Os atravessadores de laranja

"Não posso servir a dois senhores ao mesmo instante. Não posso ser simpatizante à luta dos excluídos das 8 às 18 horas e depois fumar morte sob a aparência de vida para relaxar. Contestação social não é uma empresa onde se bate o cartão"

Por Marcelo Netto Rodrigues*
EmCrise – 15/03/2002

Quantas vezes nos sentimos lesados? Que temos a ciência de estarmos sendo trapaceados, e preferimos saciar nossa sede momentânea pagando até 2,70 reais por um copo de suco de laranja quando sabemos (ou saibam) que um bóia-fria recebe 15 centavos para recolher 150 laranjas? Façamos as contas: para um copo (sem gelo) 4 laranjas são suficientes. Assim, não basta subtrairmos 2,70 reais de 15 centavos, o que já nos deixaria possessos de raiva por pagarmos 2,55 reais a atravessadores de laranjas. Não se sinta ofendido com a gíria correlata. A extorsão é ainda mais líquida, flui como suco. Vejamos: 15 centavos divididos por 150 laranjas são iguais a 1 centavo por cada laranja. Quatro laranjas nos custariam então 4 centavos, mas engolimos os 2,70 reais. Isso acontece porque quem planta não colhe, recolhe para quem não põe a mão na terra, mas é experiente em meter a mão descaradamente no bolso dos outros. Imagine esta laranja chegando a você direto de camponeses humildes (no sentido que a muitos causa asco) num preço muito inferior aos 5.000% que os "sabidos" nos aplicam. Acredite, lucro de 5.000% num copo de suco de laranja!

Detalhe: apesar de usar a maior parte dos já poucos 36 milhões de hectares que produz para a cultura de grãos (arroz, feijão e milho), o Brasil ainda é o maior fornecedor de frutas do planeta. Apenas 36 milhões dentre 400 milhões aptos à agricultura. O restante encontra-se cercado de arame farpado nas mãos de outros "sabidos" para a especulação "alimentária" (sic). Não pensem que os "sabidos" + "sabidos" produzem em nome da fome da nação nestes pífios 9% do que podíamos nos alimentar 20 milhões destes hectares foram obtidos pela luta incansável dos sem-terra. Os "sabidos" (agora, incluo todos) querem um Brasil que produza somente 4% de sua capacidade. Realidade que nos impõem com ares de sapienza.

Para releitura dos parágrafos acima por aqueles desnorteados com tantos hectares desperdiçados, 1 hectare é aproximadamente 1 campo de futebol. A área total do Brasil é de 850 milhões de campos de futebol; o que explica nosso talento com a bola e abre espaço para vitórias em outros campos mais indispensáveis, como o de salvar vidas, tamanha a biodiversidade. "A Terra de Vera Cruz", - que a querendo aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!". Caminho indicado por Caminha. O atravessador de laranjas é engraçado. Cheio de graça. Vive graças a nossa inoperância, descaso, vaidade. Vive à vontade. Conhece as nossas. Nos dá o que queremos. Não precisamos nos abster, nos esforçar. Desistimos fácil, fácil de nossa indignação quando ele nos confronta: "Você vai querer pagar o preço por sua coragem de me desafiar?".

O que parece barato sai caro. A lógica do ter fala mais alto: "Quem tem, tem, quem não tem, conta piada" e continuamos a esconder nossa indiferença pelo sofrimento alheio, como se fosse algo natural quando escutarmos Brecht, "poderá ser tarde demais, já estarão nos levando". Pensei em não lembrar aqui o preço de uma coca-cola para não ser acusado de "nacionalista arcaico" como nosso príncipe resume aqueles descontentes com transnacionais que praticam um imperialismo travestido de inculturação, mas quem já não teve de engolir coca-cola no lugar de laranja, vivendo no maior pomar de frutas da Terra ou morrer de sede por não ter acesso a nenhuma das 2 opções? Simples acaso ou dominação econômico-cultural? Quando a fórmula da coca-cola foi usurpada de índios peruanos há 115 anos por outros tipos de "sabidos" na hierarquia dos "sabidos", só que agora "gringos" lhes foi oferecida em troca "a grande honra" de espalharem as cores peruanas (vermelho e branco) no logo da marca pelo mundo, além de se comprometerem a assumir o termo "cola" (correspondente a refrigerante em sua língua; assimilado também pela língua espanhola).

