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As novas resistências Por Chico
Villela*
François
Koenigstein, xará do escrevente, conhecido, amado e odiado como
Ravachol, morto aos 33 anos, como muitos clássicos poetas tuberculosos,
talvez faça falta hoje no mundo. Nos finais do século XIX
e começos do XX, época de fama e glória dos anarquistas
que jogavam bombas nas carruagens e nas respeitáveis fachadas de
reis e potentados, a personagem Ravachol chegou a ser musicada, como se
Lamartine Babo vivesse na França e a popularidade dos temidos e
perigosos justiceiros equivalesse ao clima do tranqüilo brasileirismo
de "O teu cabelo não nega...". Dancemos a Ravachola,
viva o som da explosão! Considerados 'delinqüentes natos' pelo antológico idiota Lombroso, os revolucionários anarquistas infernizaram a vida da elite de uma Europa deslumbrada pelo progresso tecnológico e pelo atrevimento dos artistas que rompiam todos os cânones de uma arte até então bastante comportada. E não se podia negar-lhes coragem: atiravam suas bombas em meio a impressionantes aparatos de segurança, invariavelmente eram detidos logo após e, na maioria das vezes, 'suicidados', quando não expostos à execração pública em processos rumorosos e exemplares. Eram homens-bomba que não morriam junto com as vítimas; tentavam permanecer vivos para jogar mais bombas. Marchas e Colunas Luiz Carlos Prestes ofereceu ao mundo um exemplo de desobediência civil ao reunir um punhado de bravos e sair em peregrinação armada por um país que pretendia sublevar contra a opressão das autoridades. Lampião político, e último cidadão com porte de estadista do país (depois de sua morte, só restaram negocistas), lutou e andou desbravando cantões ignotos e descobrindo ao mesmo tempo a verdadeira face de um país ainda incógnito para seus próprios cidadãos. Mao Zhedong, mais de duas décadas depois, reproduziria a saga da Coluna em sua Longa Marcha por uma China que ia sendo levantada em sua passagem. As revoluções socialistas armadas e a guerra de guerrilhas não foram exclusividade do século XX, que apenas assistiu a seu apogeu. Assaltantes de estradas sempre existiram, piratas até hoje atuam em rios e mares, até mesmo no urbano porto de Santos, dirigidos pela mesma concepção: atacar em vantagem e de surpresa, e fugir e esconder-se. As campanhas de desgaste sempre foram parte da estratégia de guerreiros que se surpreendiam em minoria numérica ou técnica. Quem inovou mesmo foi Gandhi. Sua talvez mais célebre afronta de resistência pacífica foi a decretação do fim do imposto do sal, entregue nas mãos dos vorazes britânicos, que se escondem nas barras de um vestido de rainha para não deixar transparecer sua permanente selvageria, exemplificada durante séculos e demonstrada há pouco, mais uma vez, no Iraque. Gandhi percorreu milhares de quilômetros durante meses em direção ao mar, sempre recebido com flores por onde passava, acompanhado por multidões de indianos e pela imprensa internacional. Ao final de sua peregrinação, sob os olhares do mundo, numa praia, curvou-se, apanhou um punhado de areia, deixou cair lentamente e decretou: não pagaremos mais pelo sal. Os teóricos de marketing até hoje estão de queixo caído com as implicações profundas do gesto de Gandhi. As caminhadas produzem comoção pública. Com um pouco de atrevimento, pode-se contemplar a caminhada como um enredo de novela, que se desenrola aos poucos e exige um desenlace. A caminhada de mais de mês do MST, há uns dois anos, parou a capital do país no dia da chegada, e levou à Esplanada dos Ministérios sua mais numerosa multidão, cem mil pessoas. Os ministérios fecharam, por precaução. Bobagem: num dia inteiro, milhares de famílias e pessoas nos gramados e nas pistas, discursos, bandeiras, muita alegria, pipoca e cerveja, e nenhuma 'alteração da ordem'. O velho e o novo Os comportamentos sucessivos e variados de resistência não são superados, sobrepõem-se; não desaparecem, apenas perdem destaque. Como na história do Brasil: as épocas vão-se imbricando, incapazes de sumir do mapa; a escravidão muda de figura, mas a face imunda é visível; as práticas políticas pessedistas e udenistas desafiam o tempo, repetindo refrões conhecidos; a situação fundiária 'muda' para o mesmo ramerrão. A histórica guerrilha vietnamita, inspirada por Ho Chi Min e comandada pelo general Giap, marcou o mais célebre momento em que um povo pobre e menos armado que o invasor, apoiado em suas poucas forças e grande astúcia, derrubou os pilares do novo império da rapina, cujo cetro os gringos arrebataram de europeus e ingleses. As guerrilhas, após a morte do seu ícone máximo Che, não acabaram; continuam, em todos os continentes, e agora no Iraque. A época
exige e ganha formas novas de protesto. Quem fez movimento estudantil
antes do fatídico AI5 sabe a diferença entre uma passeata
como a dos cem mil no Rio, uma caminhada dos tempos do Fora, Collor! e
um desfile festivo GLS na avenida Paulista. Mas quem continua vivo, e
não só em pé, também sabe perceber suas similaridades.
