A influência cultural na produção da notícia

Por que algumas faculdades funcionam como "dispositivos de filtração de pessoas que pensem de forma independente", propagando preconceitos, conformismo e obediência? Porque aquilo que não serve ao mercado não serve para a faculdade.

Por André Deak
EmCrise* – 15/05/2002

O jornalismo pode ser uma mera "prestação de serviços", informando como está o trânsito nas estradas, se amanhã vai chover ou não, quanto foi o jogo e o que disse o ministro, mas também pode ser "um documento do seu tempo e dos tempos", como dizia o jornalista Marcos Faerman**. Para isso, deve descobrir o inusitado, aquilo que está escondido e que interesses obscuros não querem revelar. Acima de tudo, deve contextualizar. Esse, sim, é o jornalismo transformador.

Partindo desse princípio surgiu a monografia A manipulação da notícia na cobertura da caravana zapatista: uma análise do jornalismo internacional feita a partir da revista Veja e dos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, apresentada no final do ano passado na Faculdade Cásper Líbero. Sem entrar em detalhes sobre quem são os novos zapatistas do México ou os motivos que levaram à escolha desse inusitado tema, o trabalho foi capaz de despertar uma perspectiva do jornalismo às vezes esquecida (ou propositadamente abandonada) depois da conquista do diploma.

Abaixo, uma versão reduzida da conclusão do trabalho onde são apontadas algumas falhas diárias do jornalismo e suas origens. Que sirva para fomentar o debate sobre o jornalismo transformador, assim como a preocupação de buscá-lo sempre.

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No dia 11 de setembro de 2001, quando ocorreu o ataque terrorista ao World Trade Center em Nova York, a rede de televisão norte-americana CNN fixou, no canto inferior da tela, a frase "USA under attack", enquanto mostrava as imagens dos prédios em chamas, apesar de os Estados Unidos não estarem sob ataque contínuo, como dá a entender a mensagem. No dia seguinte, todas as páginas da seção internacional do jornal O Estado de S. Paulo traziam na parte superior (o chamado "chapéu", no jornalismo) a frase "EUA sob ataque". A Folha de S. Paulo publicou uma fotografia de página inteira, como se fosse um pôster, de soldados hasteando a bandeira norte-americana em meio aos escombros.

O que têm esses episódios em comum, em maior ou em menor grau, com as coberturas da caravana zapatista feitas pela revista Veja e pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo? Em todos eles, a manipulação da notícia sofreu fortes influências culturais, prejudicando o objetivo de esclarecer o leitor.

No caso "EUA versus Bin Laden", é evidente que o preconceito inspira as manchetes e as notícias, tanto que gerou muitos artigos a respeito. Com os zapatistas, isso também ocorreu, sem que a maior parte das pessoas se desse conta ou discutisse a manipulação das notícias.

Enquanto, para a Veja, a caravana zapatista até a capital mexicana não valeu nem sequer uma linha de notícia, O Estado e a Folha assumiram a visão das agências internacionais, européias principalmente, que mostram o zapatismo mais como uma luta indígena exótica e curiosa do que como uma revolução de um povo marginalizado. Segundo Paulo Nogueira, editor de internacional de O Estado, os zapatistas "ficam lá, tocando violão... Mas não é uma Farc, que tomou um território. É curioso, mas não levo muito a sério".

A cobertura brasileira sobre o EZLN seguiu a linha do "movimento indígena curioso". Exemplo disso é a repetição dos estereótipos culturais do índio, que não acrescentam informação nem geram debate sobre a democracia, verdadeira intenção dos zapatistas - apenas propagam preconceitos. Isso fica claro pelas fotografias publicadas, todas de agências européias, que mostram índios folclóricos, no meio do mato, ou vestidos com roupas "exóticas".