Assim como os nossos aceitaram espelhos na esperança de verem refletidos um mundo a sua imagem de pureza, seus iguais peruanos imaginavam que sua sabedoria fosse divulgada e reconhecida pelas nações - no fundo formariam um só grande povo. Em vez da mensagem de reconciliação entre "índios selvagens" e "brancos civilizados", os "sabidos" estadunidenses preferiram a apropriação do conhecimento visando à dominação. Dão a impressão a seus consumidores que "descobriram" a bebida mais presente nos lares de quase todos os povos do mundo. Descobrir, diz o dicionário, é achar pela primeira vez. Neste caso, foram os índios que descobriram a mágica combinação entre folhas de coca e uma água gasosa que minava dentro de seu território. A usavam como droga para doenças estomacais, os brancos "sabidos" a vendem como algo que refrigera, apesar de estudos constatarem sua natureza viciante, como droga. Quem não tem um amigo que não se sente envergonhado de se assumir viciado em coca-cola?

Outros brancos, felizmente não tão "sabidos", preferem ver sua ação corrosiva desentupindo ralos no lugar de estômagos, comparando-a adequadamente ao "diabo verde". O mal é astuto, atraente, tentador nos oferece o mais fácil, o mais cômodo, o que nos traz vantagens rápidas na linha "tempo é dinheiro", mas mesmo se esforçando ele não consegue se esconder completamente. Existem fábricas da coca-cola que não precisam mais de uma dezena de funcionários para apertarem botões e produzirem e demitirem em larga escala sob os auspícios de "Our Ford"; corruptela para a expressão "Our Lord", Nosso Senhor Deus em inglês, cunhada por Aldous Huxley em "Admirável Mundo Novo". Henry Ford é o "sabido" estadunidense pai da linha de montagem que visa qualidade total com menor custo.

Quantas vezes nos deparamos à porta da geladeira fitando frutas passíveis de se transformarem em suco e preferimos a facilidade de rosquearmos uma tampinha que parece libertar o "gênio da garrafa" para fazermos três pedidos? "Primeiro: que minha preguiça possa reinar e encontre algo já pronto, ready-made, para beber, sem sacrifícios, sujeira ou perda de tempo. Segundo: que mate minha sede instantaneamente, mesmo que outras pessoas não possam ter acesso ao que bebo. E terceiro: que justamente por "poder" realizar os dois pedidos anteriores eu seja visto de forma especial, com prestígio, uma pessoa digna de parceiros no mundo todo, desde artistas a presidentes, que também a veneram e podem bebê-la, dando-me a impressão de que somos parentes próximos em atitudes e ideais de vida, enfim, como se tivéssemos pelo menos alguma coisa em comum.

Na "história oficial" da coca-cola e em suas propagandas, os índios peruanos não aparecem. Aparecem mulheres arianas e slogans hedonistas: "coca-cola é isso aí", "sempre coca-cola", "emoção pra valer", "beba coca-cola", "gostoso é viver". Não importa o custo. Para termos uma idéia de "suas conquistas", a ONU, por exemplo, agrupa 190 países-membros contando com a recente entrada da Suíça, já a "coca-cola company" está presente em 200 países. No Brasil, desde 1942, sob um pretexto militar estadunidense por incrível que pareça. Como num bonito conto de fadas à la "Resgate do Soldado Ryan", o site oficial da coca nos conta: "em um esforço de guerra determinado por Robert Woodruff, presidente da "the coca-cola company" na época. Durante a II Guerra Mundial, ele assegurou aos soldados norte-americanos (altero para estadunidenses) que, onde quer que estivessem, poderiam tomar coca-cola gelada.

