição
em seu último grande ato de governo - e, quem sabe, consolidar
a imagem de que seus oito anos teriam sido de grandes atos.
Lula, de alguma forma, contribuiu para isso ao dizer, em entrevista exclusiva,
na bancada do Jornal Nacional, que "a disposição do
presidente de fazer do processo de transição uma demonstração
efetiva da prática democrática muito agradou ao nosso partido".
É certo, não seria, mesmo, papel do presidente eleito agir
diferente. Sem derrotismo. Essa é a primeira vez que o Brasil assiste
a uma transição institucional, previamente organizada, cujo
objetivo é facilitar a vida do sucessor e permitir ao atual presidente
deixar o cargo com a consciência tranqüila. Apesar dos estragos
deixados na casa, que está muito, mas muito longe de ter sido deixada
"em ordem".
Herdeiro das dívidas
Da
herança da Fernandolândia consta um recorde histórico
de desempregados - mais de 11 milhões -, sem contar a quase metade
da população ativa que está subempregada, sem proteção
social e sem contribuir para a Previdência. A situação
da saúde é caótica para os pobres e, para os remediados,
restam os planos privados de saúde cada vez mais impagáveis
e donos do pedaço. Na semana seguinte ao segundo turno, a Petrobras
abriu as comportas dos preços que represava para não atrapalhar
ainda mais o candidato do governo.
Um terço da população que vive da linha da miséria
para baixo também não estrela os noticiários da transição.
Nesse show, tornou-se menos que coadjuvante o déficit público
recorde de 885,19 bilhões de reais, equivalentes a 63,9% do PIB.
E cerca de 100 bilhões de serviço da dívida que,
antes previsto para sair picadinho até 2004, passou a estar com
acerto previsto durante o primeiro semestre de 2003. Enfim, o país
que FHC tem mostrado em sua passagem de cargo democrática não
é o que vai passar para Lula administrar em 2003.
Não é novidade no currículo do atual presidente tentar
ser a celebridade maior da transição. Ele próprio,
vencedor das eleições de 1994, não facilitou o trabalho
do então presidente Itamar Franco. Unia-os, à época,
o Plano Real, cuja paternidade era disputada a tapas de luvas de pelica.
Essa disputa, inclusive, culminaria com o rompimento político do
paulista e do mineiro. A transição de 94 foi marcada pelo
ciúme, pela disputa de espaço na mídia, ainda que
ambos os envolvidos destacassem a suavidade, posto que compartilhavam
as mesmas concepções.
Desta feita, o discurso da suavidade novamente impera. No entanto, não
deixa de ser uma tentativa do atual mandatário em transferir responsabilidades
que lhe competem ao governo democrático e popular que assume o
Brasil no dia 1º de Janeiro de 2003.
Por exemplo, a definição do engessado Orçamento,
que implica (ou não) em reajuste no valor previsto para o salário
mínimo; a revisão do acordo com o FMI, cujas metas de superávit
podem ser alteradas, dificultando ainda mais a mudança de modelo
econômico; a mini-reforma tributária, exigência de
Lula durante o processo eleitoral e que está no Congresso para
ser votada. Até mesmo a escolha dos caças a serem adquiridos
pela Força Aérea Brasileira será submetida por FHC
à equipe de Lula.
Todas essas decisões são da competência deste agonizante
governo, mas recairão sobre as costas da equipe que desde o dia
29 de outubro é conduzida pelo prefeito licenciado de Ribeirão
Preto e coordenador do Programa de Governo da coligação
de Lula, Antônio Palocci. O ex-deputado federal, liderança
histórica dos bancários de São Paulo e um dos cabeças
da campanha de Lula, Luiz Gushiken, será o coordenador-adjunto
de transição - e terá a companhia do também
líder bancário e diretor eleito da Previ, Sérgio
Rosa, que cuidará de assuntos ligados aos fundos de pensão.
O deputado federal João Paulo Cunha (SP) dialogará no Congresso.
E o senador Tião Viana (AC) fará os trâmites no Senado.
Com isso, Lula está livre para compor o seu futuro Ministério
e José Dirceu, presidente do Partido dos Trabalhadores, para as
articulações políticas, fundamentais para a construção
da governabilidade.
Palocci e Gushiken ficarão alocados em Brasília, auxiliados
pelos 49 membros de sua equipe técnica, que estão sendo
divulgados aos poucos, à medida que os convites são aceitos.
Lá, no Centro de Formação do Banco do Brasil, pronto
para ser utilizado desde o dia 10 de outubro (eles também acreditavam
que Lula ganharia no primeiro turno), conviverão com 40 assessores
do atual governo, liderados pelo ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente.
Parente assumiu o posto de líder administrativo da transição
no dia 1º de outubro. Para ajudá-lo FHC indicou Armínio
Fraga - o presidente do Banco Central fará a interlocução
econômica - e assumiu para si a responsabilidade de fazer a interlocução
política.
Logo após o primeiro turno, ocorrido em 6 de outubro, Parente divulgou
a criação da Agenda 100, espécie de manual em que
constam os compromissos assumidos pelo atual presidente que vencem durante
os primeiros cem dias de Lula no comando do Brasil, a começar pelas
reuniões de organização da Alca, o acordo comercial
que os Estados Unidos estão ávidos por instalar em todo
o continente americano.
As pegadinhas, como sugere ACM - e todos os brasileiros que ainda não
se convenceram dos reais interesses da elite nacional -, estão
preparadas. Isso, no entanto, não exclui o fato de que nas poucas
semanas que restam antes da posse esses grupos de poder travarão
um "democrático" braço-de-ferro. De um lado, Lula
e sua equipe dispostos a fazer do processo de transição
um facilitador do futuro governo. Do outro, Fernando Henrique Cardoso
e seus asseclas, trabalhando com o princípio da colaboração,
mas dispostos a capitalizar algo de politicamente positivo desse momento
histórico que atravessa o Brasil.
Lula e o PT saíram, logo de cara, na frente. Adiantaram conversas
visando a construir alianças e governabilidade; reuniram partidos
da base de apoio para discutir o papel que terão e já anunciaram
medidas efetivas que acenam para uma mudança de prioridades na
condução do gasto público, como a criação
do Ministério da Emergência Social, para combater a fome
e a miséria a partir do primeiro dia de mandato.
A disputa começou. Somente o tempo dirá se a cordialidade
prevalecerá. De qualquer forma, é bom dar ouvidos a ACM
- por mais sórdido que isso pareça. Ele sabe, na intimidade,
como age o PSDB.
* Artigo
publicado inicialmente na Revista do Sindicato dos Bancários de
SP
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