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De cobras, gerúndios e outros bichos
Dois textos pescados na internet, "Complicabilizando" e "Gerundismo", assinados por Ricardo Freire, bem-humorado jornalista do O Estado de S. Paulo, chamam atenção para duas pragas atuais da má-falação e da escrevinhação da língua portuguesa. "Complicabilizando" (perdoe-me o autor, cito de memória) goza a mania atual de inventar verbos novos, dispensáveis, terminados em ilizar e lizar (acrescente-se izar para alguns casos), em cuja imensa família reluz o mais vistoso representante, o inútil e inexistente inicializar, propagado pelas máquinas do Bill Gates: ninguém consegue mais simplesmente abrir um computador ou iniciar um programa, deve-se inicializar. Antes, alguém deve disponibilizar o software, após priorizar (ou seria prioribilizar?) o trabalho. A justa birra de Freire, de tanta, leva-o a declarar que nunca mais vai utilizar, apenas usar, atitude mais que suficiente, no seu entendimento, para se atingir a felicidade. Ao final, Freire confessa seu maior temor: daqui a um tempo, vai ouvir o filho expressar algo como "Você não pode me impedibilizar de pensabilizar do jeito que eu quisibilizer". Só nos restará o suicídio, ou a fuga pra uma ilha muito, muito afastada de tudo. "Gerundismo" ri de outra mania ridícula e inútil, a adoção no dia-a-dia da linguagem de marketing telefônico mal adaptada do inglês. (O gerundismo tradicional vai estar sendo mais insidioso do que o atendimento de marketing para venda de bens e serviços faz crer.) Para que o leitor veja essa distorção que virou gênero, basta que se diga: vou estar escrevendo sobre o gerundismo, e o leitor vai estar lendo enquanto vai estar refletindo sobre o que vai estar dizendo quando for perguntado sobre o que vai estar concluindo... e por aí vão os atendentes de marketing telefônico e expressiva parcela dos professorado de escolas superiores do país. O jovem estudante de direito Nizam Ghazale, amigo brasiliense, resolveu contar o quanto cada professor escorrega, mas desistiu: "É tanto que, ou eu contava, ou prestava atenção às aulas". (Parênteses: o atendimento de marketing para pedido de conserto, reclamação, exigência de devolução de dinheiro pago a mais ou por engano não é sujeito a você vai estar sendo informado ou bem tratado; é substituído por encaminhamentos aos setores competentes que quase nunca ocorrem porque o incauto desiste, cansado de uma voz que propagandeia, durante o mínimo dos oito minutos que ele suporta, as fantásticas vantagens do negócio que ele vai estar pretendendo contestar com sua queixa inoportuna.) As dimensões da cobra Mas o horizonte anda tão cheio de atentados antigos reafirmados que até penso nesses dois novos fantasmas, o gerundismo inglês e a complicabilização, como frágeis seres carentes de compreensão e carinho. A maior dificuldade encontra-se mesmo é no crescimento e no inusitado vigor das velhas pragas. Em trabalho encerrado de sete anos para um vetusto instituto de pesquisa econômica, nas funções de revisor e editor de textos e de coordenador de alguns projetos editoriais, e também para vários programas do governo federal financiados a dólar, nunca vi, por exemplo, um só relato de pesquisa que não abusasse da praga quando. Assim: "A população X cresceu entre 1986 e 1989 a uma taxa de 1,7% a.a. Por outro lado, quando examinamos os dados atuais do IBGE, observamos um viés..." Nos primeiros meses corrigia tudo: nada de por outro lado, que é conversa obscena; anotava do exame dos dados, examinados os dados, e não quando examinamos, mesmo porque os dados mantêm-se firmes independentemente de quando o autor os examine; trocava por coisa melhor o viés, que para mim sempre foi assunto de costura; minha mãe aplicava viéses e pences nas roupas dos muitos filhos e filhas nos tempos em que se falava bonito e se costurava e fazia macarrão em casa. Em poucos meses, desisti. Deixei o quando quieto, larguei o viés em paz, e entendi que sem esta dupla nenhum economista consegue estar refletindo sobre o mundo. Mas o por um lado, por outro lado, este penou para me vencer. O drama é que o mau-caráter sempre andava de bando, de braços armados com sua gangue: o mafioso De modo geral, primo do capo De um modo geral; o vigarista Ao que tudo indica, parece...; o ladino Ressalvadas as indicações em contrário, talvez se possa...; o sorrateiro Tudo o mais constante, pode-se inferir...; a famiglia inteira, sempre presente em todos os livros, teses, monografias; terroristas do eixo do mal contra o bem da clareza e da coragem de afirmar. Para evitar ser metralhado durante um inocente almoço, por exemplo, ou talvez ser surpreendido por uma navalha no pescoço num raríssimo barbeiro que descobri na capital, e também em nome do imperativo da manutenção do equilíbrio entre o ótimo e o possível, em menos de um ano de trabalho declarei-me vencido pela famiglia. Nesse período, contei dezenas de irados autores e autoras que invadiam minha sala para ameaçar-me com conseqüências tão drásticas quanto as que suas teorias fazem desabar sobre os ossos dos pobres mortais do país. Como sabe o leitor, quando intelectuais percebem-se corrigidos, eles se enfurecem...(este gênero de praga de período também foi vencedor). Cobreiros ocultos Mas outros