Foi assim que a coca-cola desembarcou em Recife-PE, que, junto com Natal-RN formaram o "corredor da vitória". Que história tocante! Continuando a falar do Brasil e de seus atravessadores de laranjas, ainda existem alguns que o são não por opção: ou espremem "laranjas" ou serão eles os espremidos. Tiram dos que (os) esbanjam e redistribuem aos necessitados. Processo inverso ao dos clássicos atravessadores. Lesam "laranjas" no bolso e na mente com tamanha maestria que o "laranja" estufa o peito e ainda diz que não é "laranja". São legítimos representantes da quebra de contrato entre o Estado e suas comunidades. Estado que pratica a lógica de que "alguns são mais iguais que outros". Assumem uma tarefa histórica ingrata e contraditória: combatem por sua própria extinção até que o resgate social aconteça. Enquanto isso, alimentam seus filhos com o gosto da morte.

Alguns "laranjas" naturalistas mais politicamente corretos se intitulam seus simpatizantes, dizendo comungar de sua dor e sofrimento, e sob auto-engano, permitem-se serem seus usuários com um discurso apelativo e convincente para os mais bobinhos. São "homem de bem e de bons costumes" que ajudam o atravessador a manter seus filhos. Ilusória e conveniente argumentação que satisfaz meus caprichos descompromissados e egoístas.Não existe desculpa: "Ah a maconha representa apenas 5% do mercado". Não existe meia-morte. Morte é morte. Não existe convivência pacífica entre os marginalizados e os que se esbaldam com seu sangue derramado. Não é possível a comunhão com co-autores da morte de irmãos. Não me adianta defender movimentos sociais em atos, passeatas e emoções, se peco em atos, palavras e omissões.

Não posso servir a dois senhores ao mesmo instante. Não posso ser simpatizante à luta dos excluídos das 8 às 18 horas e depois fumar morte sob a aparência de vida para relaxar. Contestação social não é uma empresa onde se bate o cartão. A opção pelos pobres não é tão simples como vestir uma camiseta do Che ou um boné do MST. Um "laranja" mais esperto pode tentar sair pela direita, respondendo que em vez de comprar morte, vai plantar vida para consumo próprio, particular. Deturpando ao seu gosto rituais indígenas feitos com alucinógenos que a própria natureza proporciona. "Ao xamã, ou pajé, não é permitida a extravagância de uma viagem; individual, instrospectiva. Ele deve sair da individualidade para se projetar no coletivo, a serviço de seu povo não importa quão iluminado um jovem universitário possa sentir-se sob a ação da maconha, o fato é que não existe entre nós (caras pálidas) nenhum contexto. Exige-se sempre que (plantas psicotrópicas com a exceção do tabaco) sejam tomadas (fumadas) em ocasiões especiais e por pessoas específicas. Essas ocasiões são rituais, e as pessoas os seus oficiantes ou aprendizes de oficiantes. Em praticamente todas as sociedades indígenas, as crianças são excluídas; em outras, as mulheres também, já em várias outras, as práticas rituais com o uso de drogas podem ser tanto masculinas como femininas".

"É bem verdade que uns poucos (índios) tomam a droga sem serem xamãs e, por isso, não têm condições de controlar o seu efeito. Simplesmente entram em um estado de torpor, sem canalizá-lo para qualquer atividade. Limitam-se a ficar sentados ou deitados em distante letargia, alheios ao que se passa ao redor. Esses (índios) que, por uma série de razões sociais e psicológicas, nunca conseguiram fazer um aprendizado de xamanismo satisfatório, tomam a droga apenas nesses contextos rituais, como se eles mesmos estivessem no lugar de xamãs". "Postos a serviço dos índios, esses alucinógenos são peças fundamentais nas curas de doenças e outros infortúnios, na proteção das comunidades contra ataques mágicos ou cataclismas naturais, na apropriação de boas caçadas", nos desvenda em artigo a Doutora em Antropologia, Alcida Rita Ramos sobre "A Viagem dos Índios, Maldição ou Benção?".

Não me basta querer plantar e fumar ao meu bel-prazer, a hora em que eu quiser, quando eu escolher, para eu "comer" a menininha ou o garotinho. Fumar para eu esquecer os problemas da minha vida, para eu ser rebelde, para eu relaxar. Esse oba-oba de "becks" ininterruptos deve ser prática exclusiva de "bagaços de laranja" que não estão nem aí com a justiça social. "Bagaços de laranja" exprimidos que sem se aperceberem vão sendo jogados no lixo (limbo) da História.

*Marcelo Netto Rodrigues, 28, jornalista independente, militante de base do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)