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Fórum e cobertura: objetivos divergentes A chamada grande imprensa não
se empenhou em divulgar os propósitos do encontro de Porto Alegre.
Ao contrário, cuidou de criá-los Por Oona
Castro Diz-se por aí que o Brasil é o país do futebol e do samba. Talvez seja por isso que a chamada grande imprensa tenha se esforçado tanto para caracterizar o Fórum Social Mundial de 2002: um grande carnaval globalizado, uma grande festa dos "esquerdistas" de todo o mundo. Mas a mídia não se empenhou tanto quanto costuma fazer em eventos como o do sambódromo carioca, os das ruas de Olinda e Salvador ou o das copas do Mundo. A equipe do jornal O Estado de S. Paulo, que vai à Coréia e ao Japão na Copa do Mundo, contará com oito jornalistas e outros doze profissionais (entre eles, repórteres fotográficos etc.). A Folha de S.Paulo não deve enviar, neste ano, mais do que cinco jornalistas. Apesar disso, a empresa publicou, com bastante antecedência, um caderno especial, de 16 páginas, no domingo (no último dia 3 de março), sobre Copas do Mundo. Em 1998, quando a Copa foi na França, a empresa Folha da Manhã S.A. recebeu 16 credenciais para seus jornalistas (e ainda se disse discriminada pela equipe de imprensa da CBF - já que o Grupo Estado recebeu 30 delas). A comparação pode parecer esdrúxula. Mas ela mostra que, quando há interesse, mesmo em épocas de "vacas magras", é possível contar com equipes proporcionais às dimensões dos eventos. A Folha de S.Paulo, por exemplo, enviou três repórteres renomados a Porto Alegre: Plínio Fraga, Sylvia Colombo e Márcio Senne de Moraes. Contavam ainda com um correspondente da sucursal de lá. Contenção de despesas? Pode ser. Mas não me parece tão caro enviar repórteres ao sul do País, como o é mandá-los para o outro lado do mundo. Fica difícil saber se os jornalistas não entenderam nada ou não quiseram entender o que acontecia nas atividades do Fórum, de um modo geral. A Rede Globo priorizou mostrar os danos causados pelo evento ao trânsito da cidade, além de veicular imagens que tornavam o Fórum algo similar à uma feira de produtos quaisquer. Um dos organizadores do evento, Sérgio Haddad, da Abong (Associação Brasileira das ONGs), disse logo no início do evento, a um repórter da Globo, que o Fórum não tinha como objetivo elaborar um documento único; isso porque o principal mote do encontro era a contrariedade ao chamado pensamento único. Apesar da declaração, a Folha de S.Paulo, o Estado de S. Paulo, a Veja e o Zero Hora buscaram, em toda a cobertura, apontar a incapacidade do evento em produzir um documento único e soluções. Ora, que obsessão é essa por soluções? Enquanto muitos dos participantes buscam elaborar projetos políticos e econômicos bastante diferentes do que vemos hoje, a Mídia e parcela da sociedade esperam que o Fórum Social Mundial crie soluções para os problemas gerados pelo capitalismo, como a miséria, por exemplo. O Sociólogo Chico de Oliveira declarou, segundo a própria Folha de S.Paulo, que "o socialismo não pode catar o lixo do sistema capitalista. Tem de destruir o lixo. Se nos conformarmos em apenas coletar o lixo do capitalismo, estaremos condenados a ser coletores de lixo". O modelo que o jornal paulista adotou para cobrir (ou encobrir) o encontro em Porto Alegre foi o de polarizar os Fóruns que aconteciam concomitantemente: o Econômico, em Nova Iorque, e o Social, em Porto Alegre. Com os enviados especiais, Sylvia Colombo e Plínio Fraga e Márcio Senne de Moraes, ao Rio Grande do Sul, Clóvis Rossi e Sérgio Dávila, aos Estados Unidos, a Folha praticamente inverteu os sentidos dos encontros. Desenhou o Fórum Econômico preocupado com a pobreza do mundo, e o Fórum Social, ocupado apenas com chavões, festas e questões de menor importância - o que fica claro com os o uso das expressões "pão e circo", "uma outra crítica é possível", entre outras. Plínio Fraga também afirmou em uma de suas críticas: "o Fórum Social Mundial tem um inegável efeito catártico e propagador dos alquimistas do terceiro milênio, que tentam transformar em ouro ideológico filosofias, proposições e arranjos políticos locais ou planetários". Enquanto isso, Clóvis Rossi fazia matérias, cujas manchetes eram "intolerância zero", em elogio a Nova Iorque. A reportagem na Folha sobre o discurso de Saramago simplesmente inverteu seu propósito. O escritor alegava que os sindicatos e partidos de esquerda tinham que radicalizar suas posições, não criticava a oposição pelas críticas que fazia, como fez crer o jornal. Já o Zero Hora fez uma cobertura mais ampla e intensa do evento. Afinal, foi o grande evento da cidade entre os dias 1º e 5 de fevereiro. Escolheu como mote principal da segunda edição do Fórum as reivindicações por paz, como conseqüência da Guerra travada no último ano. Criou, assim, a principal tese do encontro de Porto Alegre. E desqualificou-a logo em seguida, com uma reportagem e um artigo da editora de política, afirmando que o evento que pedia paz não a aplicava em seu próprio espaço, sendo os participantes intolerantes com o representante do Banco Mundial. Como não podia deixar de ser, a Veja também resolveu dizer qual deveria ser a principal preocupação dos ativistas que foram ao Fórum: "foi uma surpresa que nos primeiros dias os participantes tenham silenciado sobre um assunto de fundamental interesse para os pobres... convenhamos que falar em enfiar a mão no bolso dos generais do Pentágono é desviar a questão do assunto principal para o Terceiro Mundo, as políticas agrícolas injustas dos países ricos." Publicou também notícia produzida pela Associated Press, sob o título "A Ordem é crescer - o Fórum Mundial realizado em Nova York constata o fim da recessão americana e vê sinais globais de recuperação". Pior e mais frustrante do que não ir ao Fórum foi tentar acompanhar a cobertura feita do evento pela dita "grande imprensa". Os que têm acesso à internet ainda tiveram uma saída: ler as matérias feitas para sites que não fazem parte do circuito desses jornais e emissoras e a ciranda da informação formada por repórteres de vários veículos da considerada "mídia alternativa", "mídia independente" ou ainda estudantes de universidades de jornalistas "isolados". Cada veículo tratou de eleger um objetivo principal do Fórum Social Mundial. O Zero Hora considerou a campanha por paz e tolerância o grande mote do evento. A Veja afirmou categoricamente que o assunto principal para o terceiro Mundo são as políticas agrícolas dos países ricos. A Folha falou sobre globalização para os excluídos. Feita a eleição de um tema como principal, os veículos fizeram de tudo para desqualificar o evento, mostrando (ou criando) as incoerências do Fórum Social Mundial. Parece verdade que o encontro seja marcado por uma série de contradições, próprias de grupos que acreditam nas diferenças e diálogos. O que só é motivo para enaltecer um encontro que, como qualquer outro, tem falhas. Mas busca uma coisa: mudanças na ordem mundial, coisa que a tão respeitada "grande imprensa" está longe de querer. |