A afirmação pública de pretensões de alcance
político, feita na rua, braços dados com estranhos e amigos,
é apenas a capa mais superficial de tudo que as aproxima. O bom
humor também pode ser corrosivo, e a chatice vai deixando a cena
mesmo que os temas sejam absolutamente sérios. A arte, talvez na busca de significações numa época que as dissolve em nome de mercadismos reles, contamina-se pela política, a ponto de não se diferençarem. Um mês antes da posse de Lula, o grupo de artistas brasilienses reunidos sob o nome de Entorno realizou a ação 'Lavagem da Praça dos Três Poderes', com vassouras, sabão e água, um gesto político de tal clareza e consistência que dispensa explicações e comentários. Outros, menos sutis, dão recados óbvios, como os Confeiteiros sem Fronteiras, que alimentam com tortas e bolos o frontispício de autoridades em geral, sem seu consentimento, claro. Em outro contexto, mas com significação semelhante à da limpeza do Entorno, os habitantes de Saigon passaram dias lavando casas, edifícios públicos e monumentos após o escorraçamento das tropas gringas. Lembrando Mao, uma imagem vale por dez mil palavras. Isso à sua época; hoje, deve valer bem mais. Os nomes de alguns desses grupos são emblemáticos: Atrocidades Maravilhosas, A Revolução Não Será Televisionada, Formigueiro, Núcleo Performático Subterrânea, Rejeitados. A velhice dos salões e galerias cheios de paredes e obras dá lugar ao vigor de instalações, perfórmances, manifestações, teatros. A atitude artístico-política 'conservadora' dá lugar à expressão 'revolucionária', velha palavra que assume hoje cambiantes nuances a aponto de não ser mais identificada com facilidade, num jogo dialético permanente entre o 'velho' e o 'novo'. As tranças da rede A rede mundial de informação altera ainda mais o tal panorama. Um exemplo cabal pode ser vislumbrado nas palavras do jornalista egípcio Hani Sukrallah, editor da revista semanal Al-Ahram, respondendo a pergunta sobre o impacto da TV Al-Jazeera na sociedade árabe: "Teve um impacto assombroso, absolutamente assombroso. [...] Os canais de notícias, especialmente a Al-Jazeera, são agora assistidos nos lares, nos escritórios, nos cafés. [...] As pessoas estão mais engajadas e mais informadas." Mais adiante, sobre a questão do Iraque e a mudança de posição das populações árabes: "Os árabes descobriram que milhões de pessoas, até mesmo dentro dos EUA, saíram à rua para protestar contra a guerra, enquanto eles nada fizeram porque não podiam. Esse foi um alerta e também representou um desafio." Na internet operam grupos de ativistas que se valem das tranças da rede para basear a difusão de idéias e práticas de resistência. O grupo Adbusters (cujo artigo talvez ainda esteja nesta página, e cuja presença aqui é sintomática), que insiste em destacar a palavra fascismo como cerne do debate político estadunidense atual, é um manancial de novidades, sempre bem-humoradas, mas absolutamente contundentes. Sua campanha mais conhecida é a inserção de anúncios anti-Bush e anti-guerra na mídia, acompanhados do desenho de uma mancha de lama (ou outra coisa mais humana, na visão de alguns). Seu site é recheado de sugestões para ações efetivas, como o dia de não comprar nada, a semana da tv desligada, a retomada de espaços urbanos, os concursos de idéias (uma delas implicava vestir-se de banqueiro e plantar-se em esquinas com sinais de trânsito, correndo o chapéu com apelos como: Por favor, um dinheirinho pra gasolina da minha limusine). Contra-informações simples circulam pela rede, e abro parênteses para oferecer modesta contribuição. A empresa Intelig cobra mais caro que todas as outras pelos seus serviços. Para ela, inexiste grade de horários: tanto faz o incauto falar segunda à tarde ou sábado de madrugada, pagará o máximo. Que tal uma campanha de boicote ao 23? Chamadas de telefones fixos para celular são caras, mas você pode barateá-las se repetir o último dígito teclado; o custo