O professor de lingüística do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), Noam Chomsky, tem uma teoria que explica porque os jornalistas passam tantos preconceitos naquilo que escrevem, servindo inclusive ao sistema de "propaganda" do governo (no caso zapatista, era interessante para o governo Fox divulgar a imagem dos "rebeldes inconformados"). Na versão espanhola do site Z Magazine, onde escreve artigos, Chomsky descreve esse fenômeno:

Las universidades, por ejemplo, no son instituciones independientes. Puede haber gente independiente esparcida por ahí entre ellas pero eso también ocurre en los medios. También es cierto en las grandes empresas en general. (...) La gente que haya que no se ajuste a la estructura, que no la acepte y la internalice (no puedes realmente trabajar con ello si no lo has internalizado y te lo crees), digo que la gente que no haga eso probablemente será excluida durante el camino, desde la guardería hasta el final. Hay todo tipo de dispositivos de filtración para deshacerse de la gente que piense de forma independiente y pueda crear problemas. Aquellos de vosotros que hayáis ido a la universidad sabéis que el sistema educativo está muy enfocado a premiar la conformidad y la obediencia; si no haces eso, eres un alborotador [baderneiro]. Así pues, es un dispositivo de filtración que acaba produciendo gente que, de forma realmente honesta (no mienten), han internalizado el marco de creencias y actitudes del sistema de poder en la sociedad.

Pode-se concluir que não se trata de uma atitude conspiratória, nem que, necessariamente, qualquer jornalista "faça o jogo do poder" porque foi "comprado" ou que escreva qualquer coisa pensando em doutrinar as pessoas, de forma maquiavélica, imaginando que o "receptor" é um pote vazio que ele poderá preencher com o "conteúdo" que bem entender. Simplesmente podem querer, sinceramente, informar as pessoas, de acordo com suas convicções. Contudo, baseiam-se, em parte, naquilo que lhes foi ensinado na universidade e, conforme o caso, estarão de acordo com uma visão reducionista e preconceituosa da história.

Entretanto, poderíamos questionar por que algumas faculdades funcionam como "dispositivos de filtração de pessoas que pensem de forma independente", propagando preconceitos, conformismo e obediência. Simplesmente, aquilo que não é interessante para as empresas, "para o mercado", não serve para a faculdade. O ensino superior deixa de ser um centro de desenvolvimento do pensamento crítico, para tornar-se cada vez mais mero fornecedor de mão-de-obra especializada para empresas. Um artigo da revista Carta Capital chamado "McDonaldização do Ensino" esclareceu o resultado prático desse processo:

Cada vez mais, faculdades e universidades têm sido administradas como se fossem negócios. (...) A pluralidade do ensino e das opiniões, a ênfase na pesquisa, a reflexão crítica passam a dar lugar à busca desenfreada por resultados pragmáticos. Engraçado, pois a prática se aprende fazendo e não em salas de aula ou em livros, que deveriam servir para entender e pensar melhor a realidade. (...) As universidades públicas, que sempre formaram pessoas mais críticas, estão se transformando em "Universidades de Resultados": têm que mostrar que são produtivas. (...) A produtividade é medida por números: número de publicações, número de orientados na pós, número de cursos de extensão etc. (...) O professor que pesquisa, estuda e reflete é substituído pelo profissional que apresenta fórmulas mágicas (que se vende como "o que sabe fazer"), pois ensina quem é bem adestrado e bom de palco, não quem pensa ou sabe ensinar um sujeito a aprender por conta própria. A professora Neizy Cardoso, presidente do Sindicato dos Professores de Jundiaí, afirma: "Na maioria das universidades particulares, os professores que pensam raramente assumem as coordenações ou chefias de departamentos. Eles são podados pelos seus questionamentos e por muitas vezes não aceitarem nem compactuarem com os ditames do dono da escola".

Todo esse processo que leva intelectuais, filósofos e professores a um pensamento unilateral é o que influencia também a cobertura que os jornalistas fazem no dia-a-dia. A cobertura zapatista (que não foi) feita pela revista Veja apresentou esses sintomas, apesar de Clóvis Rossi presumir que o tratamento que a revista dispensou à caravana do EZLN esteja baseado em um conceito político:

No caso da Veja, suponho que seja atitude política. Deixou de ser uma revista para ser um panfleto neoliberal. Mesmo assim, não tem nenhuma informação. O mínimo que se pede para fazer um panfleto é que se saiba o que está acontecendo, mas lá não tem nada. (...) Deve dar urticária nos caras ver o sujeito com passa-montanha na cara.

