Estúpidos homens brancos "É impressionante que eu tenha vencido. Eu estava concorrendo contra paz, prosperidade e responsabilidade." (George W. Bush, 14/6/2001, falando ao primeiro-ministro suíço Goran Perrson, sem saber que a câmera de TV estava gravando e ao vivo.)
- And the Oscar goes to Bowling for Columbine! Aplausos gerais. Assim que o homem subiu ao palco e recebeu a estatueta, Hollywood escutou um breve discurso que entrou para a história: - Em nome de nossos produtores Kathleen Glynn e Michael Donovan (que é do Canadá), eu gostaria de agradecer a Academia por este prêmio. Eu convidei meus colegas de categoria para subir comigo ao palco. Eles estão aqui em solidariedade porque nós gostamos de não-ficção. Nós gostamos de não-ficção, contudo vivemos em tempos fictícios. Vivemos em um tempo onde temos resultados fictícios de uma eleição que elege um presidente fictício. Vivemos em um tempo onde temos um homem nos enviando para a guerra por razões fictícias. Não importa se é a ficção das fitas de vídeo ou dos alertas vermelhos. Nós estamos contra esta guerra, Sr. Bush. Tenha vergonha, Sr. Bush, tenha vergonha. Quando você tem o Papa e os Dixie Chicks contra você, é porque seu tempo acabou. Muito obrigado. Assim, sem entender muito bem o que estava acontecendo, os brasileiros que assistiram a entrega do Oscar no dia 23 de março de 2003 ficaram conhecendo o documentarista e escritor Michael Moore, autor do best-seller Stupid White Men (2001). O livro Como se pode perceber pelo discurso na entrega do Oscar, Moore é um homem de atitude e não tem medo de dizer o que pensa. Por isso, também, Stupid White Men foi censurado nos EUA e jamais seria publicado se não fosse a enorme pressão que os bibliotecários norte-americanos exerceram sobre a editora HarperCollins Ltda., principalmente através de e-mails furiosos. O livro já estava escrito, com 50 mil cópias impressas, quando então houve o ataque de 11 de setembro de 2001 e o editor mudou de idéia, achando que era uma má hora para se ir contra o governo de Bush e que o livro estava "fora de sintonia" com o pensamento americano. Para que fosse lançado, Moore teria que reescrever cerca de 50% do livro. Quando a história se espalhou pela internet houve enorme pressão pública e finalmente o livro foi publicado, sem alterações. Tornou-se recordista absoluto de vendas nos EUA e na Inglaterra e ganhou alguns prêmios - o que prova que "o pensamento americano" não está tão perdido assim. No Brasil, o livro foi lançado apenas esse ano, pela editora Francis, com o nome Stupid White Men - Uma Nação de Idiotas. A julgar pelo atraso no lançamento e a quase inexistente cobertura da imprensa, talvez também se pense que o livro esteja "fora de sintonia" com o público brasileiro. A versão inglesa Moore é ácido contra o governo de George W. Bush como poucos costumam ser. O peso de seus ataques não está no tom satírico - presente em todas as linhas; o livro é recheado de dados importantes dos últimos dez anos de governo norte-americano, como o número de bombas atômicas que os EUA foram construindo ano a ano e a relação entre o quanto o governo norte-americano gastaria para levar água potável para o mundo todo (25% do programa "Guerra nas Estrelas"), ou ainda a proposta do governo sobre quanto dinheiro será destinado para o Pentágono durante os próximos cinco anos (US$ 1,3 trilhão) e quanto os EUA precisam para renovar e melhorar cada escola do país (US$ 112 bilhões). Com tanta informação como argumento, é difícil não ficar ao lado de Moore. Para que se tenha uma idéia do tipo de ataque que Moore faz aos EUA e à "máfia" de Bush Pai, vale destacar alguns pontos do livro. Sempre que ele escreve a palavra "presidente" ao se referir a George W. Bush, por exemplo, a escreve entre aspas, porque não o considera eleito. Chama as eleições norte-americanas de "golpe". Em um capítulo chamado "Querido George", onde escreve uma carta ao "presidente" Bush, depois de estilhaçar, com dados e números, as façanhas do novo governo, pede que Bush responda três questões relevantes ao mundo e ao povo norte-americano, e explica detalhadamente o que quer saber sobre cada uma delas. As perguntas são: 1. "George,
você é capaz de ler e escrever em um nível adulto?" O livro passeia por uma grande variedade de temas polêmicos, sempre no estilo sarcástico-nervoso. Muito bom humor, do tipo que o Brasil, principalmente, não está acostumado a escutar: fúria contra os políticos, sem limites. Outro exemplo: há um quadro comparativo chamado "Boris Yeltsin vs. Gêmeas Bush", onde são comparados os "recordes" de cada um: Gêmeas
Bush: flagradas bebendo em um nightclub em Austin. Gêmeas
Bush: Presas por usar falsa identidade para comprar bebida. Ou uma tabela de duas páginas chamada "Dia típico na vida do 'presidente' George W. Bush:" 8:00 am.-
O presidente dos Estados Unidos se levanta e checa se ainda está
na Casa Branca. Matem os branquelos Os únicos deslizes ocorrem quando Moore tenta ser engraçado ou irônico demais. Claro, esse terreno é arenoso e não pode ser muito bem delineado - prova disso são os filmes de Woody Allen, um gênio do humor político, mas que não é engraçado o tempo todo. Moore, por exemplo, calcula que se nunca nenhum negro o prejudicou na vida, então o problema está com os brancos. Se foram os brancos que iniciaram todas as guerras, criaram as pragas e causaram todo o mal do mundo, então devemos nos livrar dos brancos. Assim vão-se quase 30 páginas. Fora esses e outros pequenos trechos, o livro é muito bom. Na versão inglesa, aumentada de uma introdução e um epílogo, Michael Moore explica que escreveu, inicialmente, pensando apenas nos habitantes dos Estados Unidos. A versão brasileira, se foi produzida dentro da concepção de "ação direta" em que o livro foi escrito, precisaria, por exemplo, trocar toda a coleção de endereços eletrônicos de políticos norte-americanos que há no livro pelos dos atuais políticos brasileiros. Moore disponibiliza os e-mails para quem quiser fazer protestos on-line e garante que eles criam algum impacto. A mesma atualização deveria ser feita quando aparecem trechos de leis que defendem o direito a livre expressão, livre manifestação e livre publicação de textos (contra sua escola, por exemplo). Mas divertido, divertido mesmo, seria ver Stupid White Men na relação dos mais vendidos da Veja.
*André Deak é colaborador da CirandaBrasil.Net e correspondente em Londres do site EmCrise. |