Globalização e Livre Comércio nos Meios de Comunicação

Ignacio Ramonet, Michael Albert, Mino Carta e outros tantos fazem uma análise da influência que a globalização traz ao jornalismo. O norte-americano deu um exemplo: a Associated Press produziu uma reportagem sobre o alerta de que milhões de pessoas morreriam de fome se os Estados Unidos atacassem o Afeganistão. Nenhum jornal publicou.

Por Rafael Franco*
EmCrise – 16/04/2002

Com o surgimento de novas tecnologias os meios de comunicação têm crescido em número, mas também a concentração da propriedade destes meios têm crescido e as notícias se simplificam para o consumo massivo, resultado: desinformação.

Ignácio Ramonet (editor do "Le Monde Diplomatique") desenha com clareza as margens da globalização nos meios de comunicação: "vários canais de TV são mundiais; um homem-mídia, Rupert Murdoch, chefão da News Corporation, tem empresas de TV, rádio e jornal na Oceania, Europa, Ásia e América."

Enquanto isso, em terras tupiniquins, a PEC 203-B/95 - proposta que abre a mídia brasileira ao capital estrangeiro - pode permitir que este "império murdockiano" ancore por aqui. "Os meio de comunicação falam que estão quebrados e precisam de capital externo, mas o Jornal do Brasil contratou o Mário Sérgio Conti por um milhão de reais, mais salário de 50 mil mensais", lembra Mino Carta, editor da revista Carta Capital.

Ramonet aprofunda a analise deste grande mercado onde não apenas a informação é uma mercadoria. "As empresas vendem cidadãos aos seus anunciantes." Um exemplo é dado pelo diretor de programação da Rádio Educadora de Campinas, no vídeo "Pirata?", produzido pela Rádio Muda. Ele se orgulha do sucesso comercial que alcançou com as grandes gravadoras, e confessa: "as rádios grandes já tem um esquema com as grandes gravadoras, para o cara aparecer, em Campinas, cada música custa 5 mil reais para tocar 30, 40 dias."

Duas faces da censura pós-moderna

"Se antes se suprimia pedaços de reportagens, hoje escondem-nas da gente" - Ramonet

A distribuição das concessões dos meios de comunicação está fortemente ligada a este tipo de censura. O cubano Omar Gonzáles dá uma mostra econômica desta censura: na Espanha, 40 filmes nacionais deixaram de entrar em cartaz, no ano passado, pois não haviam salas. Nem é preciso dizer que elas estavam ocupadas por produções hollywoodianas, que ocupam em média 95% das salas de cinema pelo mundo. "Precisamos sanear nossas mentes, o audiovisual é tão importante quanto o saneamento básico," esbraveja Luiz Carlos Barreto. O cineasta, lembrou ainda, que 780 milhões de dólares saem do Brasil pelas redes deTV a cabo.

A importância do tema é confirmada por gente como o ex-embaixador e ex-diretor do Instituto de Pesquisas em Relações Internacionais, Samuel Pinheiro Guimarães: "discutimos soja e laranja, mas o audiovisual é muito mais importante para a sociedade presente e futura. Temos que arejar a produção, propõe Barreto. "Algumas leis do CFF americano são bons exemplos que podemos seguir: 30% de produção própria é o limite para cada TV, o resto tem que ser produção independente. Outra face do que eu estou chamando de censura pós-moderna é mostrada por Michel Albert, da ZnetMagazine: a censura agora é algo intrínseco do jornalista.

Um exemplo recente dado pelo norte-americano: A mega agência de notícias, Associated Press, produziu uma reportagem sobre o alerta de que milhões de pessoas morreriam de fome se os Estados Unidos atacassem o Afeganistão. O alerta veio de organizações humanitárias. Nenhum jornal americano publicou. Ele demonstra que apesar do elevado número de meios de comunicação, "nós americanos, somos os mais ignorantes do mundo." Albert avalia que os americanos simplesmente não registram a informação de quemassacraram o Afeganistão. "Publicamos todas as notícias que merecem ser publicadas", traduz e sintetiza o slogan do jornal NewYork Times.

Pensamento Único

Ramonet explora ainda outros conceitos, que ajudam na construção do pensamento único ou do consenso pela mídia: A nova verdade, que é "ver = entender". Quem viu, soube. Como se quem viu o empurra-empurra de manifestantes no Fórum Social Mundial pela TV Globo soubesse o que realmente aconteceu no Fórum. A fórmula mágica do sucesso: "estar = saber". em esteve, entendeu. O repórter falando ao vídeo, direto do Afeganistão, por exemplo, transmite a sensação de que ele entende toda a complexidade da região. Confusão e desinformação também se dão pela repetição das imagens, completa. A repetição da imagem das torres atacadas talvez seja o mais clássico exemplo.

*Rafael Franco é estudante de jornalismo.