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A influência cultural na produção da notícia Por que algumas faculdades funcionam como "dispositivos de filtração de pessoas que pensem de forma independente", propagando preconceitos, conformismo e obediência? Porque aquilo que não serve ao mercado não serve para a faculdade. Por André
Deak O jornalismo
pode ser uma mera "prestação de serviços",
informando como está o trânsito nas estradas, se amanhã
vai chover ou não, quanto foi o jogo e o que disse o ministro,
mas também pode ser "um documento do seu tempo e dos tempos",
como dizia o jornalista Marcos Faerman**. Para isso, deve descobrir o
inusitado, aquilo que está escondido e que interesses obscuros
não querem revelar. Acima de tudo, deve contextualizar. Esse, sim,
é o jornalismo transformador. *** No dia 11
de setembro de 2001, quando ocorreu o ataque terrorista ao World Trade
Center em Nova York, a rede de televisão norte-americana CNN
fixou, no canto inferior da tela, a frase "USA under attack",
enquanto mostrava as imagens dos prédios em chamas, apesar de os
Estados Unidos não estarem sob ataque contínuo, como dá
a entender a mensagem. No dia seguinte, todas as páginas da seção
internacional do jornal O Estado de S. Paulo traziam na parte superior
(o chamado "chapéu", no jornalismo) a frase "EUA
sob ataque". A Folha de S. Paulo publicou uma fotografia de
página inteira, como se fosse um pôster, de soldados hasteando
a bandeira norte-americana em meio aos escombros. Las universidades, por ejemplo, no son instituciones independientes. Puede haber gente independiente esparcida por ahí entre ellas pero eso también ocurre en los medios. También es cierto en las grandes empresas en general. (...) La gente que haya que no se ajuste a la estructura, que no la acepte y la internalice (no puedes realmente trabajar con ello si no lo has internalizado y te lo crees), digo que la gente que no haga eso probablemente será excluida durante el camino, desde la guardería hasta el final. Hay todo tipo de dispositivos de filtración para deshacerse de la gente que piense de forma independiente y pueda crear problemas. Aquellos de vosotros que hayáis ido a la universidad sabéis que el sistema educativo está muy enfocado a premiar la conformidad y la obediencia; si no haces eso, eres un alborotador [baderneiro]. Así pues, es un dispositivo de filtración que acaba produciendo gente que, de forma realmente honesta (no mienten), han internalizado el marco de creencias y actitudes del sistema de poder en la sociedad. Pode-se concluir
que não se trata de uma atitude conspiratória, nem que,
necessariamente, qualquer jornalista "faça o jogo do poder"
porque foi "comprado" ou que escreva qualquer coisa pensando
em doutrinar as pessoas, de forma maquiavélica, imaginando que
o "receptor" é um pote vazio que ele poderá preencher
com o "conteúdo" que bem entender. Simplesmente podem
querer, sinceramente, informar as pessoas, de acordo com suas convicções.
Contudo, baseiam-se, em parte, naquilo que lhes foi ensinado na universidade
e, conforme o caso, estarão de acordo com uma visão reducionista
e preconceituosa da história. Cada vez mais, faculdades e universidades têm sido administradas como se fossem negócios. (...) A pluralidade do ensino e das opiniões, a ênfase na pesquisa, a reflexão crítica passam a dar lugar à busca desenfreada por resultados pragmáticos. Engraçado, pois a prática se aprende fazendo e não em salas de aula ou em livros, que deveriam servir para entender e pensar melhor a realidade. (...) As universidades públicas, que sempre formaram pessoas mais críticas, estão se transformando em "Universidades de Resultados": têm que mostrar que são produtivas. (...) A produtividade é medida por números: número de publicações, número de orientados na pós, número de cursos de extensão etc. (...) O professor que pesquisa, estuda e reflete é substituído pelo profissional que apresenta fórmulas mágicas (que se vende como "o que sabe fazer"), pois ensina quem é bem adestrado e bom de palco, não quem pensa ou sabe ensinar um sujeito a aprender por conta própria. A professora Neizy Cardoso, presidente do Sindicato dos Professores de Jundiaí, afirma: "Na maioria das universidades particulares, os professores que pensam raramente assumem as coordenações ou chefias de departamentos. Eles são podados pelos seus questionamentos e por muitas vezes não aceitarem nem compactuarem com os ditames do dono da escola". Todo esse processo que leva intelectuais, filósofos e professores a um pensamento unilateral é o que influencia também a cobertura que os jornalistas fazem no dia-a-dia. A cobertura zapatista (que não foi) feita pela revista Veja apresentou