Chomsky, entretanto, sustenta que fazer jornalismo opinativo como se fosse informativo é um sintoma cultural e não uma atitude política planejada. Eventualmente, o jornalista não sabe o que está fazendo - escreve assim porque o preconceito está internalizado e não se percebe. Tornou-se um hábito, perdendo, inclusive, a condição de preconceito. A seleção de pautas também é feita segundo esse "hábito", assim como a reprodução das notícias vindas das agências e a escolha das notícias que serão publicadas ou não. Tudo isso é feito sob uma ótica preconceituosa que passa despercebida. Aliás, as próprias notícias que chegam das agências já estão impregnadas de opinião e moldadas pela cultura, seja no texto ou na escolha das pautas. E de maneira alguma poderemos chamar de censura o que ocorre nas agências. Ele explica:

...cuando pasas por el sistema educativo de élite, (...), aprendes que hay ciertas cosas que no está bien decir y hay ciertas ideas que no está bien tener. Ese es el papel socializante de las instituciones de élite y si no te adaptas te apartan. (...) Cuando criticas a los medios (...) dicen, con mucha razón, "Nadie me dice qué tengo que escribir. Escribo lo que quiero. Todo ese rollo sobre presiones y limitaciones es una tontería, yo nunca tengo ninguna presión". Lo cual es completamente cierto, pero el tema es que no estarían ahí si no hubieran demostrado previamente que nadie tiene que decirles qué escribir porque ya dirán lo correcto ellos mismos.

Portanto, a origem dos erros cometidos nas coberturas internacionais em geral, e acusados no caso da cobertura zapatista, é cultural, no sentido mais amplo do termo, quando até mesmo influências políticas são determinadas por uma educação que tem "os olhos voltados para os EUA e para a Europa". Sob o ponto de vista da técnica jornalística (e da ética), esses erros poderiam ser apontados da seguinte forma:

1. Não houve uma clara separação entre informação e opinião. Não que se faça aqui a defesa de um texto "objetivo" e "imparcial", impossível de ser alcançado e tão discutido nas universidades. Entretanto, existe um tipo de linguagem mais adequada a artigos do que a reportagens.

2. O reducionismo aplicado às reportagens afeta profundamente a interpretação das notícias. É muito mais simples acreditar e sugerir que os zapatistas são rebeldes inconformados que lutam contra um governo democrático do que explicar que nem os zapatistas são tão rebeldes, nem o governo é tão democrático. Nesse caso, como afirmou Arbex, "a sensação de 'falta de tempo' para entender a fundo uma notícia estimula o recurso ao clichê, ao preconceito, à reiteração de concepções já formadas" . Ou, melhor ainda, como explicou o jornalista Leão Serva:

O reducionismo jornalístico acaba funcionando como o próprio reducionismo nacionalista - recusando informações mais "complicadas", digamos, do que conceitos excludentes como raça, nação, pátria etc. (...) A ausência de conhecimento de uma informação pelo receptor (...) pode fazer com que uma história complexa se torne um caso de maniqueísmo.

Essencialmente, isso se explica pela falta do contexto na notícia: "O trabalho jornalístico (ou do historiador) será o de explicar, da melhor maneira possível, o encadeamento de eventos que produziram um fato considerado relevante."

3. A falta de uma pluralidade de vozes na cobertura. Normalmente, só as fontes oficiais são ouvidas e, consequentemente, apenas a versão oficial é publicada - isso, é claro, quando o assunto não é completamente ignorado, como fez a revista Veja. Na cobertura da caravana zapatista, era comum encontrar reportagens publicadas sobre os pontos de vista do governo mexicano, na voz de um ministro, deputado ou senador, ao passo que raras vezes se viram entrevistas com indígenas, justamente aqueles que lutavam por seus direitos e por isso "tornaram-se notícia". Muitas pautas nunca "são notícia" simplesmente porque nenhuma agência internacional achou o assunto interessante. Povos ficam esquecidos e nunca são ouvidos, ficam sem visibilidade na imprensa - e, se "se não está no jornal, não existe" -, são condenados ao esquecimento.

* Parte do projeto de conclusão de curso da Faculdade Cásper Líbero apresentado em nov/2001.
**Marcos Faerman (1943-1999) foi repórter do Jornal da Tarde, da revista Realidade, editor de Ex e professor da Cásper Líbero, entre outras coisas.