inimigos sempre à espreita jamais me levaram ao abandono das forças
ou das esperanças, pelo menos não tanto quanto o fez até
agora o governo Lula. Onde se escondiam? Através de quais
meios se manifestavam? Atacariam enquanto inimigos, ou fingiriam
amizades? Estes três eram apenas os comandantes mais visíveis,
ou melhor, visibilizados, das divisões de ponta e dos comandos
avançados envolvidos na destruição do Iraque, digo,
da língua inculta e bela do bigodudo Bilac. Combati essas pragas
sem trégua, à sombra, como o herói grego, tal a quantidade
de canetas gastas, que cobririam a luz do sol três vezes. Quase submergi nas navegações por textos revoltos em que boiavam ameaçadores documentos onde registram..., improváveis ministros que falam através de assessores..., reles medidas provisórias enquanto políticas... e outras centenas de versões malignas similares dessas figuras que, como serpentes, encantam-se e posam suas belezas falsas até que um resistente lhes desnude o traseiro sujo. Arrostei as ameaças e os perigos, e contra esses inimigos jamais consegui ser condescendente, como não consigo até hoje: sou teimoso, além de mineiro, e sempre acreditei que onde mora melhor em endereço certo no espaço, nunca em documentos; através fica mais feliz se é apenas um viajante que cruza o espaço e o tempo, jamais pessoas, a não ser se uma espada as atravessa (o que poderia ser boa solução para certos ministros); enquanto gosta mais de indicar simultaneidades ou algo entre dois momentos de tempo ou cenas, apesar de pressões para se ampliarem seus sentidos; algum é diverso de nenhum; etc. Tudo isso poderia valer, claro, desde que ressalvadas as exceções de praxe, guardadas as devidas proporções, observadas as idiossincrasias, analisados os pormenores em contrário, consideradas as evidências conflitantes, dentro do âmbito do contexto, primeiramente na medida em que sejam oportunizadas certas colocações e que se viabilize a inserção no contexto primordial das variáveis flutuantes... A cobra e o pau O gerundismo tradicional é praga mais antiga e omnipresente; é o gerundismo feijão-com-arroz nacional, em nome do qual todos os tempos de verbo são expressos pelo gerúndio, assim: "A parcela de deputados federais em 2002 trabalhando a sério...", no lugar de "A parcela de deputados federais em 2002 que trabalhou a sério foi mínima". Mais exemplos. "O número de reuniões entre membros do governo dando resultados foi medíocre." "A medida provisória liberando o plantio de soja transgênica agradou ao governo Bush e à Monsanto." "A quantidade de professores e professoras de português sabendo escrever é menor do que se imagina." Esta praga vem se revigorando e impondo sua presença, como a soja transgênica contaminante, e seu caminhar triunfal pela mídia reflete o avanço do "brasilismo", praga-mãe que pretende o abandono da língua portuguesa e a sanção à aceitação de erros e oportunices para contornar a insuperável incapacidade de falar e escrever, coisas que, como o samba e a ética, não se aprendem (mais) na escola. O gerundismo reflete o declínio da capacidade de conjugação, tanto quanto o brasilismo reflete o declínio geral; em resumo, a época é de declinação. Falar nisso, um dos erros magnos das mal-formuladas reformas educacionais (exceção parcial à conduzida pelo mestre Darcy Ribeiro) foi a eliminação do ensino e do estudo do latim, do francês e do espanhol no ensino básico e no médio. Em compensação, e ao lado da dominação política e econômica, o inefável inglês - pervertida mistura de normando itálico com germânico arcaico adicionada de leves pitadas de celta e viking - já aparece até em nomes de botequins, como no de uma birosca encardida de madeira em cidade satélite chamada Jon's Bar. Vive-se de costas para o país e a América Latina e com olhos gordos para Miamis e Disneylândias. Daí a desprezar e esquecer a fala original e incorporar sandices à língua pátria, como se dizia nos tempos em que havia o curso primário e o de admissão ao ginásio, é um pulo de sapo. Vá lá que pule o sapo, por precisão e não por boniteza, como bem notou mestre Guimarães Rosa, inventor de linguagens. Mas querer que os estudantes e o povo engulam o sapo é demais; vou estar protestabilizando até que a tinta da caneta esteja acabalizando enquanto recurso vital para estar escrevebilizendo. Desse jeito, com tanta cobra solta, e mesmo sem engolir sapo, não há tatu que agüente. |