esses sintomas, apesar de Clóvis Rossi presumir que o tratamento que a revista dispensou à caravana do EZLN esteja baseado em um conceito político: No caso da Veja, suponho que seja atitude política. Deixou de ser uma revista para ser um panfleto neoliberal. Mesmo assim, não tem nenhuma informação. O mínimo que se pede para fazer um panfleto é que se saiba o que está acontecendo, mas lá não tem nada. (...) Deve dar urticária nos caras ver o sujeito com passa-montanha na cara. Chomsky, entretanto, sustenta que fazer jornalismo opinativo como se fosse informativo é um sintoma cultural e não uma atitude política planejada. Eventualmente, o jornalista não sabe o que está fazendo - escreve assim porque o preconceito está internalizado e não se percebe. Tornou-se um hábito, perdendo, inclusive, a condição de preconceito. A seleção de pautas também é feita segundo esse "hábito", assim como a reprodução das notícias vindas das agências e a escolha das notícias que serão publicadas ou não. Tudo isso é feito sob uma ótica preconceituosa que passa despercebida. Aliás, as próprias notícias que chegam das agências já estão impregnadas de opinião e moldadas pela cultura, seja no texto ou na escolha das pautas. E de maneira alguma poderemos chamar de censura o que ocorre nas agências. Ele explica: ...cuando pasas por el sistema educativo de élite, (...), aprendes que hay ciertas cosas que no está bien decir y hay ciertas ideas que no está bien tener. Ese es el papel socializante de las instituciones de élite y si no te adaptas te apartan. (...) Cuando criticas a los medios (...) dicen, con mucha razón, "Nadie me dice qué tengo que escribir. Escribo lo que quiero. Todo ese rollo sobre presiones y limitaciones es una tontería, yo nunca tengo ninguna presión". Lo cual es completamente cierto, pero el tema es que no estarían ahí si no hubieran demostrado previamente que nadie tiene que decirles qué escribir porque ya dirán lo correcto ellos mismos. Portanto, a origem dos erros cometidos nas coberturas internacionais em geral, e acusados no caso da cobertura zapatista, é cultural, no sentido mais amplo do termo, quando até mesmo influências políticas são determinadas por uma educação que tem "os olhos voltados para os EUA e para a Europa". Sob o ponto de vista da técnica jornalística (e da ética), esses erros poderiam ser apontados da seguinte forma: 1. Não houve uma clara separação entre informação e opinião. Não que se faça aqui a defesa de um texto "objetivo" e "imparcial", impossível de ser alcançado e tão discutido nas universidades. Entretanto, existe um tipo de linguagem mais adequada a artigos do que a reportagens. 2. O reducionismo aplicado às reportagens afeta profundamente a interpretação das notícias. É muito mais simples acreditar e sugerir que os zapatistas são rebeldes inconformados que lutam contra um governo democrático do que explicar que nem os zapatistas são tão rebeldes, nem o governo é tão democrático. Nesse caso, como afirmou Arbex, "a sensação de 'falta de tempo' para entender a fundo uma notícia estimula o recurso ao clichê, ao preconceito, à reiteração de concepções já formadas" . Ou, melhor ainda, como explicou o jornalista Leão Serva: O reducionismo jornalístico acaba funcionando como o próprio reducionismo nacionalista - recusando informações mais "complicadas", digamos, do que conceitos excludentes como raça, nação, pátria etc. (...) A ausência de conhecimento de uma informação pelo receptor (...) pode fazer com que uma história complexa se torne um caso de maniqueísmo. Essencialmente, isso se explica pela falta do contexto na notícia: "O trabalho jornalístico (ou do historiador) será o de explicar, da melhor maneira possível, o encadeamento de eventos que produziram um fato considerado relevante." 3.
A falta de uma pluralidade de vozes na cobertura. Normalmente, só
as fontes oficiais são ouvidas e, consequentemente, apenas a versão
oficial é publicada - isso, é claro, quando o assunto não
é completamente ignorado, como fez a revista Veja. Na cobertura
da caravana zapatista, era comum encontrar reportagens publicadas sobre
os pontos de vista do governo mexicano, na voz de um ministro, deputado
ou senador, ao passo que raras vezes se viram entrevistas com indígenas,
justamente aqueles que lutavam por seus direitos e por isso "tornaram-se
notícia". Muitas pautas nunca "são notícia"
simplesmente porque nenhuma agência internacional achou o assunto
interessante. Povos ficam esquecidos e nunca são ouvidos, ficam
sem visibilidade na imprensa - e, se "se não está no
jornal, não existe" -, são condenados ao esquecimento. * Parte do
projeto de conclusão de curso da Faculdade Cásper Líbero
apresentado em nov/2001. |