será o do impulso comum. Chamar o 102 para pedir informações custa R$ 2,05; chame 0300-789-5900 e pague apenas R$ 0,27. Cartas leves pelo Correio custarão R$ 0,01 (1 centavo) se você acrescentar após o CEP as palavras: Carta Social. Você prometeu boicotar produtos e empresas dos EUA à época da invasão do Iraque? Então, continue: as tropas ainda estão matando por lá. Muitas das formas de resistência são aos poucos incorporadas ao exercício da cidadania. Os grupos de proteção ao consumidor e as organizações não governamentais militantes, por exemplo, fazem parte da vida dos cidadãos tanto quanto os governos, aos quais com freqüência se opõem. Limites da guerra As gangues de pichadores competem pelos pontos mais atrativos e pela grana do binômio spray & drogas com ferocidade. Recente reportagem do Correio Brasiliense revelou que mais de 50 pichadores, todos jovens, já morreram em tiroteios contra rivais na capital. Outros competem também, mas em paz relativa: a maioria dos hackers (há os do bem, dizem; os outros seriam crackers) limita-se a invadir sites importantes, sem interessar-se por segredos, apenas para pichar e destruir. O mais célebre hacker brasileiro, Psaux, um baiano jovem que desfigurou o site Securenet, num ataque carregado de ironia, afirmou em entrevista à revista Infoguerra que o fez para mostrar que era possível. Ao definir-se, traduziu 'defacer' por 'pichador virtual' e emendou: "Eu desfiguro porque gosto que as pessoas leiam o que eu quero falar. Se você me der [...] uma página numa revista, eu paro de desfigurar". Mentira? Pouco interessa: o importante é que o tenha dito. O poder da internet é contestado por Derek Holzer, criador do maior festival de mídia tática do mundo, o Next Five Minutes, na Holanda. Perguntado sobre a questão, tascou, como conta Andréa DiP na Caros Amigos: "O ciberativismo é muito bonito, muito poético, mas tem de ter algum efeito físico, algo tem de acontecer com seu corpo, sua voz, algo que as pessoas possam ver". Adiante: "O rádio é a melhor maneira de transmissão de idéias, principalmente se você lida com pessoas de pouca cultura"; "mídia tática não é internet". Psaux flutua por seu espaço a anos-luz de Ravachol, irmanado com pequenos sonegadores, infratores menores, cutucadores de onça com varas longas. Mas, à sua maneira, resiste. Muitos comportamentos originais de resistência vão permeando a vida social e sendo lentamente absorvidos, como o dos hackers que prestam serviços de segurança a empresas, e como o foram muitas reivindicações das feministas, as do universo GLS, o rock de protesto, a luta pelo direito à aparência informal, o uso de drogas leves. Algumas formas de resistência até passam, como passaram os chapéus e as bengalas, o hábito de cumprimentar vizinhos, o respeito aos mais velhos, a boa educação à mesa e outras velharias. Só a guerra convencional não passa: continua igual a si mesma, instrumento do arbítrio dos poderes, assassina e prepotente. E há resistências necessárias que devem ser criadas e fortalecidas. A desfaçatez com que políticos mentem clama por formas de combate. O patético presidente Bush oferece-nos exemplos inequívocos todo dia. FHC era mestre em falar mentiras doutorandas, como a afirmação, num primeiro de maio, perante imprensa internacional e câmeras, de que o salário mínimo nunca havia sido tão alto; era exatamente o contrário: estava em seu mais baixo valor histórico. Ainda semana passada, um major deu um golpe em São Tome & Príncipe liderando escassos novecentos militares e falando em restabelecer a democracia. Lula fala no espetáculo do crescimento, mantém juros e corta verbas sociais e ninguém chora de tristeza. A neocronista social da 'Folha' afirma, a sério, que a ex-cozinheira de FHC prepara um livro de comida para cachorro e ninguém acha graça. É preciso resistir à empulhação. Ravachol e sua objetividade fazem falta. Leia mais: *Chico Villela é escritor, editor e colaborador do EmCrise e NovaE. |